Contar ou descontar anos.

Tinha jurado que não voltaria a fazer anos!
Mas todos os meses de Junho se festeja o S. João e há quem se lembre que nasci na véspera deste Santo Popular.
As minhas amigas mais novas, dão-me os parabéns com um grande sorriso.
Agradeço as felicitações, claro, mas lembro-as que a doença de que sofro e me provoca rugas, pneus e achaques, é contagiosa e já pandemia sem vacina à vista...
Decidi este ano que não vou continuar a somar aniversários. A partir de agora, um ano será somado, outro ano, subtraído.
Para sabermos chegado o nosso fim, não era preciso ficarmos doentes, perdermos os dentes, ver enfraquecidos os cabelos, não termos forças para nos levantarmos do sofá ou sair do banco detrás do carro dos filhos, esquecermo-nos de tudo o que não poderíamos esquecer (onde arrecadámos as chaves de casa, por exemplo), enfim... essas coisas que começam a acontecer comigo e eu achava que só acontecia aos outros.
Bastava amadurecermos e morrermos, sem fragilidades e incapacidades.
Ainda por cima, o nosso corpo anda mais depressa para o fim, do que a nossa mente, o que é uma tortura.
Achamos sempre que os outros nos vêem como nós nos sentimos e não como nós já parecemos.
Mas pronto! Eu que tenho força de vontade para dar e vender (só me falta para fazer regime) não vou permitir que continue a incomodar-me estar a envelhecer no corpo, numa proporção diferente do espírito. Acabou.
Olham para mim e acham que não sou capaz de tomar decisões, de ir dançar uma noite inteira, de me apaixonar, de andar de mãos dadas e rir de coisas fúteis, de apreciar um homem com charme... qual quê? As rugas que tenho nos cantos dos olhos, não me tapam os mesmos!
Não danço hip-hop, porque me dá mais prazer dividir os passos com um par que me aconchegue. Não me apaixono com tanta frequência, porque não encontro homens que me despertem admiração e me surpreendam.
Estou mais exigente, embora ouça com frequência que as mulheres da minha idade já se contentam com qualquer coisa! Puro desconhecimento de que os anos nos tornam especialistas e não amadores.
O meu coração continua a bater e os meus sonhos tomam forma todos os dias!
Se de vez em quando me deixo dormir no sofá, é porque os programas de TV são entediantes, medíocres e repetitivos. O mal não está em mim, mas na sua incapacidade para me despertarem interesse.
O meu gosto foi-se refinando com o tempo e agora não é qualquer história de faca e alguidar que me consegue provocar emoção.
Fazer umas plásticas? Se eu visse que elas tornavam as pessoas inteligentes, cultas, sensíveis, responsáveis, conscienciosas, sábias, ia já fazer uma ou duas ou as necessárias e possíveis.
O pior é que as pessoas que não têm os lábios murchos, o pescoço engelhado e a cintura grossa, por via de umas quantas intervenções cirúrgicas, não melhoram como seres humanos.
E quando tiverem 80 anos, o seu organismo terá 80 anos, embora os seus lábios de silicone tenham apenas 30, os seus seios cortados, aparados, enrijecidos tenham só 20, a sua pele esfoliada, esfolada e enxertada tenha no máximo 40.
Mas... a bexiga terá 80 anos (ah, pois!), assim como as articulações, as artérias, os olhos e os ouvidos...
Por isso, meus amigos, felicitem-me mas façam só o favor de não me perguntar a idade.
A contagem do tempo foi inventada pelo homem e a divisão em anos, meses, dias e horas, nada tem a ver com a capacidade de criar e de se renovar. Há jovens muito velhos...
Dêem-me os anos que aparento e que eu viva segundo a idade com que me sinto.
O resto, a natureza se encarrega de arrumar no seu devido lugar.
Ela, além de sábia, é justa. Não deixa ninguém para trás.

Uns comem, outros... olham.

"A caminhar assim, cada vez temos menos dinheiro no bolso", diz um agricultor na TV.

Novo Código do Trabalho
Petróleo, gasóleo, gasolina, gaz.
Milhões de barris por dia.
Protestos dos camionistas, dos taxistas, dos pescadores, dos agricultores...
Flexibilização dos horários.
Precaridade do trabalho
Contratos com prazos
Prazos de anos, de meses... horas que se somam, que se descontam.
Bolsa de valores. Cotação.
Despedimentos
Lucros de milhões por hora.
Dólares que valem e que desvalem.

