Natal adiado

C.
A vida dá voltas e voltas, trazendo por vezes momentos tão difíceis, tão dolorosos, que pensamos não aguentar.
Mas acontece sempre uma pequena coisa qualquer, que nos empurra para a frente, nos devolve as forças, nos seca as lágrimas, nos faz começar os dias com renovada esperança.
Então, descobrimos que somos mais fortes que as tempestades da vida.
Bom Natal

(para um homem enorme no seu metro e cinquenta e cinco, sensível, solidário, talentoso, com um coração maior que o mundo, que neste momento paga uma pesada multa, mas tem à sua volta para o ajudar a carregar a cruz, uma grande família- do mesmo sangue e não só!)

Natal em mensagem.

R.
Há silêncios que nos dizem muito e solidões que nos enchem a vida.
Pensamos que já fomos tudo o que podemos ser, mas há talentos escondidos no mais íntimo do nosso ser e que esperam apenas pelo momento de nos fazer brilhar.
Procure dentro de si e será surpreendido pela generosidade da Mãe Natureza.
Recuse-se a ser um número.
Recuse-se a parar no meio do percurso.
Recuse-se a aceitar apenas o que lhe dão, lute pelo que merece.
A felicidade vale a pena.
Bom Natal.

(para um actor que fez maravilhas com o meu duende, dizendo sempre "não vou ser capaz")

Mensagem de Natal

F.
Quem nasceu com o dom de criar, nunca está só.
As noites silenciosas são ricas em projectos e os dias solitários ajudam a concretizá-los.
Basta a vontade do homem para que o mundo se transforme.
A cela vazia é jardim florido, a cama estreita passa a baloiço da infância, a janela de grades, veleiro magestoso com velas enfunadas ao vento e na parede nua, em cada alvorada forma-se um arco-íris perfeito.
Mas nem todos temos essa capacidade. O F. foi abençoado.
Bom Natal.

(Mensagem a um pintor que passa por horas difíceis, este Natal.)

Noite de luz.

Aproxima-se de novo a festa da família.
Aproxima-se a data em que fui mãe, tal como Nossa Senhora, na noite de 25 de Dezembro, poucos minutos depois da meia noite.
Quando entrei na sala de partos, a enfermeira disse: -Escusa de ter pressa, porque o Menino Jesus já nasceu. Nasceu um rapazinho agora mesmo, à meia noite em ponto.
Eu só tinha pressa para ver aquela hora passada, confesso.
Não sabia se ia ser um rapaz ou uma menina. Torcíamos para que fosse rapaz, pois já tinhamos a Rita.
O Hospital estava quase deserto. As ruas estavam completamente vazias, entregues às luzes de Natal. Os meus gemidos e depois gritos, faziam eco nos corredores silenciosos.
Foi uma noite especial, que escolhi para dar à luz.
Chovia, fazia muito frio e em todas as casas festejava-se a Consoada.
O médico estava na Missa do Galo.
Eu esperava mais um filho e desejava apenas que fosse saudável e perfeito.
Poucos minutos depois, com o médico assistente ainda em t-shirt, nasceu o Frederico.
Tal como a mãe de Deus, eu tinha o meu menino no colo.
Festeja o aniversário com o Menino Jesus.

Viajar na minha cela

Mergulho no azul do céu, em voos perdidos
Planando como ave sem sentidos

O casaco logo se estende no ar
Como vela de barco no mar.
Elevo meu corpo entorpecido
Conduzem-me ventos amainados
Abro os meus braços já doridos,
De há tanto tempo cruzados.



Doce brisa amorna as águas frias
E eu descanso em almofada de algas macias

Lençóis com barras de espuma rendada
Enfeites de damasco na colcha prateada.
Vagas mansas erguem-me no ar,
Baloiço da minha infância esquecida.
Vem trautear canções de embalar
A Lua Cheia, de suas rotas perdida.



Corro por searas de espigas douradas
Danço, rodopio, marcho em paradas

Rezo ladainhas em claustros de noviças
Caminho por dunas de areias roliças
Movendo-se em ondas sensuais
Do alto dos montes grito a ecos repetidos
Ensaio trinados com pequenos pardais
Canto hinos a amores proibidos



Olho o céu, os montes, imagino o mar
De despedida, um último olhar.

Cerro os olhos e os ouvidos. Suspiro.
Tranco o coração, colo os lábios, não respiro
Na espera da saída, desesperado
Donde nada sou e a tudo me sujeito
Regresso do sonho mil vezes sonhado
E volto a dobrar os braços sobre o peito.

Sensabedoria e Malsabedoria

Podia simplesmente deixar-te um comentário. E não seria aqui.
Mas a tua coragem não está só por aqui. Coragem - esta é a palavra de que a tua escrita se serve, de que a tua vida se serve quando fazes dela um acto como aquele que te li noutro lugar.
Foi no teu companheiro (des)dramatizar, teu companheiro da arte e da sabedoria. Passei por lá há pouco, no teu companheiro blogue. E vi o preço que por vezes se paga a quem não conhece a arte nem jamais alcançará a sabedoria. O preço que pagam as pessoas que fazem da vida a sua coragem - o preço que pagam àqueles que não sentem nem sabem, só mandam.
O preço que pagam os que têm coragem diante daqueles que jamais serão dignos dela, aqueles que, mesmo mandando, sempre lançam a pedra e escondem a mão - aqueles que são cobardes, mas mandam. Mandam, ignorando que são escravos. Porque quem não sente nem sabe, porque quem não conhece a arte nem jamais alcançará a sabedoria, é o mais mesquinho escravo da mais mesquinha condição da animalidade.
O título do teu artigo, no teu outro companheiro blogue, é "Maldade". Mas acredita que é lisongeiro. A maldade é atributo da humana condição - muito menos mesquinha que o ódio do instinto humanóide.
Quando a tua escrita testemunha o sentir e o saber da Vida, nunca falarás para esses que mais não têm que sensabedoria ou malsabedoria. Quando falares disso, quando falares assim, fala para os teus companheiros, fala aqui.
Por isso é aqui que o meu comentário cabe. Aqui, onde estás entre os teus pares.
Por isso prefiro deixar-te uns versos que apenas são meus pela mesma razão que são de toda a Humanidade, a quem os legou a Sabedoria... palavra que nasceu no grego com o nome de Sophia:
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Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
* Sophia de Mello Breyner, Pranto pelo Dia de Hoje
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E se algum dia as forças te faltarem, lembra-te da tua obrigação de testemunhar. Lembra-te da lição de Martin Luther King:
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O que mais preocupa
não é o grito dos violentos,
nem dos corruptos,
nem dos desonestos,
nem dos sem-carácter,
nem dos sem-ética.
...... O que mais preocupa
...... é o silêncio dos bons

Maldade
"Janeiro de 2008.
Uma das prendas que resolvi dar às crianças no "Dia Mundial da Criança", foi uma pequena árvore para plantar no pátio da escola e verem crescer com os seus cuidados. Consegui, depois de imensos telefonemas, 10 árvores com 1,20m de altura, de folhagem verde claro lindíssima, todas iguais, a título gratuito, que considerei uma sorte, uma bênção.
Fiz um texto explicando às crianças, que nós queríamos que elas levassem aquela árvore para cuidarem e ajudarem a crescer, pois mais tarde ela lhes daria sombra, acolheria os pássaros e os seus ninhos, daria oxigénio para respirarem ar mais puro e enfeitaria a escola.
Sobraram 2 árvores. Eu perguntei o que pretendiam fazer com elas. Disseram que seriam dadas à Junta de Freguesia para plantar nos jardins da povoação. Concordei. O Presidente da Junta foi ver as árvores e disse... nada. As árvores ficaram uma semana, um mês, 2 meses... à espera de serem plantadas. Eu perguntei-lhe se não as queria... disse-me que não. Plantar 2 árvores?
Então, vendo as pobres plantas a morrer de sede e de abandono, embora as regasse (o vaso em que estavam era muito pequenino e nos fins de semana ficavam fechadas num gabinete sem ar e muito quente) fui sugerir que se plantassem na quinta. Responderam que não.
Pedi que plantássemos uma perto da escola e me dessem a outra, para plantar no meu jardim e ter uma recordação daquele trabalho. Responderam que não.
As árvores foram secando, apesar de eu ir de vez em quando encher de água o saco de plástico em que meti o vaso, perdendo as folhas e a graça. Mesmo assim, eu sentia que ainda era capaz de as ressuscitar, pois o caule estava verde. Talvez com ar, sol, terra e adubo, elas recuperassem. Acreditem. Deixaram que as plantas morressem. Os vasos foram postos fora da janela, 8 meses depois, para irem no lixo. Estavam sem folhas, os caules castanhos da grossura de um dedo indicador, mas direitas, firmes, ainda muito belas. Morreram, mas continuavam de pé e orgulhosas... Amar a Natureza e os nossos semelhantes!!!
Quem fazia a limpeza não as tirava de propósito, sensibilizado com aquela ordem. Nunca houve um gesto, uma palavra, nada que mostrasse que aquilo incomodava quem ia todos os dias ao arquivo onde elas estavam.
Eram superiores a tudo, a todos, à Natureza, a Deus! Com poder da vida e da morte!!! "

Mais um presente do Tonô.


