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Passa da uma hora da manhã.
O sono não chega e aproveito para arrumar o meu diário, fiel companhia de tantos momentos.
Admiro-me sempre com isto da internet... neste momento, 9 países lêm o que escrevo. Do Japão ao México, do Uruguai à Itália e à Alemanha. Chego a ficar assustada com tanto poder que tem este pequeno aparelho à minha frente.
E podia ser aproveitado para fazer coisas boas, muito boas.
Eu, que me deparo com tantas dificuldades para realizar os meus projectos, fico aqui a pensar como seria bom ter a ajuda de algumas pessoas por esse mundo fora.
Falei nisso mais atrás - por cada bola colorida, um par de meias quentes.
Podia tornar o Natal dos meus amigos tão necessitados, muito mais Natal.
E quando ajudamos os outros, temos nós também um Natal muito mais Natal.
Lembro-me de quando se via uma criança descalça, nos dias mais frios de Inverno, alguém dizia: -Estão habituados,"Deus dá o frio, conforme a roupa".
O meu pai respondia sempre: -"Pois, dá muito, a quem tem pouca!"

Sabedoria

"A simplicidade é a sofisticação suprema"

Leonardo da Vinci

A Neve na minha terra



O frio gelava-me as mãos, enquanto procurava um pico da Serra da Estrela para fotografar, sem que as nuvens viessem fazer negaças.
Mas valeu a pena.
Aqui está a sua montanha mais alta, a Torre desaparecendo no véu de nuvens, numa beleza que nenhuma máquina fotográfica de amador, como a minha, consegue captar.






A Serra da Gardunha, por ser bem mais humilde, só nos dias mais frios acolhe a neve que a aproxima da magestosa Estrela, logo em frente.
Anoitecia e o brilho da neve tornava-se tímido e silencioso.


Só o vento gélido nos lembrava como ela era branca, macia e fria, muito fria.

Friiio...

Cheguei ao Fundão cansada e muito desanimada com a vida.
Todo o caminho choveu e os mil problemas que trazia no pensamento, resultaram numa condução pouco atenta.
À saída do carro, talvez reacção a 3 horas no ambiente aquecido, o frio fez-se notar.
O ar é cortante e a chuva grossa e lenta.
Quando chove e faz um frio assim, sabemos logo que a neve está a caminho, mas ontem não pensei nela. Aliás, não conseguia pensar grande coisa, com o cansaço e as arrelias acumuladas.
Então, pela manhã, a Natureza brindou-me com uma surpresa muito carinhosa.
A Serra da Estrela está coberta de neve, tão branca como um bolo de noiva.
Do outro lado, a Serra da Gardunha parece um Pão por Deus,polvilhado de açúcar e côco.
Os anjos enfeitaram a minha terra com açucar em pó...
Quem nasceu e foi criado neste clima agreste, reviver esta memória na pele tem um sabor especial. Maravilhoso!

Ajidanha- nota 20 v.

A última peça do grupo, que é capaz de tirar horas ao seu descanso para fazer teatro!
Parabéns à Associação e parabéns a quem a apoia.
Parabéns ao Rui, pai do ainda pequenino César e neto da minha tia Fernanda, que tanto amo e que cedeu o guarda roupa para o Rui fazer uma dama tão charmosa. Ah! O Rui é o mais gordinho e sorridente.
Podem saber mais no blog e em www.freewebs.com/ocidentalpraialusitana
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Teatro Amador- De quem ama...

Num periodo de grande azáfama no meu teatro, procuro solução para os problemas e inspiração no teatro do Rui.
O Rui é um rapaz muito inteligente e da Paz. A caminho de concluir o mestrado, com a mulher e o filhinho a quem dar assistência, com o seu trabalho na Câmara Municipal da Idanha-a-Nova, ainda tem tempo para fazer teatro a sério, maravilhoso.
Como eu gostava de aprender com ele e estou muito longe, regalo-me a ver o seu Blog- http://www.ajidanha.blogspot.com/ e os pequenos filmes que lá guarda.
Parabéns Rui e não te esqueças, que mesmo que haja alguém que não saiba avaliar o teu trabalho excepcional-a maioria prefere ir ao centro comercial, achando até que estas coisas da cultura são só para quem não tem nada que fazer, ou não é bom da cabeça-o que realiza o homem é o que vem do fundo da sua alma, o que faz com amor.
E tu fazes coisas muito belas.