O meu irmão volta a fazer-me companhia!
Procura as minha escriturices, completa as minhas pesquisas mais descuidadas, deixa-me uma flor, um poema, uma música, um filme.
A surpresa é sempre boa.
Somos irmãos, no verdadeiro significado que essa palavra contém, apesar do mesmo pai, da mesma mãe e da "mesma criação", como dizem no Fundão.
Desde crianças que as nossas conversas se procuram, se cruzam e se entendem. Desde crianças que os nossos gostos coincidem.
Sonhei muitas vezes que sabia tocar piano, admirando-me como era fácil tirar as minhas músicas preferidas daquele intrumento magestoso. Mas nunca cheguei a aprender uma única nota musical.
Ver o meu irmão dominar as teclas de ébano e marfim e interpretar uma partitura, é como se fossem os meus dedos a percorrer as escalas e a encher a sala com as melodias tão familiares. É como se fosse eu que, de repente, descobrisse que sabia tocar piano e exultasse de emoção.
Sabe ouvir as minhas inquietações, tirar as minhas dúvidas, resolver os meus problemas.
Está presente tão facilmente nos momentos em que sofro, como naqueles em que festejo.
Apesar de mais novo, vai mais à frente. Eu caminho devagar. Ele corre.
Todas as paixões que eu tenho sonhado realizar, ele realiza. E eu, conformada, realizo-me nele.
Obrigada. Volta sempre.
( Na foto antiga e divertida, o pormenor das mãos dadas! Parece que te apoias em mim, mas toda a vida tem sido outra a intrpretação que lhe dou. Eu é que te seguro, te sigo, me agarro a ti. Um beijo.)

Inquietações

Sonho fazer de 1964 uma era do século passado

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"Considero-me um sonhador, paguei um preço bastante duro pelos meus sonhos, mas são tão belos, tão plenos e tão intensos que voltaria a pagá-lo uma e outra vez.
(...) não há sonho mais belo do que o de um mundo onde o pilar fundamental da existência seja a fraternidade, onde as relações humanas sejam sustentadas pela solidariedade, um mundo onde todos compartilhemos da necessidade de justiça social e actuemos com coerência.
(...) se não formos terrivelmente audazes com os nossos sonhos e não acreditarmos neles até os tornar realidade, então os nossos sonhos murcham, morrem, e, com eles, nós também."
* Luis Sepulveda, O Poder dos Sonhos

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Passa da uma hora da manhã.
O sono não chega e aproveito para arrumar o meu diário, fiel companhia de tantos momentos.
Admiro-me sempre com isto da internet... neste momento, 9 países lêm o que escrevo. Do Japão ao México, do Uruguai à Itália e à Alemanha. Chego a ficar assustada com tanto poder que tem este pequeno aparelho à minha frente.
E podia ser aproveitado para fazer coisas boas, muito boas.
Eu, que me deparo com tantas dificuldades para realizar os meus projectos, fico aqui a pensar como seria bom ter a ajuda de algumas pessoas por esse mundo fora.
Falei nisso mais atrás - por cada bola colorida, um par de meias quentes.
Podia tornar o Natal dos meus amigos tão necessitados, muito mais Natal.
E quando ajudamos os outros, temos nós também um Natal muito mais Natal.
Lembro-me de quando se via uma criança descalça, nos dias mais frios de Inverno, alguém dizia: -Estão habituados,"Deus dá o frio, conforme a roupa".
O meu pai respondia sempre: -"Pois, dá muito, a quem tem pouca!"

Sabedoria

"A simplicidade é a sofisticação suprema"

Leonardo da Vinci

A Neve na minha terra



O frio gelava-me as mãos, enquanto procurava um pico da Serra da Estrela para fotografar, sem que as nuvens viessem fazer negaças.
Mas valeu a pena.
Aqui está a sua montanha mais alta, a Torre desaparecendo no véu de nuvens, numa beleza que nenhuma máquina fotográfica de amador, como a minha, consegue captar.






A Serra da Gardunha, por ser bem mais humilde, só nos dias mais frios acolhe a neve que a aproxima da magestosa Estrela, logo em frente.
Anoitecia e o brilho da neve tornava-se tímido e silencioso.


Só o vento gélido nos lembrava como ela era branca, macia e fria, muito fria.

Friiio...

Cheguei ao Fundão cansada e muito desanimada com a vida.
Todo o caminho choveu e os mil problemas que trazia no pensamento, resultaram numa condução pouco atenta.
À saída do carro, talvez reacção a 3 horas no ambiente aquecido, o frio fez-se notar.
O ar é cortante e a chuva grossa e lenta.
Quando chove e faz um frio assim, sabemos logo que a neve está a caminho, mas ontem não pensei nela. Aliás, não conseguia pensar grande coisa, com o cansaço e as arrelias acumuladas.
Então, pela manhã, a Natureza brindou-me com uma surpresa muito carinhosa.
A Serra da Estrela está coberta de neve, tão branca como um bolo de noiva.
Do outro lado, a Serra da Gardunha parece um Pão por Deus,polvilhado de açúcar e côco.
Os anjos enfeitaram a minha terra com açucar em pó...
Quem nasceu e foi criado neste clima agreste, reviver esta memória na pele tem um sabor especial. Maravilhoso!

Ajidanha- nota 20 v.

A última peça do grupo, que é capaz de tirar horas ao seu descanso para fazer teatro!
Parabéns à Associação e parabéns a quem a apoia.
Parabéns ao Rui, pai do ainda pequenino César e neto da minha tia Fernanda, que tanto amo e que cedeu o guarda roupa para o Rui fazer uma dama tão charmosa. Ah! O Rui é o mais gordinho e sorridente.
Podem saber mais no blog e em www.freewebs.com/ocidentalpraialusitana
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Teatro Amador- De quem ama...

Num periodo de grande azáfama no meu teatro, procuro solução para os problemas e inspiração no teatro do Rui.
O Rui é um rapaz muito inteligente e da Paz. A caminho de concluir o mestrado, com a mulher e o filhinho a quem dar assistência, com o seu trabalho na Câmara Municipal da Idanha-a-Nova, ainda tem tempo para fazer teatro a sério, maravilhoso.
Como eu gostava de aprender com ele e estou muito longe, regalo-me a ver o seu Blog- http://www.ajidanha.blogspot.com/ e os pequenos filmes que lá guarda.
Parabéns Rui e não te esqueças, que mesmo que haja alguém que não saiba avaliar o teu trabalho excepcional-a maioria prefere ir ao centro comercial, achando até que estas coisas da cultura são só para quem não tem nada que fazer, ou não é bom da cabeça-o que realiza o homem é o que vem do fundo da sua alma, o que faz com amor.
E tu fazes coisas muito belas.

Lembrando ainda Bob Dylan

A minha banda preferida, Gun n´roses, pela sua sonoridade.

Beira-Mar

Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar



Sophia de Mello Breyner Andresen
Outubro de 1997




Quando a mensagem é boa...

A TV transmitiu a Missa desde Felgueiras e a minha mãe assistiu, como assiste todos os domingos, cheia de devoção.
A minha surpresa foi ouvir a música sucesso de Bob Dylan, cantada pelo coro da igreja.
Quantas estradas terá o homem que percorrer...
A resposta, meu amigo, "is blowing in the wind, is blowing in the wind."

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Quantas estradas tem um homem de percorrer
até se lhe chamar um homem?
Quantos mares tem uma pomba branca de navegar
até dormir na areia?
Sim, quantas vezes terão de voar as balas dos canhões
Antes de serem para sempre banidos?
(...)
Quantos anos têm de viver alguns homens
até lhes ser permitido serem livres?
E quantas vezes pode uma pessoa virar a cabeça
e fingir que simplesmente não vê?
(...)
Quantas vezes terá um homem de olhar para cima
até ser capaz de ver o céu?
E quantos ouvidos terá de ter um homem
até conseguir ouvir gente a chorar?
ARTIGO RELACIONADO / POEMA ORIGINAL INTEGRAL [INQUIETAÇÕES]

As Graças

Na cidade onde eu nasci, havia 4 senhoras que saíam à rua sempre juntas.
Iam à Missa, à praça, ao mercado semanal, ao café, à esplanada, enfim, a qualquer festa e reunião, sempre na companhia umas das outras.
Eram de idades muito próximas e de um nível social também idêntico.
Vestiam bem e o mesmo género de roupa, tinham a mesma modista, iam à mesma cabeleireira e faziam os penteados parecidos.
Eram educadas, ricas, respeitadas e de famílias muito tradicionais.
Os anos passavam e as senhoras continuavam solteiras e sem qualquer pretendente às suas delicadas mãos.
Apesar de muito prendadas na doçaria tradicional e conventual, habilidosas nos bordados de ponto pé de flor, grilhão e crivo, conhecedoras das mais variadas espécies de bainhas abertas, ajours e pespontos, tapeçaria de meio ponto e de Arraiolos, obras que saíam das suas mãos como se ninguém lhes tivesse tocado, (autênticas mãos de fada), nenhum homem as olhava com enlevo, com as pálpebras descaídas e o peito a arfar de suspiros.
Elas mostravam-se primorosas, delicadas, gentis, suaves, comedidas, angelicais, mas não havia um só gentil homem que as cortejasse.
Então, perante tal espectáculo de mostra e sugere, de passinhos de pintassilgo e pestanejar de actriz do cinema mudo, de chazinhos na mesa da pastelaria e limpar os cantinhos da boca sem danificar o baton encarnado, as pessoas interrogavam-se porque seria que as queridas amigas continuavam a ter de se fazer companhia umas às outras, suspirando pela companhia de alguém com a voz mais grossa, as mãos mais rudes e ainda aquilo que elas não se permitiam conhecer ao vivo, mas que lhes descontrolava o ritmo cardíaco, só de imaginar o aspecto.
Eram feias... coitadas, eram muito feias.
Mas quantas mulheres feias tinham encontrado um parceiro? Quantas?
Gordas, com bigode, quase carecas, sem dotes para a cozinha, para os bordados ou para as paciências com dois baralhos, sem talentos para esposas. Quantas? Muitas, muitíssimas.
Mas elas não tinham mesmo quem as quisesse.
Os pobres, não tinham bastante coragem e os ricos, não tinham suficiente espírito de sacrifício.
Passaram a chamar-lhes "As Graças", pois diziam que uma delas, "Nem de graça", outra, "Só por graça", outra ainda "Nem por graça" e a última "Uma desgraça".
E assim ficaram invictas as primorosas senhoras, que passavam os serões a fazer bordados a cheio e rendas finas para os altares da capela, onde o Sr Padre Coadjutor (ajudante do Prior, novo na cidade, na idade e nas práticas de perdoar os pecados por pensamentos, palavras e obras) treinava as bênçãos e os "ora pro nobis" de forma tão abnegada e de vocação tão iluminada.
O que é que tinham para afastar os cavalheiros de forma tão sistemática, nunca ninguém soube exactamente.
(Contavam que um dia as tinham ouvido comentar enlevadas."-Desde que tomamos conta do Sr. Coadjutor, ele até está mais bonitinho." E outra retorquiu "-Sim, e a pele mais luzidia". Logo outra atalhou "-E mais sorridente!". Por fim, a última rematou com entusiasmo "-E mais pesadinho, mais pesadinho!"Claro, que estas eram más linguas...)

Coração de cereja


Usas as palavras, para te promoveres.
Na primeira pessoa, sempre na primeira pessoa do singular, contas as casas, os carros, as motos, os negócios, as empregadas, as viagens... Aproveitas os anseios dos outros, para te valorizares, para te sentires importante. Rejubilas com a subserviência de quem sonha e vê em ti um modelo, uma heroína. Escondes, atrás da casa no Algarve, do apartamento na cidade e dos negócios que nem são teus, mas de alguém que tu serves, o luto em que vive a tua alma.

Esqueces de dizer que por causa dos cargos, quase não vês quem amas.

Não queres mostrar como as casas são a prisão dos teus sonhos, que vão morrendo todos os dias.
Mascaras a tristeza em que vives, ao seres esquecida, ignorada, deixada para trás.
Falas no espectáculo que foste ver... não da solidão que sentiste! Gabas os passeios que podes dar... não a ausência que te magoa! E em todas as contas que fazes (sim, que eu chamo a isso fazer contas à vida - não tenho isto, mas tenho aquilo!!!) o teu saldo continua negativo. Quem te admira, não é a ti, mas ao que tu dizes ter. Quem te dá razão, não é porque a tenhas, mas porque sente que quem tem tanto, também a terá... Mostras a tua carteira, para que não vejam o teu coração.

E pior... Nem tu sabes se possuis mesmo tudo o que contabilizas, pois já tantas vezes os multiplicaste para tentares encontrar uma compensação, que nem queres saber já, se enganas só os outros, ou a ti também. É embasbacados, que os que nada têm, seguem as parcelas da tua contabilidade e vão cheios de esperança jogar na lotaria, convencidos que a tua sorte os contagiou. E não vêem que levaram apenas o teu luto, a tua má sorte, a tua tristeza camuflada de ilusão.
Legenda ao desenho: "Porque és tan dura la dulzura del corázon de la cereza?" Pablo Neruda

Saudações para os USA

Hoje, no meu mapa de leitores, vi que estou a ser lida em Mountain e em Philadelphia.
Adorei o filme Philadelphia, onde se aborda a problemática da marginalização do homosexual e da sida.
A música de Bruce Springteen, "Streets of Philadelphia"é também uma das minhas preferidas.
Para este leitor e para o de Mountain, na outra costa da América do Norte, no caso de voltarem aqui, as minhas saudações.
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Nota:
Na foto, o Castelo de Leiria, prenda que o Rei D. Dinis ofereceu à esposa, a Rainha Santa Isabel, no dia do seu aniversário.
Enquanto ela visitava os pobres e bordava na varanda lindíssima, que se vê com os arcos, ele ia visitar a sua amante a Monte Real... onde é que já vi isto?

Conselho...



"Não discutas com um idiota, ele arrasta-te para o seu nivel e ganha-te aos pontos."

Em nome do amor

O amor é constantemente chamado para justificar o egoísmo, a falta de carácter, a traição, a leviandade.
Em nome do amor, mente-se. Em nome do amor, agride-se. Em nome do amor, mata-se.
O amor é usado para cobrar, para exigir, para subjugar, para torturar, para pedir.
Amam, mas ludibriam, desculpando-se com o medo de perder o objecto do seu amor...
Amam, mas magoam, maltratam, humilham, tentando depois convencer-se que é de tanto amarem, que perdem a razão.
O amor está, no entanto, bem distante de quem mente, de quem tem medo, de quem é egoísta.
Só a cobardia encontra forma para se justificar com o amor.
Ele é impaciente para se dar, persistente em se oferecer, incansável em tentar, corajoso para conseguir, inconsequente em lutar.
Dizem que é amor, mas a quem amam... não é mais do que a si mesmos.
O amor tem as costas largas.

Evasão


Mudar as fases da Lua, as estações do ano, ou o trajecto das estrelas cadentes, não depende de mim.
Não consegui evitar que morresse a árvore de que eu sou o fruto, que esmorecesse o amor que alimentava a minha vida, nem que se afastasse a amizade que dava um sorriso ao meu olhar.
São meus companheiros a solidão cercada de gente e o silêncio entre dois gritos.
O pôr-do-sol é o meu leito e o céu estrelado, a colcha que me protege.
Os meus sonhos procuram horizontes longínquos e asas imensas que me levem sobre o mar.

Como nos vemos... como somos.