Lembrando ainda Bob Dylan

A minha banda preferida, Gun n´roses, pela sua sonoridade.

Beira-Mar

Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar



Sophia de Mello Breyner Andresen
Outubro de 1997




Quando a mensagem é boa...

A TV transmitiu a Missa desde Felgueiras e a minha mãe assistiu, como assiste todos os domingos, cheia de devoção.
A minha surpresa foi ouvir a música sucesso de Bob Dylan, cantada pelo coro da igreja.
Quantas estradas terá o homem que percorrer...
A resposta, meu amigo, "is blowing in the wind, is blowing in the wind."

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Quantas estradas tem um homem de percorrer
até se lhe chamar um homem?
Quantos mares tem uma pomba branca de navegar
até dormir na areia?
Sim, quantas vezes terão de voar as balas dos canhões
Antes de serem para sempre banidos?
(...)
Quantos anos têm de viver alguns homens
até lhes ser permitido serem livres?
E quantas vezes pode uma pessoa virar a cabeça
e fingir que simplesmente não vê?
(...)
Quantas vezes terá um homem de olhar para cima
até ser capaz de ver o céu?
E quantos ouvidos terá de ter um homem
até conseguir ouvir gente a chorar?
ARTIGO RELACIONADO / POEMA ORIGINAL INTEGRAL [INQUIETAÇÕES]

As Graças

Na cidade onde eu nasci, havia 4 senhoras que saíam à rua sempre juntas.
Iam à Missa, à praça, ao mercado semanal, ao café, à esplanada, enfim, a qualquer festa e reunião, sempre na companhia umas das outras.
Eram de idades muito próximas e de um nível social também idêntico.
Vestiam bem e o mesmo género de roupa, tinham a mesma modista, iam à mesma cabeleireira e faziam os penteados parecidos.
Eram educadas, ricas, respeitadas e de famílias muito tradicionais.
Os anos passavam e as senhoras continuavam solteiras e sem qualquer pretendente às suas delicadas mãos.
Apesar de muito prendadas na doçaria tradicional e conventual, habilidosas nos bordados de ponto pé de flor, grilhão e crivo, conhecedoras das mais variadas espécies de bainhas abertas, ajours e pespontos, tapeçaria de meio ponto e de Arraiolos, obras que saíam das suas mãos como se ninguém lhes tivesse tocado, (autênticas mãos de fada), nenhum homem as olhava com enlevo, com as pálpebras descaídas e o peito a arfar de suspiros.
Elas mostravam-se primorosas, delicadas, gentis, suaves, comedidas, angelicais, mas não havia um só gentil homem que as cortejasse.
Então, perante tal espectáculo de mostra e sugere, de passinhos de pintassilgo e pestanejar de actriz do cinema mudo, de chazinhos na mesa da pastelaria e limpar os cantinhos da boca sem danificar o baton encarnado, as pessoas interrogavam-se porque seria que as queridas amigas continuavam a ter de se fazer companhia umas às outras, suspirando pela companhia de alguém com a voz mais grossa, as mãos mais rudes e ainda aquilo que elas não se permitiam conhecer ao vivo, mas que lhes descontrolava o ritmo cardíaco, só de imaginar o aspecto.
Eram feias... coitadas, eram muito feias.
Mas quantas mulheres feias tinham encontrado um parceiro? Quantas?
Gordas, com bigode, quase carecas, sem dotes para a cozinha, para os bordados ou para as paciências com dois baralhos, sem talentos para esposas. Quantas? Muitas, muitíssimas.
Mas elas não tinham mesmo quem as quisesse.
Os pobres, não tinham bastante coragem e os ricos, não tinham suficiente espírito de sacrifício.
Passaram a chamar-lhes "As Graças", pois diziam que uma delas, "Nem de graça", outra, "Só por graça", outra ainda "Nem por graça" e a última "Uma desgraça".
E assim ficaram invictas as primorosas senhoras, que passavam os serões a fazer bordados a cheio e rendas finas para os altares da capela, onde o Sr Padre Coadjutor (ajudante do Prior, novo na cidade, na idade e nas práticas de perdoar os pecados por pensamentos, palavras e obras) treinava as bênçãos e os "ora pro nobis" de forma tão abnegada e de vocação tão iluminada.
O que é que tinham para afastar os cavalheiros de forma tão sistemática, nunca ninguém soube exactamente.
(Contavam que um dia as tinham ouvido comentar enlevadas."-Desde que tomamos conta do Sr. Coadjutor, ele até está mais bonitinho." E outra retorquiu "-Sim, e a pele mais luzidia". Logo outra atalhou "-E mais sorridente!". Por fim, a última rematou com entusiasmo "-E mais pesadinho, mais pesadinho!"Claro, que estas eram más linguas...)