Recebi há uns dias este pequeno texto e porque o acho engraçado, não resisti a transcrevê-lo. Aqui fica:

"Já aconteceu, ao olhar pessoas da sua idade, você pensar:
-Não posso estar assim tão velho(a)!!!!
Veja o que conta uma amiga:
- Estava sentada na sala de espera, para a minha primeira consulta com um novo dentista, quando observei o diploma estava pendurado na parede.
Estava escrito o seu nome e, de repente, recordei de um moreno alto, que tinha esse mesmo nome.
Era da minha classe do colégio, uns 30 anos atrás, e eu perguntava:
Poderá ser o mesmo rapaz com quem eu namorei naquela época?
Quando entrei na sala de atendimento, logo afastei esse pensamento do meu espírito. Este homem grisalho, quase calvo, gordo, com um rosto marcado, profundamente enrugado, era demasiadamente velho para ter sido o meu amor secreto.
Depois de ter examinado os meus dentes, perguntei-lhe se ele tinha estudado no Colégio Sacré Coeur.
- Sim, respondeu-me.
- Quando se formou? perguntei.
- 1965. Porque pergunta? respondeu.
- É que... bem... você era da minha classe, exclamei.
E então, este velho horrível, cretino, careca, barrigudo, flácido, filho de uma decaída, me perguntou:
- A senhora era professora de quê?"

Saber



"Somente duas coisas são infinitas: O Universo e a estupidez humana.
E não estou seguro quanto ao primeiro."

Albert Einstein

Gordura transparente e viscosa.

Eu sentia que não gostava de "mão de vaca", mas toda a gente dizia que apreciava, que era muito bom e acabei por pensar que talvez eu estivesse enganada.
Às vezes, os nossos gostos alimentares mudam com o passar dos anos. Eu convenci-me que talvez aquela relutância, fosse apenas uma mania da infância.
De todas as vezes que iamos almoçar e os meus companheiros de restaurante pediam o conhecido prato, eu pensava no assunto. O aspecto era apetitoso, o molho grosso, o cheiro normal. Mas adiava sempre a prova que me recomendavam.
Hoje fomos todos almoçar. Os pratos do dia eram: Sardinhas assadas e mão de vaca. Sardinhas não como, por causa do cheiro, das espinhas e da estragação que faço... além da fome que me assalta meia hora depois de almoçar.
Todos ficaram alegres com a ideia do grão com mão de vaca. Vieram para a mesa caçarolas de barro com molho a deitar por fora e o frasco do piri-piri.
Picante, detesto.
Deitei um pouco do grão no meio do prato e quando pensei deitar a segunda colherada, reparei que a carne era toda transparente e viscosa, cortada em tiras que se enrolavam nas pontas, sem parecer carne, parecendo antes pele.
Tirei só um bocadinho. Apesar de pequeno, ainda o cortei ao meio.
Levei à boca um grão e outro. Os meus lábios ficaram a colar-se, peganhentos.
Aguentei, sempre a pensar que era mania minha...
Quando arranjei coragem para meter na boca o primeiro pedacinho, já tinha ouvido dez vezes a mesma pergunta: "Então não come?"
Aquela gordura mole e gelatinosa escorregou de um lado para o outro, primeiro no prato, depois, no garfo e por fim, na minha boca. Engoli depressa, para evitar cuspir...
Tive a certeza, ao 3º arrepio, que não gosto mesmo de mão de vaca.
Estive 20 anos sem comer, vou estar outros tantos de novo, se viver!

Adeus a Paul.

No sábado passado, dia 27 de Setembro, desapareceu Paul Newman.
A última vez que o vi representar, foi no filme "As palavras que nunca te direi".
Já mais velho, continuava cheio de classe.
Era um dos meus actores preferidos. Era bonito e tinha um ar muito romântico.
Uma vez fiquei indignada por ler que a mulher, companheira de toda a sua vida, afirmara numa entrevista que as fãs do marido desconheciam como ele ressonava.
Fez-me sonhar com um namorado com o seu aspecto e tornou maravilhosas muitas horas da minha vida.
Foi mais uma vítima de cancro... é um "soma e segue".
Espero que tenha à sua espera uma nuvem bem fofinha, com vista para um lago de águas limpidas, árvores frondosas e verdes relvados, onde possa conversar com os amigos que o precederam.

Gentileza com uma mamã!

Ao ler um artigo sobre a falta de civismo dos portugueses, lembrei-me dum episódio engraçado que se passou comigo, quando estava grávida da minha filha.
Costumava ir de autocarro para o meu trabalho, atravessando uma zona de Lisboa muito movimentada.
As pessoas apertavam-se nos transportes públicos, sendo penoso para todos aquele percurso de pára/arranca, que atirava uns contra os outros, fazendo dores musculares nas pernas para se equilibrarem em pé.
Eu estava no fim da gravidez e já bastante "barril", embora me mexesse muito bem.
Entrei no autocarro cheio e ninguém me deu o lugar. Fiquei em pé, perto do motorista, que quando viu a minha barrigona me perguntou, pelo espelho retrovisor, se eu queria sentar-me.
Eu respondi que não valia a pena, pois sairia daí a 3 ou 4 paragens.
Não houve troca de muitas palavras, apenas de alguns gestos e com a azáfama das entradas e saídas, aquele comentário ficou apenas entre nós dois.
Eu agarrava-me, com quanta força tinha, ao varão perto da porta e mesmo assim era projectada 2 passos para a frente e para trás em cada travagem.
A dada altura, uma pessoa lembrou-se de dizer :
-Há uns lugares reservados para as grávidas, não vêem que a senhora pode bater com a barriguinha ou desequilibrar-se e cair?
Os que ocupavam os lugares destinados a casos como o meu, faziam-se distraídos.
-Se está com pena da senhora, dê-lhe o seu lugar-dizia um homem que ia noutro banco.
-Olha o parvo! Quem lhe pediu opinião? Não vê ali a placa a dizer a quem se devem dar aqueles lugares? Aqueles lugares são para pessoas como esta senhora. Não sabe ler?
-Parva é você! Querem lá ver! Então se está com pena da senhora, levante o rabo e dê-lhe o seu lugar. Coitadas das mulheres da cidade!!! Na minha terra, vão trabalhar para o campo até à hora de terem os filhos e não morrem. No dia seguinte já estão finas.
-Você é um bronco das berças. Que matarroano... Então não vê o perigo que é uma pancada com a barriga no varão?É bronco e estúpido... e mal educado, por se meter nas conversas alheias.
-Você é que é bronca. Está-me a ofender, sua ordinária.
-Ordinária é a sua mãe!
-Ele tem razão, dizia outro, há mulheres que se fartam de trabalhar até ao momento de terem os filhos e têem os garotos na mesma. Estas aqui são muito finas!
-E que tem isso a ver com o que se está aqui a passar? Não vêm o perigo? Cambada de anormais!
-É isso mesmo. Esta cambada que não respeita nada nem ninguém havia de ser posta dos autocarros para fora. Mas só aparecem os fiscais quando não são precisos-apoiava outra mais lá atrás.
-Mas quais cambada, quais quê! Você é muito respeitadora, é... levantar esse traseiro do banco, é que está quieto! Um gajo vê cada uma!
-Olhem para este alarveirão, está habituado a tratar a mulher como se fosse uma mula.
Eu estava calada, o motorista, sempre atento ao trânsito, olhava para mim de vez em quando, mas continuava sem dizer nada e os que iam nos lugares reservados, calados iam.
Todo o restante autocarro era uma guerra de palavras, um arremeço de ofensas e insultos, um subir de tom a cada frase, já não se entendendo nada do que diziam, tal era a gritaria. A cada minuto os "piropos" eram mais criativos e acompanhados de "gafanhotos" que saltavam das bocas a espumar de raiva.
Eu vi que se aproximava a minha paragem e toquei a avisar o motorista. Ele parou e abriu a porta. Eu saí. Ele sorriu e abanou a cabeça, discordando da escaramuça que continuava a crescer lá dentro.
Já o autocarro ía ao fundo da rua e ainda eu via os passageiros gesticular e crescer uns para os outros, em promessa de empurrões, socos e pontapés.
Na rua em que caminhava, as pessoas admiravam-se de me ver rir, indo sozinha.
De certo pensavam que eu estava louca!

O aquecimento do... Planeta


Jogos Paralímpicos







Se todos admirámos as capacidades e o esforço dos atletas nos jogos olímpicos, ficamos agora pregados ao ecran, quando vemos os atletas que vão competir em Pequim.
A alegria, a coragem e a força de vontade vencem todas as limitações físicas.
O esforço e a persistência fazem parte do dia a dia e as vitórias chegam em cada obstáculo ultrapassado.

Quando me queixo e penso desistir por motivos tão somenos, estou a chorar de barriga cheia.
Comovo-me e sinto-me pequena.