Coração de cereja


Usas as palavras, para te promoveres.
Na primeira pessoa, sempre na primeira pessoa do singular, contas as casas, os carros, as motos, os negócios, as empregadas, as viagens... Aproveitas os anseios dos outros, para te valorizares, para te sentires importante. Rejubilas com a subserviência de quem sonha e vê em ti um modelo, uma heroína. Escondes, atrás da casa no Algarve, do apartamento na cidade e dos negócios que nem são teus, mas de alguém que tu serves, o luto em que vive a tua alma.

Esqueces de dizer que por causa dos cargos, quase não vês quem amas.

Não queres mostrar como as casas são a prisão dos teus sonhos, que vão morrendo todos os dias.
Mascaras a tristeza em que vives, ao seres esquecida, ignorada, deixada para trás.
Falas no espectáculo que foste ver... não da solidão que sentiste! Gabas os passeios que podes dar... não a ausência que te magoa! E em todas as contas que fazes (sim, que eu chamo a isso fazer contas à vida - não tenho isto, mas tenho aquilo!!!) o teu saldo continua negativo. Quem te admira, não é a ti, mas ao que tu dizes ter. Quem te dá razão, não é porque a tenhas, mas porque sente que quem tem tanto, também a terá... Mostras a tua carteira, para que não vejam o teu coração.

E pior... Nem tu sabes se possuis mesmo tudo o que contabilizas, pois já tantas vezes os multiplicaste para tentares encontrar uma compensação, que nem queres saber já, se enganas só os outros, ou a ti também. É embasbacados, que os que nada têm, seguem as parcelas da tua contabilidade e vão cheios de esperança jogar na lotaria, convencidos que a tua sorte os contagiou. E não vêem que levaram apenas o teu luto, a tua má sorte, a tua tristeza camuflada de ilusão.
Legenda ao desenho: "Porque és tan dura la dulzura del corázon de la cereza?" Pablo Neruda

Saudações para os USA

Hoje, no meu mapa de leitores, vi que estou a ser lida em Mountain e em Philadelphia.
Adorei o filme Philadelphia, onde se aborda a problemática da marginalização do homosexual e da sida.
A música de Bruce Springteen, "Streets of Philadelphia"é também uma das minhas preferidas.
Para este leitor e para o de Mountain, na outra costa da América do Norte, no caso de voltarem aqui, as minhas saudações.
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Nota:
Na foto, o Castelo de Leiria, prenda que o Rei D. Dinis ofereceu à esposa, a Rainha Santa Isabel, no dia do seu aniversário.
Enquanto ela visitava os pobres e bordava na varanda lindíssima, que se vê com os arcos, ele ia visitar a sua amante a Monte Real... onde é que já vi isto?

Conselho...



"Não discutas com um idiota, ele arrasta-te para o seu nivel e ganha-te aos pontos."