Tomás

No meu primeiro aniversário, sou um bébé feliz!
Tenho 4 dentes em cima e 3, quase 4, em baixo.
Gatinho em excesso de velocidade por todo o lado, sem temer os bicos das cadeiras, dos armários, nem o chão frio ou molhado!
Já dei 2 quedas em que chorei... mas passou logo!
Chamo a "nana" que é a Francisca, a minha mana, digo às vezes "mãe" e chamo o miau.
Acham graça quando lhes faço a vontade e bato palminhas, digo onde põe a pitinha o ovo, faço adeus, dou beijinhos e festinhas. Coisas simples!
Gosto muito de pão (também é só o que me dão para me entreter enquanto lancham).
Adoro banho (na banheira ou na piscina... tanto faz). Canto e danço (abano-me com algum ritmo) se ouço música. Disso tenho experiência, pois ouvi muita música na barriguinha da mãe.
O meu canal preferido, por enquanto, é o Baby tv. De vez em quando vejo o que a mana prefere (Morangos com açucar, se bem me lembro), mas é muita confusão para o meu gosto!
Dormir, hum... é óptimo, mas na minha cama!
Detesto vestir-me, esperar pela papa e olhar para o chão, quando estou preso na cadeira...
Não tenho dado muito trabalho aos meus pais, acho eu.
Sinto-me muito bem com eles e parece que eles também estão a gostar de mim.
Pela forma como o meu pai me olha, acho que vou poder vestir as suas roupas (aquelas mais fixes... de marca) e usar o carro, à noite, para levar as minhas amigas à discoteca!
Não percebi nada foi da festa que me fizeram... espetaram 1 vela acesa (dizem que é perigoso!) no bolo, cantaram todos desafinados, apagaram a vela e depois aplaudiram-se a eles próprios!
Bem, há umas coisitas que não entendo, mas ainda nem entrei para o jardim escola, não é?

Pior a emenda, que o soneto!

Recebi um comentário ao post sobre Salvador, Brasil, que transcrevo mais à frente.
Emenda a forma como escrevi Baía. Penso que "aportuguesei " o nome daquele Estado.
Na verdade, sinto que a pouco e pouco, a língua mãe passará cada vez mais a ser emendada.
Talvez culpa das telenovelas, que nos põem a repetir palavras que nos soam bem, a que achamos graça.
Talvez da quantidade de pessoas com sotaque, que nos atendem em todo o género de casa comercial.
Talvez do valor que damos a tudo o que é de fora e do pouco que estimamos o que é nosso.
De quem é a culpa, não sei. Sei que em vez de se adaptar quem chega (como nos adaptámos quando emigrámos e passámos a dizer "fenêtres", "maison", "donc", no meio das frases em português, sem quase darmos por isso!) nos adaptamos em nossa própria casa.
Toda a vida ouvi dizer "bicha"... Agora temos de dizer "fila".
Era norma atender o telefone com um "está?"... Agora ouço constantemente um "alô?".
Sempre ouvi pedir um "sumo"... Agora ouço pedir um "suco".
E palavras como "presepada", "rodísio", "fazer as unhas", "não estou nem aí", "oi gente!", "carona", "legal", "turma", "cafona", etc., começam a entrar no dia a dia da nossa linguagem, para a alegrar, dizem uns, para lhe dar um falso ar de modernidade (diria de cultura televisiva e de bar nocturno), dizem outros, mas sempre como colagem de quem adopta qualquer coisa, menosprezando o que é seu.
Eu escrevo Baía, como escrevo Nova Iorque, Amesterdão, Bruxelas, Moscovo, etc.
Aceito e agradeço a chamada de atenção, mas aproveito para recomendar (já agora!) a revisão da gramática portuguesa, a gramática da língua que se fala no Brasil, uma vez que as regras devem ser respeitadas.
Passo a transcrever:
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"Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem "Salvador da Baía":
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Sou bahiana, de perto de salvador e gostaria de lhe dizer que se escreve BAHIA, e não BAÍA, que é um tipo de formação geografica..o nome do estado deriva disto mas é BAHIA"
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Eu diria à moda da minha terra: Pior a emenda, que o soneto!

Talento?

A Francisca tem uma familiaridade com a câmara fotográfica, que nos faz sorrir e nos deixa pensativos, ao mesmo tempo.
Mal viu a mãe fazer uns testes com a nova máquina fotográfica, que me ofereceu no dia do meu aniversário, deixou a brincadeira em que se entretinha e a sua criatividade entrou em acção.
Com uma mola da roupa prendeu o vestido atrás, na cintura, para que ficasse justo.
Com a tátá (fralda de pano macio que o irmão pôe na cara quando quer adormecer), fez parecer que já tem mamocas.
Calçou os meus sapatos e desencantou na garagem um velho saco de Verão, com que completou o modelo.
Soltou os cabelos e passou a fazer poses fotográficas.
Ninguém lhe diz o que há-de fazer.
Ela brinca, sem nunca perder de vista a personagem que imagina. Ou é a mãe das suas bonecas, ou a médica a auscultar os seus doentes, ou dona de casa que conversa com a vizinha...
Dizem que tudo se aprende e que é o trabalho e o estudo que fazem com que se seja escritor, pintor, actor ou outra coisa qualquer.
Porque é que eu fico aflita se viram a câmara para mim e ela, pelo contrário, se sente logo motivada para criar?
Até quando nos pede qualquer coisa, quando nos conta um episódio, ou choraminga por alguma contrariedade, toda ela é expressão, gesto, representação.
Imita as vozes que ouve, com a maior facilidade.
Nada a intimida, parecendo que quanto mais pessoas olham para ela, mais se inspira.
Muito observadora, retira o essencial das situações, para as reproduzir a seguir, de uma forma que nos deixa espantados.
Será isto o talento?

Poema em linha recta

"Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
.................................................................................................
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe-todos eles príncipes-na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse, não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"


Fernando Pessoa

Rir é o remédio

Contar ou descontar anos.

Tinha jurado que não voltaria a fazer anos!
Mas todos os meses de Junho se festeja o S. João e há quem se lembre que nasci na véspera deste Santo Popular.
As minhas amigas mais novas, dão-me os parabéns com um grande sorriso.
Agradeço as felicitações, claro, mas lembro-as que a doença de que sofro e me provoca rugas, pneus e achaques, é contagiosa e já pandemia sem vacina à vista...
Decidi este ano que não vou continuar a somar aniversários. A partir de agora, um ano será somado, outro ano, subtraído.
Para sabermos chegado o nosso fim, não era preciso ficarmos doentes, perdermos os dentes, ver enfraquecidos os cabelos, não termos forças para nos levantarmos do sofá ou sair do banco detrás do carro dos filhos, esquecermo-nos de tudo o que não poderíamos esquecer (onde arrecadámos as chaves de casa, por exemplo), enfim... essas coisas que começam a acontecer comigo e eu achava que só acontecia aos outros.
Bastava amadurecermos e morrermos, sem fragilidades e incapacidades.
Ainda por cima, o nosso corpo anda mais depressa para o fim, do que a nossa mente, o que é uma tortura.
Achamos sempre que os outros nos vêem como nós nos sentimos e não como nós já parecemos.
Mas pronto! Eu que tenho força de vontade para dar e vender (só me falta para fazer regime) não vou permitir que continue a incomodar-me estar a envelhecer no corpo, numa proporção diferente do espírito. Acabou.
Olham para mim e acham que não sou capaz de tomar decisões, de ir dançar uma noite inteira, de me apaixonar, de andar de mãos dadas e rir de coisas fúteis, de apreciar um homem com charme... qual quê? As rugas que tenho nos cantos dos olhos, não me tapam os mesmos!
Não danço hip-hop, porque me dá mais prazer dividir os passos com um par que me aconchegue. Não me apaixono com tanta frequência, porque não encontro homens que me despertem admiração e me surpreendam.
Estou mais exigente, embora ouça com frequência que as mulheres da minha idade já se contentam com qualquer coisa! Puro desconhecimento de que os anos nos tornam especialistas e não amadores.
O meu coração continua a bater e os meus sonhos tomam forma todos os dias!
Se de vez em quando me deixo dormir no sofá, é porque os programas de TV são entediantes, medíocres e repetitivos. O mal não está em mim, mas na sua incapacidade para me despertarem interesse.
O meu gosto foi-se refinando com o tempo e agora não é qualquer história de faca e alguidar que me consegue provocar emoção.
Fazer umas plásticas? Se eu visse que elas tornavam as pessoas inteligentes, cultas, sensíveis, responsáveis, conscienciosas, sábias, ia já fazer uma ou duas ou as necessárias e possíveis.
O pior é que as pessoas que não têm os lábios murchos, o pescoço engelhado e a cintura grossa, por via de umas quantas intervenções cirúrgicas, não melhoram como seres humanos.
E quando tiverem 80 anos, o seu organismo terá 80 anos, embora os seus lábios de silicone tenham apenas 30, os seus seios cortados, aparados, enrijecidos tenham só 20, a sua pele esfoliada, esfolada e enxertada tenha no máximo 40.
Mas... a bexiga terá 80 anos (ah, pois!), assim como as articulações, as artérias, os olhos e os ouvidos...
Por isso, meus amigos, felicitem-me mas façam só o favor de não me perguntar a idade.
A contagem do tempo foi inventada pelo homem e a divisão em anos, meses, dias e horas, nada tem a ver com a capacidade de criar e de se renovar. Há jovens muito velhos...
Dêem-me os anos que aparento e que eu viva segundo a idade com que me sinto.
O resto, a natureza se encarrega de arrumar no seu devido lugar.
Ela, além de sábia, é justa. Não deixa ninguém para trás.