Em nome do amor

O amor é constantemente chamado para justificar o egoísmo, a falta de carácter, a traição, a leviandade.
Em nome do amor, mente-se. Em nome do amor, agride-se. Em nome do amor, mata-se.
O amor é usado para cobrar, para exigir, para subjugar, para torturar, para pedir.
Amam, mas ludibriam, desculpando-se com o medo de perder o objecto do seu amor...
Amam, mas magoam, maltratam, humilham, tentando depois convencer-se que é de tanto amarem, que perdem a razão.
O amor está, no entanto, bem distante de quem mente, de quem tem medo, de quem é egoísta.
Só a cobardia encontra forma para se justificar com o amor.
Ele é impaciente para se dar, persistente em se oferecer, incansável em tentar, corajoso para conseguir, inconsequente em lutar.
Dizem que é amor, mas a quem amam... não é mais do que a si mesmos.
O amor tem as costas largas.

Evasão


Mudar as fases da Lua, as estações do ano, ou o trajecto das estrelas cadentes, não depende de mim.
Não consegui evitar que morresse a árvore de que eu sou o fruto, que esmorecesse o amor que alimentava a minha vida, nem que se afastasse a amizade que dava um sorriso ao meu olhar.
São meus companheiros a solidão cercada de gente e o silêncio entre dois gritos.
O pôr-do-sol é o meu leito e o céu estrelado, a colcha que me protege.
Os meus sonhos procuram horizontes longínquos e asas imensas que me levem sobre o mar.

Talvez...





De todos os sentimentos, se o mais forte é o amor,

A amizade é o mais difícil.

Como nos vemos... como somos.

Recebi há uns dias este pequeno texto e porque o acho engraçado, não resisti a transcrevê-lo. Aqui fica:

"Já aconteceu, ao olhar pessoas da sua idade, você pensar:
-Não posso estar assim tão velho(a)!!!!
Veja o que conta uma amiga:
- Estava sentada na sala de espera, para a minha primeira consulta com um novo dentista, quando observei o diploma estava pendurado na parede.
Estava escrito o seu nome e, de repente, recordei de um moreno alto, que tinha esse mesmo nome.
Era da minha classe do colégio, uns 30 anos atrás, e eu perguntava:
Poderá ser o mesmo rapaz com quem eu namorei naquela época?
Quando entrei na sala de atendimento, logo afastei esse pensamento do meu espírito. Este homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado, profundamente enrugado, era demasiadamente velho para ter sido o meu amor secreto.
Depois de ter examinado os meus dentes, perguntei-lhe se ele tinha estudado no Colégio Sacré Coeur.
- Sim, respondeu-me.
- Quando se formou? perguntei.
- 1965. Porque pergunta? respondeu.
- É que... bem... você era da minha classe, exclamei.
E então, este velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, filho de uma decaída, me perguntou:
- A senhora era professora de quê?"

Saber



"Somente duas coisas são infinitas: O Universo e a estupidez humana.
E não estou seguro quanto ao primeiro."

Albert Einstein

Gordura transparente e viscosa.

Eu sentia que não gostava de "mão de vaca", mas toda a gente dizia que apreciava, que era muito bom e acabei por pensar que talvez eu estivesse enganada.
Às vezes, os nossos gostos alimentares mudam com o passar dos anos. Eu convenci-me que talvez aquela relutância, fosse apenas uma mania da infância.
De todas as vezes que iamos almoçar e os meus companheiros de restaurante pediam o conhecido prato, eu pensava no assunto. O aspecto era apetitoso, o molho grosso, o cheiro normal. Mas adiava sempre a prova que me recomendavam.
Hoje fomos todos almoçar. Os pratos do dia eram: Sardinhas assadas e mão de vaca. Sardinhas não como, por causa do cheiro, das espinhas e da estragação que faço... além da fome que me assalta meia hora depois de almoçar.
Todos ficaram alegres com a ideia do grão com mão de vaca. Vieram para a mesa caçarolas de barro com molho a deitar por fora e o frasco do piri-piri.
Picante, detesto.
Deitei um pouco do grão no meio do prato e quando pensei deitar a segunda colherada, reparei que a carne era toda transparente e viscosa, cortada em tiras que se enrolavam nas pontas, sem parecer carne, parecendo antes pele.
Tirei só um bocadinho. Apesar de pequeno, ainda o cortei ao meio.
Levei à boca um grão e outro. Os meus lábios ficaram a colar-se, peganhentos.
Aguentei, sempre a pensar que era mania minha...
Quando arranjei coragem para meter na boca o primeiro pedacinho, já tinha ouvido dez vezes a mesma pergunta: "Então não come?"
Aquela gordura mole e gelatinosa escorregou de um lado para o outro, primeiro no prato, depois, no garfo e por fim, na minha boca. Engoli depressa, para evitar cuspir...
Tive a certeza, ao 3º arrepio, que não gosto mesmo de mão de vaca.
Estive 20 anos sem comer, vou estar outros tantos de novo, se viver!