Uns comem, outros... olham.

"A caminhar assim, cada vez temos menos dinheiro no bolso", diz um agricultor na TV.

Novo Código do Trabalho
Petróleo, gasóleo, gasolina, gaz.
Milhões de barris por dia.
Protestos dos camionistas, dos taxistas, dos pescadores, dos agricultores...
Flexibilização dos horários.
Precaridade do trabalho
Contratos com prazos
Prazos de anos, de meses... horas que se somam, que se descontam.
Bolsa de valores. Cotação.
Despedimentos
Lucros de milhões por hora.
Dólares que valem e que desvalem.

Todos estes palavrões enchem as notícias e os pobres agricultores só sabem que se esforçam até rebentarem e que cada vez ganham menos, cada vez têm menos dinheiro para viver.
Nascem campos de golfe, campos de futebol, campos de ténis, campos de lazer... destinos de sonho para se ocuparem os tempos livres de quem comanda este mundo de palavrões.
Qualquer dia, quem não tem tempos livres, come relva, bolas perdidas e enche os olhos (e o estômago) nas ementas expostas nos restaurantes de luxo.
É como o garoto, que chegou a casa e disse:

-Mãe, pão com queijo é tão bom!
-Como é que sabes, filho? Já comeste?
-Não, mas vi ali um menino a comer.

a luz dos anos




Meia-noite. Apenas um dia mais. E o respeito pelo teu descanso contenta-se em lembrar-me que o dia não é mais que um dia doce.
De onde vem este néctar - será perfume? - não sou capaz de te dizer.
De memórias. De memórias simples. De memórias simplesmente doces.
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..
Um dia ensinaste-me a escrever.
Outros ensinaram-me letras, palavras, frases, pontuação... Tu ensinaste-me a escrever.
Talvez não me tenha lembrado disso no dia em que me chamaram escritor.
Como havia de evocar uma memória tão simplesmente doce...?
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Um dia encaminhaste-me a ler.
Outros deram-me livros, versos, rimas... Tu encaminhaste-me a ler.
Talvez não me tenha lembrado disso no dia em que me disseram ser poeta.
Que tinha isso a ver com memórias simplesmente doces...?
-
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Um dia deste-me a perceber a melodia.
Outros mostraram-me pautas e claves e colcheias... Tu deste-me a perceber a melodia.
Talvez não me tenha ocorrido quando me graduaram como músico.
Como podiam os tímpanos abrir ao coração memórias tão simplesmente doces...?
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Hoje, à meia-noite, o sol descobriu-me que há sempre um dia em que sabemos que a Vida é afinal a feliz coincidência de memórias simples - tão simples como a constância do sorriso que nos fez correr dos olhos um mar de água doce.
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Dou-me a mim mesmo os Parabéns: porque um Sol em cada 365 me celebra uma companhia tão luminosamente simples - uma Luz tão simplesmente doce.
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Um abraço simples e doce,
do teu mano.

100 anos... 100000 glórias

Qualquer Música

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Fernando Pessoa

Aos amigos




Aos meus amigos que felicitam o aniversário do meu irmão, que me enviam palavras carinhosas para a minha neta, que me ajudam tanto com a sua presença e o seu apoio, mil bem-hajam.

I believe I can fly

A Francisca vai de novo à Aula Magna com o coro da sua escola. Telefonou a convidar-me.
Apesar dos seus nove anos, utiliza já uma linguagem adequada, tanto ao convite, como ao tema.
- Avó, gostava muito que fosses assistir à nossa exibição na Aula Magna, no próximo sábado. A Ana é a solista e eu faço parte do coro. Se conseguires vir, vou ficar muito feliz.
Eu agradeci e pedi-lhe que me cantasse um bocadinho ao telefone.
Ela concordou e cantou maravilhosamente o refrão "I believe I can fly", deixando-me com as lágrimas nos olhos.
Está prestes a entrar no liceu (como dizem lá no colégio e como diziam no meu tempo).
Gosta muito de escrever e de desenhar, mas brincar é a sua actividade preferida... não fora isso e quase nos esquecíamos que ainda é uma criança.
Mostra-nos como cantam os anjos, Francisca.
E se eu não puder estar presente fisicamente, estou de certeza em pensamento e com o coração a rebentar de amor e orgulho.

Tó-nô


Parabéns To-nô.
Parabéns pelo teu aniversário. Cada cabelo branco é um pouco mais de sabedoria.
Que seja mais um ano de coisas boas que te encham a vida de alegria.
Parabéns pela contribuição que tens dado ao Fundão com a tua paixão pela música, em especial pela música clássica. Aproveita o Fundão e não só...
Parabéns pela solidariedade para com os que a ti recorrem .
Parabéns pelo espírito de sacrifício e de amor incondicional pela tua família e pelos teus amigos. Continuas a ser a alma, o apoio e a inspiração de todos nós.
Parabéns pelo homem que és, melhorado cada dia que passa com a humildade de quereres aprender e o teu desejo constante de crescer. Os homens bons, não nascem logo grandes.
Só desejamos merecer-te, na medida em que conseguimos aprender com o teu exemplo.

Verde e Rubro

A Bandeira Nacional está por todo o lado.
Nas janelas, expostas como colchas, que engalanavam as ruas na passagem da procissão do santo padroeiro.
Nas varandas, hasteadas como se assinalassem dia especial, em edifício do Estado.
Nos carros, que circulam nas estradas em correria indiferente à paisagem.
No cimo das árvores, nos quintais, como se mostrassem um campo especial de manobras militares.
Lá está a bandeira verde e rubra, que só começou a ser desfraldada desta forma efusiva, por iniciativa de um brasileiro à frente da selecção portuguesa de futebol .
Já a vi com as cores ao contrário, com apenas 3 e 4 quinas, com um desenho esquisito no centro... (os modelos enviados para a China não seriam bem claros, ou os chineses entenderam que a parte central não passava de enfeite sem importância e pintavam-na conforme o gosto de cada um).
Vendem-se aos milhares nos supermercados, enroladas dentro de caixas de papelão. Nas lojas dos 300, em sacos de plástico transparentes, amontoadas junto dos panos da loiça e turcos para fins variados. Na Galinha Gorda, perto dos detergentes e chinelos de plástico.
Há quem a use como lenço a dar um nozinho no pescoço, a dar um nó na alsa da carteira, como forro do apoio de cabeça no assento do carro, como cortina a forrar o vidro traseiro, como catavento na antena do rádio.
Enfim. Pobre símbolo da nossa Nação!
Quando se ouvia o Hino Nacional e se olhava o hastear da Bandeira, sentíamos a obrigação de ter as costas direitas, o rosto sério e o coração patriótico a bater com ritmo acelerado.
Agora, carros com metade pintado de verde e metade encarnado, com as fotos dos jogadores estampadas, tocam o Hino Nacional alto e bom som, entre várias cervejas e saquinhos de tremoços, à porta do Palácio de Belém, enquanto esperam que a Selecção Portuguesa chegue para cumprimentar o Presidente da República e parta para disputar o Campeonato Europeu na Suíça.
E eu, sem perceber nada de futebol, nada de hinos, nada de símbolos da Nação, acho que tudo isto é um tanto exagerado, porque até à chegada ao Fundão, vi a Gardunha vestida de verde, na folhagem das cerejeiras e vermelho, na quantidade imensa de cerejas maduras, que vergavam as suas ramadas.

Então, concluí que a Natureza também é adepta de futebol e torce pela Selecção de Portugal.