Adeus a Paul.

No sábado passado, dia 27 de Setembro, desapareceu Paul Newman.
A última vez que o vi representar, foi no filme "As palavras que nunca te direi".
Já mais velho, continuava cheio de classe.
Era um dos meus actores preferidos. Era bonito e tinha um ar muito romântico.
Uma vez fiquei indignada por ler que a mulher, companheira de toda a sua vida, afirmara numa entrevista que as fãs do marido desconheciam como ele ressonava.
Fez-me sonhar com um namorado com o seu aspecto e tornou maravilhosas muitas horas da minha vida.
Foi mais uma vítima de cancro... é um "soma e segue".
Espero que tenha à sua espera uma nuvem bem fofinha, com vista para um lago de águas limpidas, árvores frondosas e verdes relvados, onde possa conversar com os amigos que o precederam.

Gentileza com uma mamã!

Ao ler um artigo sobre a falta de civismo dos portugueses, lembrei-me dum episódio engraçado que se passou comigo, quando estava grávida da minha filha.
Costumava ir de autocarro para o meu trabalho, atravessando uma zona de Lisboa muito movimentada.
As pessoas apertavam-se nos transportes públicos, sendo penoso para todos aquele percurso de pára/arranca, que atirava uns contra os outros, fazendo dores musculares nas pernas para se equilibrarem em pé.
Eu estava no fim da gravidez e já bastante "barril", embora me mexesse muito bem.
Entrei no autocarro cheio e ninguém me deu o lugar. Fiquei em pé, perto do motorista, que quando viu a minha barrigona me perguntou, pelo espelho retrovisor, se eu queria sentar-me.
Eu respondi que não valia a pena, pois sairia daí a 3 ou 4 paragens.
Não houve troca de muitas palavras, apenas de alguns gestos e com a azáfama das entradas e saídas, aquele comentário ficou apenas entre nós dois.
Eu agarrava-me, com quanta força tinha, ao varão perto da porta e mesmo assim era projectada 2 passos para a frente e para trás em cada travagem.
A dada altura, uma pessoa lembrou-se de dizer :
-Há uns lugares reservados para as grávidas, não vêem que a senhora pode bater com a barriguinha ou desequilibrar-se e cair?
Os que ocupavam os lugares destinados a casos como o meu, faziam-se distraídos.
-Se está com pena da senhora, dê-lhe o seu lugar-dizia um homem que ia noutro banco.
-Olha o parvo! Quem lhe pediu opinião? Não vê ali a placa a dizer a quem se devem dar aqueles lugares? Aqueles lugares são para pessoas como esta senhora. Não sabe ler?
-Parva é você! Querem lá ver! Então se está com pena da senhora, levante o rabo e dê-lhe o seu lugar. Coitadas das mulheres da cidade!!! Na minha terra, vão trabalhar para o campo até à hora de terem os filhos e não morrem. No dia seguinte já estão finas.
-Você é um bronco das berças. Que matarroano... Então não vê o perigo que é uma pancada com a barriga no varão?É bronco e estúpido... e mal educado, por se meter nas conversas alheias.
-Você é que é bronca. Está-me a ofender, sua ordinária.
-Ordinária é a sua mãe!
-Ele tem razão, dizia outro, há mulheres que se fartam de trabalhar até ao momento de terem os filhos e têem os garotos na mesma. Estas aqui são muito finas!
-E que tem isso a ver com o que se está aqui a passar? Não vêm o perigo? Cambada de anormais!
-É isso mesmo. Esta cambada que não respeita nada nem ninguém havia de ser posta dos autocarros para fora. Mas só aparecem os fiscais quando não são precisos-apoiava outra mais lá atrás.
-Mas quais cambada, quais quê! Você é muito respeitadora, é... levantar esse traseiro do banco, é que está quieto! Um gajo vê cada uma!
-Olhem para este alarveirão, está habituado a tratar a mulher como se fosse uma mula.
Eu estava calada, o motorista, sempre atento ao trânsito, olhava para mim de vez em quando, mas continuava sem dizer nada e os que iam nos lugares reservados, calados iam.
Todo o restante autocarro era uma guerra de palavras, um arremeço de ofensas e insultos, um subir de tom a cada frase, já não se entendendo nada do que diziam, tal era a gritaria. A cada minuto os "piropos" eram mais criativos e acompanhados de "gafanhotos" que saltavam das bocas a espumar de raiva.
Eu vi que se aproximava a minha paragem e toquei a avisar o motorista. Ele parou e abriu a porta. Eu saí. Ele sorriu e abanou a cabeça, discordando da escaramuça que continuava a crescer lá dentro.
Já o autocarro ía ao fundo da rua e ainda eu via os passageiros gesticular e crescer uns para os outros, em promessa de empurrões, socos e pontapés.
Na rua em que caminhava, as pessoas admiravam-se de me ver rir, indo sozinha.
De certo pensavam que eu estava louca!