Desporto Rei

O povo português festeja as vitórias no futebol com verdadeiro entusiasmo.
Apreciam as casas, os móveis, os carros, as jóias, os hotéis, as mulheres dos jogadores.
Dizem à boca cheia e com verdadeiro orgulho, o que eles ganham por dia, por anúncio publicitário, por golo, por entrevista, por fotografia.
Conhecem o Mister, a família do Mister, os gostos do Mister, a vida do Mister.
Vibram com o campeonato nacional, com o europeu, com o mundial, com a liga, com a taça e com a taça das taças.
Saltam com os cartões amarelos, gritam com os vermelhos e insultam a mãe do árbitro, que é a culpada de todas as desgraças, sempre.
Discutem o canto, o fora de jogo, o penalty e o goooolo.
Votam o bota de ouro, o bola de ouro, o jogador do ano, o melhor jogador do mundo, o maior marcador, o melhor golo.
Compram a camisola do clube, o cachecol da selecção, a bandeira nacional, o cartão de sócio e de apoiante.
Aplaudem as jogadas bonitas, rejubilam com as vitórias, sofrem com as derrotas.
Não sabem a letra do Hino, mas conseguem trautear a música...
Esquecem a crise, o preço do gasóleo, do pão, da carne, do peixe, da roupa, do calçado, das propinas, da dívida da casa e do empréstimo que fizeram no banco. Arranjam paciência para a espera da operação às cataratas ou à vesícula. Não sofrem com o facto de terem feito um curso superior e só conseguirem trabalho de caixa em supermercado. De não poderem fazer férias na praia, cura nas termas, de não poderem comprar o tal CD ou o tal livro.
Até se sentem bem no seu quarto com serventia de cozinha e casa de banho, de só poderem usar o Metro para ir para o trabalho e conseguirem pagar o almoço na tasca da esquina.
A política, os políticos, as leis, os impostos, as taxas, as mensalidades, os juros, a luz, a água, o gaz, deixam de ser o centro das preocupações.
Só interessa o Nani, o João Pinto, o Quaresma, o Ronaldo, o Nuno Gomes, o Miguel Veloso, o Ricardo.
O futebol faz maravilhas. O futebol é um milagre. O futebol é a vida.
Viva o futebol!





(A Lili disse-me que o João Pinto já foi... pelo engano, peço desculpa. A verdade é que ouço falar em Pinto constantemente nas notícias ligadas ao futebol. Este, o João, já era... outros ainda serão, até deixarem de ser, também. Mas está a emenda feita. Obrigada Lili.)

O ouro negro

E se em vez de ser o boicote dos transportadores, fosse o fim do petróleo?
Se os poços secassem, se nada saísse das bombas extractoras, se uns atrás dos outros fechassem os campos de exploração do produto que faz andar o mundo?
Como encararíamos mudar radicalmente a nossa vida?
Como iríamos trabalhar? Parar o nosso carro, sim... mas que transporte poderíamos utilizar?A bicicleta, o cavalo, a carroça, as pernas?
Como se alimentariam os animais? Como se lavrariam as terras? Como se fariam chegar os alimentos aos mercados? Passar a ter horta, galinhas, uma vaca leiteira, árvore de fruta no quintal da casa? Alimentar os animais pelo pastoreio, rasgar a terra com a charrua, retirar a água do poço com o balde ?
Trocar uma cabra por uma mesa e levá-la para casa em carro de bois.
Voltar a usar as velas, a lareira, a forja, a escrita em papiro.
Tecer o algodão, o linho e a lã para fazer os nossos agasalhos... depois de os produzir, claro.
Se acabasse agora o petróleo quando é que estaríamos em condições de fazer outra vez tudo o que necessitamos para assegurar a nossa sobrevivência?
Como viveríamos sem viajar, sem consumir, sem ter a certeza que se chamarmos os bombeiros, a polícia ou a ambulância eles estarão junto de nós em minutos?
E as pessoas que apenas têm 2 assoalhadas para viver, sem quintal, sem terra?
Talvez não víssemos tantos campos abandonados no interior, tantas famílias desunidas, tantos obesos, tantas dietas para manter a linha, tanta ambição e tanta inveja.
Mas é difícil pensar em tudo o que dependemos do petróleo.
(Admiro mais ainda os grandes escritores, os cientistas, os artistas que só podiam criar à luz da vela)
E penso nos alertas constantes que os cientistas fazem há algum tempo, de que os recursos de petróleo se estão a esgotar...

A casa Maia

A lindíssima habitação que se vê na foto, à direita, o palacete dos Maia, propriedade da muito querida Emilinha Maia, foi restaurado e adaptado para turismo de habitação.
Junto do jardim da Câmara Municipal, fica um pouco escondido pelo muito trânsito que passa nesta rua, já que é a via usada por quem sai da auto-estrada e atravessa o Fundão.
A entrada ampla de granito assim como a larga escadaria que conduz ao 1º andar, deixa-nos sem fôlego, de tanta beleza. Toda a decoração é clássica e de bom gosto.
Nele costumava ficar hospedado Eugénio de Andrade sempre que vinha ao Fundão.

Alvorada

Há algum tempo que prefiro as manhãs, as madrugadas nascendo da noite e fazendo adivinhar o sol.
Se o pôr-do-sol é paixão, é grito, música de mil instrumentos, ópera, vestido de cetim, lâmina de espada silvando no ar, a alvorada é água correndo entre pedras polidas, canção de amor trauteada em surdina, chilreio de aves no ninho, xalinho de seda nos ombros nus.
A cada raio de luz que vai tornando mais claro o horizonte, a vida renova-se e o coração aquieta-se.
Se o sol não quisesse aparecer na sua hora marcada, como sala em que a persiana continua cerrada, como receberíamos essa recusa, como caminharíamos na noite que não acabara ?
Cada manhã, dou as boas vindas ao Sol e fico a observar o seu regresso, morno, sem pressa, entre névoa de tule, aquecendo e brilhando em progressão geométrica.

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
.
.
Eugénio de Andrade

Doces de fruta

No Fundão faz-se doce de qualquer fruta.
Faz-se compota de melão, de pêssego, de abóbora com nozes, de cereja, de ginja, de morango.
É óptimo beber um chá, numa tarde fria de Inverno, acompanhado com uma fatia de pão caseiro barrado com um pouco de doce de tomate.
É uma forma de se ter sempre uma sobremesa ou um carinho para pôr na mesa, quando chegam visitas de repente, em terra de gente simples e com poucos recursos económicos.
E todos sabem que as crianças e os idosos adoram geleia de marmelo, marmelada e doce de alperce, razão pela qual os vizinhos e amigos da creche e do lar de idosos de qualquer aldeia da Beira Baixa, divide com eles essas guloseimas, transformando os lanches mais saborosos e menos solitários.
Por isso me indignou tanto a atitude dos fiscais da ASAE.
Deitar para o lixo frascos de doces caseiros, que os habitantes da Soalheira ofereceram para o seu jardim-de-infância, só pelo facto de serem caseiros... não lembra ao demónio!
Talvez porque estavam em frascos reciclados do Tofina ou tigelas de louça, tapadas com papel vegetal cortado à medida.
De certeza nunca sentiram o magnífico aroma dessas compotas quando tomam ponto ao lume, nem provaram o seu sabor em nada comparado com as que se compram no supermercado.
Pois vão admirar-se, meus senhores, com a simplicidade em confeccionar essa conserva, que dura dois e três anos, no armário da sala, sem alteração das suas qualidades e permanecendo uma delícia.
Dou-vos a receita do doce de ginja, tão apreciado naquela terra, para comprovarem a quantidade de ingredientes necessários para conseguir tal milagre.
Receita
Ginjas (ou cerejas à falta daquelas, que cada vez estão mais raras no mercado) a que se retiraram os pés e os caroços, depois de lavadas.
Pesam-se as ginjas e igual quantidade de açúcar.
Numa panela coloca-se o açúcar com meio copo de água. Deixa-se ficar em ponto de pérola e juntam-se então as ginjas. Deixa-se apurar até estar a gosto (mais líquido, ou mais seco).
Come-se no pão, com requeijão, ou à colherada.
Não precisa conservantes, corantes, frigorífico ou congelador... Só paciência para vigiar o ponto.
Provem e vejam porque me indignei e me continuo a indignar sempre que penso no vosso gesto.
Muitos adultos só tiveram essa compota, quando crianças, para acompanhar um naco de pão na hora da merenda, na escola. Nunca provaram fiambre, mortadela ou queijo flamengo!
E a Beira Baixa já deu ao nosso país muitos homens inteligentes e bons. Quem não conhece Eugénio de Andrade, famoso poeta nascido na Póvoa da Atalaia, aldeia mesmo ali ao lado da Soalheira?
No Fundão vendem uns pequenos frascos destas compotas, com um rótulo bonitinho e o selo de garantia, pelo preço de 2,5 Euros... Mas é um luxo!