O aquecimento do... Planeta


Jogos Paralímpicos







Se todos admirámos as capacidades e o esforço dos atletas nos jogos olímpicos, ficamos agora pregados ao ecran, quando vemos os atletas que vão competir em Pequim.
A alegria, a coragem e a força de vontade vencem todas as limitações físicas.
O esforço e a persistência fazem parte do dia a dia e as vitórias chegam em cada obstáculo ultrapassado.

Quando me queixo e penso desistir por motivos tão somenos, estou a chorar de barriga cheia.
Comovo-me e sinto-me pequena.

Tomás

No meu primeiro aniversário, sou um bébé feliz!
Tenho 4 dentes em cima e 3, quase 4, em baixo.
Gatinho em excesso de velocidade por todo o lado, sem temer os bicos das cadeiras, dos armários, nem o chão frio ou molhado!
Já dei 2 quedas em que chorei... mas passou logo!
Chamo a "nana" que é a Francisca, a minha mana, digo às vezes "mãe" e chamo o miau.
Acham graça quando lhes faço a vontade e bato palminhas, digo onde põe a pitinha o ovo, faço adeus, dou beijinhos e festinhas. Coisas simples!
Gosto muito de pão (também é só o que me dão para me entreter enquanto lancham).
Adoro banho (na banheira ou na piscina... tanto faz). Canto e danço (abano-me com algum ritmo) se ouço música. Disso tenho experiência, pois ouvi muita música na barriguinha da mãe.
O meu canal preferido, por enquanto, é o Baby tv. De vez em quando vejo o que a mana prefere (Morangos com açucar, se bem me lembro), mas é muita confusão para o meu gosto!
Dormir, hum... é óptimo, mas na minha cama!
Detesto vestir-me, esperar pela papa e olhar para o chão, quando estou preso na cadeira...
Não tenho dado muito trabalho aos meus pais, acho eu.
Sinto-me muito bem com eles e parece que eles também estão a gostar de mim.
Pela forma como o meu pai me olha, acho que vou poder vestir as suas roupas (aquelas mais fixes... de marca) e usar o carro, à noite, para levar as minhas amigas à discoteca!
Não percebi nada foi da festa que me fizeram... espetaram 1 vela acesa (dizem que é perigoso!) no bolo, cantaram todos desafinados, apagaram a vela e depois aplaudiram-se a eles próprios!
Bem, há umas coisitas que não entendo, mas ainda nem entrei para o jardim escola, não é?

Pior a emenda, que o soneto!

Recebi um comentário ao post sobre Salvador, Brasil, que transcrevo mais à frente.
Emenda a forma como escrevi Baía. Penso que "aportuguesei " o nome daquele Estado.
Na verdade, sinto que a pouco e pouco, a língua mãe passará cada vez mais a ser emendada.
Talvez culpa das telenovelas, que nos põem a repetir palavras que nos soam bem, a que achamos graça.
Talvez da quantidade de pessoas com sotaque, que nos atendem em todo o género de casa comercial.
Talvez do valor que damos a tudo o que é de fora e do pouco que estimamos o que é nosso.
De quem é a culpa, não sei. Sei que em vez de se adaptar quem chega (como nos adaptámos quando emigrámos e passámos a dizer "fenêtres", "maison", "donc", no meio das frases em português, sem quase darmos por isso!) nos adaptamos em nossa própria casa.
Toda a vida ouvi dizer "bicha"... Agora temos de dizer "fila".
Era norma atender o telefone com um "está?"... Agora ouço constantemente um "alô?".
Sempre ouvi pedir um "sumo"... Agora ouço pedir um "suco".
E palavras como "presepada", "rodísio", "fazer as unhas", "não estou nem aí", "oi gente!", "carona", "legal", "turma", "cafona", etc., começam a entrar no dia a dia da nossa linguagem, para a alegrar, dizem uns, para lhe dar um falso ar de modernidade (diria de cultura televisiva e de bar nocturno), dizem outros, mas sempre como colagem de quem adopta qualquer coisa, menosprezando o que é seu.
Eu escrevo Baía, como escrevo Nova Iorque, Amesterdão, Bruxelas, Moscovo, etc.
Aceito e agradeço a chamada de atenção, mas aproveito para recomendar (já agora!) a revisão da gramática portuguesa, a gramática da língua que se fala no Brasil, uma vez que as regras devem ser respeitadas.
Passo a transcrever:
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"Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "Salvador da Baía":
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Sou bahiana, de perto de salvador e gostaria de lhe dizer que se escreve BAHIA, e não BAÍA, que é um tipo de formação geografica..o nome do estado deriva disto mas é BAHIA"
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Eu diria à moda da minha terra: Pior a emenda, que o soneto!

Talento?

A Francisca tem uma familiaridade com a câmara fotográfica, que nos faz sorrir e nos deixa pensativos, ao mesmo tempo.
Mal viu a mãe fazer uns testes com a nova máquina fotográfica, que me ofereceu no dia do meu aniversário, deixou a brincadeira em que se entretinha e a sua criatividade entrou em acção.
Com uma mola da roupa prendeu o vestido atrás, na cintura, para que ficasse justo.
Com a tátá (fralda de pano macio que o irmão pôe na cara quando quer adormecer), fez parecer que já tem mamocas.
Calçou os meus sapatos e desencantou na garagem um velho saco de Verão, com que completou o modelo.
Soltou os cabelos e passou a fazer poses fotográficas.
Ninguém lhe diz o que há-de fazer.
Ela brinca, sem nunca perder de vista a personagem que imagina. Ou é a mãe das suas bonecas, ou a médica a auscultar os seus doentes, ou dona de casa que conversa com a vizinha...
Dizem que tudo se aprende e que é o trabalho e o estudo que fazem com que se seja escritor, pintor, actor ou outra coisa qualquer.
Porque é que eu fico aflita se viram a câmara para mim e ela, pelo contrário, se sente logo motivada para criar?
Até quando nos pede qualquer coisa, quando nos conta um episódio, ou choraminga por alguma contrariedade, toda ela é expressão, gesto, representação.
Imita as vozes que ouve, com a maior facilidade.
Nada a intimida, parecendo que quanto mais pessoas olham para ela, mais se inspira.
Muito observadora, retira o essencial das situações, para as reproduzir a seguir, de uma forma que nos deixa espantados.
Será isto o talento?

Poema em linha recta

"Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
.................................................................................................
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe-todos eles príncipes-na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse, não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"


Fernando Pessoa