E a vergonha?

Ouvi dizer que pagar o "aluguer" dos contadores da água era ilegal... iriam retirar essa taxa das facturas.
Fiquei contente, embora esse pagamento seja um riacho, junto dos mares imensos dos pagamentos que me inundam a casa todos os meses.
Agora, ouvi um senhor todo bem posto, dizer na TV que o pagamento tinha de continuar a ser feito e como tal, deixara de se chamar aluguer do contador e passaria a chamar-se "taxa de utilização"...
Eu sou inculta e desatenta, mas pensava que as leis eram para se cumprir e quando alguém se preparava para não cumprir alguma, fazia-o o mais discretamente possível. Acreditava que eram para respeitar e a desrespeitar, seria às escondidas e pelos "sem-vergonha"!
Achava que as pessoas tinham medo das consequências... Mas nem medo, nem vergonha.
Ou há outra explicação que não consigo entender?

Partiu

Morreu Zélia Gattai.
A mulher de Jorge Amado, a companheira que passava à máquina as obras do marido, a escritora... morreu depois de um mês hospitalizada com doença grave.
Foram 91 anos de vida cheia.
Ser mulher de um escritor de sucesso, conseguir encontrar o seu próprio caminho e ser reconhecida como escritora, não deve ter sido tarefa fácil.
Parabéns Zélia Gattai.

9 meses

O Tomás está muito crescido.
Tem dois dentinhos que já fazem estragos nas bolachas Maria.
Rebola pela sala a velocidade cruzeiro, já que andar de gatas ainda dá muito trabalho e só resulta para trás, desaparecendo volta e meia, debaixo dos sofás.
Gosta muito de comer e mesmo que o sabor não seja agradável, arrepia-se, faz caretas, mas abre sempre a boca.
Ri em gargalhadas dobradas que fazem as delícias de toda a família. Nunca chora.
Adora o Miau, gato preto, de olhos verdes, a quem puxa o pêlo sem dó nem piedade, mas de quem recebe sempre um olhar pachola.
Tudo serve para brincar e para meter na boca, principalmente as etiquetas das roupas, os porta-chaves, os comandos da TV e os telemóveis.
Todos estamos encantados com o novo elemento da família e ele também parece estar feliz com a família que lhe calhou, a avaliar pelo seu sorriso constante.
É lindo... o meu neto.

Para onde?

A polícia é ignorada pelos marginais.
Os professores são agredidos pelos alunos.
As mulheres são espancadas pelos companheiros.
Os idosos são abandonados pelos familiares.
As crianças são maltratadas, sequestradas, violadas, assassinadas.
As árvores são cortadas, os animais extintos, os rios poluídos, os alimentos contaminados.
A amizade é fingida, o amor traído, o íntimo escancarado.
A vergonha, a honra, o respeito e a verdade passaram de moda.
Para onde vais homo sapiens?

Recadinho



Uma amiga que visita o meu espaço e como eu, ama o Fundão, fez-me algumas perguntas a que gostaria de responder.
Mas não tenho o seu endereço electrónico...
Para a Nela e para outros amigos que costumam ler as minhas recordações com tanta paciência, venho pedir que me enviem os contactos, pois nem sempre dá para responder por aqui.
O meu endereço está em cada blog, junto ao meu nome.
Obrigada pelo carinho.

Matracas

Na Páscoa, na procissão que simboliza o enterro de Jesus, vão as pessoas em silêncio, nas ruas às escuras, só se ouvindo as matracas... placas de madeira com ferros dependurados e que fazem um barulho seco, conforme são sacudidas.
Foi assim que eu me senti hoje, todo o dia. Uma dezena de matracas foi chocalhada insistentemente no gabinete ao lado do meu, entrando-me o matraquear pelos ouvidos, enchendo-me a cabeça, arrepiando-me os cabelos, eriçando-me os pêlos como pele de galinha.
Todo o santo dia sofri horrores com aquelas castanholas incansáveis que trauteavam mil assuntos ao mesmo tempo e me faziam zumbidos nos ouvidos, suores nas mãos, tremores nos joelhos.
Secou-se-me a boca, tive tremeliques nos olhos, ameacei ranger os dentes e bufei mil vezes, tantas quantas comecei a mesma frase no computador e a interrompi por falta de coragem para avançar naquele alarido, batuque, sapateado e toques de unhas nos vidros.
Se me atrevia a desviar a atenção para o meu trabalho e me demorava a mostrar a minha concordância (sem saber qual era o assunto, efectivamente) tudo era dito do princípio com mais convicção e frenesim.
A minha cabeça era um coco cheio de pedras miúdas que batiam e ecoavam no fundo, deixando-me com náuseas e tonturas.
Desisti de esperar que se cansasse, pois quanto mais falava, mais energia tinha, mais alto era o seu tom de voz. Os gestos eram cada vez mais largos, mais rápidos, mais ameaçadores e fantasmagóricos. Tive medo que partisse o vidro que nos separava, que rebentasse as veias do pescoço, que lhe saltassem os olhos das órbitas, que sangrasse dos nós dos dedos... de tantas pancadas que davam nos móveis! Se eu desviava o olhar, os sons agudos transformavam-se em silvos, que pareciam sirenes... Era a guerra de 14/18, a bomba atómica, o fim do mundo!
Meu Deus! Venho esgotada de tanto ouvir. De certeza que vai dormir bem esta noite, quem tanto falou! Apesar de já estar fechada na minha casa, a salvo, continuo a ouvir a matraca, no som seco e repetido que me levanta os cabelos e me enche de tiques nervosos!!!

Um minuto

Vento, muito vento. Frio.
Chuva a cântaros e nuvens negras no céu.
As notícias falam de 1 caso de tuberculose numa funcionária de um hospital e da calamidade pública causada pelo tornado em Santarém.
E o caso Esmeralda continua.
Os lucros dos bancos são contabilizados em milhões!
O trânsito está complicado em Lisboa e no Porto!
Eu vou sair para trabalhar, enquanto se ouvem contínuas notícias de despedimentos...
Tenho um livro novo para ler e muitas coisas para escrever. Mas só mais logo, de regresso a casa.
Ouve-se a música "Dizem que só os loucos se apaixonam..." Espero com ansiedade o momento do café. O prazer do seu cheiro, do seu sabor, da sua energia e do convívio com os amigos.
O que tem de ser... o que pode ser! A vida.

Recordar, será viver?

Esta noite sonhei muito e lembro-me de algumas coisas do meu sonho.
Estava numa sala de aula, com outros alunos, jovens como eu era quando estudava.
A professora veio para perto mostrar uma coisa qualquer num livro.
Vi entrar o Aníbal, tal como ele era quando estudámos juntos. Ele olhou-me e sorriu, como fazia sempre. Sentou-se longe e eu tentava esconder-me atrás dos colegas que estavam ao meu lado. Não queria que me ele me visse. Acho que eu tinha a idade que tenho agora e não queria que ele me visse assim.
Acordei com saudades. Não sei se dele, se de mim naquela idade.
Conheci-o num pic-nic que fizemos na Serra da Gardunha. Era magro, alto, moreno e tinha o cabelo forte, liso, brilhante e negro como a asa de um corvo.
Era um ano mais novo que eu. Naquela idade essa diferença notava-se, pois um rapaz com 16 anos parece muito mais criança que uma rapariga de 17. Mas entendíamo-nos muito bem.
Conversávamos todo o tempo que podíamos estar juntos, no fim das aulas. Depois, em casa escrevíamos longas cartas que trocávamos no dia seguinte, no corredor, à entrada das aulas.
Nas festas de amigos, dançávamos sempre os dois e na hora de despedir, olhávamos para trás dezenas de vezes. A separação era sempre triste. Além disso, o muito que fizemos, foi dar as mãos. Mas numa terra pequena, namorar um rapaz mais novo foi logo falado e o meu pai veio a saber. Não gostou e contrariou.
De vez em quando lembro-me dele. Nunca mais o vi. Nem imagino o seu aspecto, agora. Porque é que sonhei com ele, não sei, pois estas lembranças não têm andado muito por aqui...
Uma amiga disse-me que eram saudades. Talvez... saudades de me sentir amada.