Todos estes palavrões enchem as notícias e os pobres agricultores só sabem que se esforçam até rebentarem e que cada vez ganham menos, cada vez têm menos dinheiro para viver.
Nascem campos de golfe, campos de futebol, campos de ténis, campos de lazer... destinos de sonho para se ocuparem os tempos livres de quem comanda este mundo de palavrões.
Qualquer dia, quem não tem tempos livres, come relva, bolas perdidas e enche os olhos (e o estômago) nas ementas expostas nos restaurantes de luxo.
É como o garoto, que chegou a casa e disse:

-Mãe, pão com queijo é tão bom!
-Como é que sabes, filho? Já comeste?
-Não, mas vi ali um menino a comer.

a luz dos anos




Meia-noite. Apenas um dia mais. E o respeito pelo teu descanso contenta-se em lembrar-me que o dia não é mais que um dia doce.
De onde vem este néctar - será perfume? - não sou capaz de te dizer.
De memórias. De memórias simples. De memórias simplesmente doces.
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Um dia ensinaste-me a escrever.
Outros ensinaram-me letras, palavras, frases, pontuação... Tu ensinaste-me a escrever.
Talvez não me tenha lembrado disso no dia em que me chamaram escritor.
Como havia de evocar uma memória tão simplesmente doce...?
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Um dia encaminhaste-me a ler.
Outros deram-me livros, versos, rimas... Tu encaminhaste-me a ler.
Talvez não me tenha lembrado disso no dia em que me disseram ser poeta.
Que tinha isso a ver com memórias simplesmente doces...?
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Um dia deste-me a perceber a melodia.
Outros mostraram-me pautas e claves e colcheias... Tu deste-me a perceber a melodia.
Talvez não me tenha ocorrido quando me graduaram como músico.
Como podiam os tímpanos abrir ao coração memórias tão simplesmente doces...?
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Hoje, à meia-noite, o sol descobriu-me que há sempre um dia em que sabemos que a Vida é afinal a feliz coincidência de memórias simples - tão simples como a constância do sorriso que nos fez correr dos olhos um mar de água doce.
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Dou-me a mim mesmo os Parabéns: porque um Sol em cada 365 me celebra uma companhia tão luminosamente simples - uma Luz tão simplesmente doce.
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Um abraço simples e doce,
do teu mano.

100 anos... 100000 glórias

Qualquer Música

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música- guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Fernando Pessoa

Aos amigos




Aos meus amigos que felicitam o aniversário do meu irmão, que me enviam palavras carinhosas para a minha neta, que me ajudam tanto com a sua presença e o seu apoio, mil bem-hajam.

I believe I can fly

A Francisca vai de novo à Aula Magna com o coro da sua escola. Telefonou a convidar-me.
Apesar dos seus nove anos, utiliza já uma linguagem adequada, tanto ao convite, como ao tema.
- Avó, gostava muito que fosses assistir à nossa exibição na Aula Magna, no próximo sábado. A Ana é a solista e eu faço parte do coro. Se conseguires vir, vou ficar muito feliz.
Eu agradeci e pedi-lhe que me cantasse um bocadinho ao telefone.
Ela concordou e cantou maravilhosamente o refrão "I believe I can fly", deixando-me com as lágrimas nos olhos.
Está prestes a entrar no liceu (como dizem lá no colégio e como diziam no meu tempo).
Gosta muito de escrever e de desenhar, mas brincar é a sua actividade preferida... não fora isso e quase nos esquecíamos que ainda é uma criança.
Mostra-nos como cantam os anjos, Francisca.
E se eu não puder estar presente fisicamente, estou de certeza em pensamento e com o coração a rebentar de amor e orgulho.

Tó-nô


Parabéns To-nô.
Parabéns pelo teu aniversário. Cada cabelo branco é um pouco mais de sabedoria.
Que seja mais um ano de coisas boas que te encham a vida de alegria.
Parabéns pela contribuição que tens dado ao Fundão com a tua paixão pela música, em especial pela música clássica. Aproveita o Fundão e não só...
Parabéns pela solidariedade para com os que a ti recorrem .
Parabéns pelo espírito de sacrifício e de amor incondicional pela tua família e pelos teus amigos. Continuas a ser a alma, o apoio e a inspiração de todos nós.
Parabéns pelo homem que és, melhorado cada dia que passa com a humildade de quereres aprender e o teu desejo constante de crescer. Os homens bons, não nascem logo grandes.
Só desejamos merecer-te, na medida em que conseguimos aprender com o teu exemplo.

Verde e Rubro

A Bandeira Nacional está por todo o lado.
Nas janelas, expostas como colchas, que engalanavam as ruas na passagem da procissão do santo padroeiro.
Nas varandas, hasteadas como se assinalassem dia especial, em edifício do Estado.
Nos carros, que circulam nas estradas em correria indiferente à paisagem.
No cimo das árvores, nos quintais, como se mostrassem um campo especial de manobras militares.
Lá está a bandeira verde e rubra, que só começou a ser desfraldada desta forma efusiva, por iniciativa de um brasileiro à frente da selecção portuguesa de futebol .
Já a vi com as cores ao contrário, com apenas 3 e 4 quinas, com um desenho esquisito no centro... (os modelos enviados para a China não seriam bem claros, ou os chineses entenderam que a parte central não passava de enfeite sem importância e pintavam-na conforme o gosto de cada um).
Vendem-se aos milhares nos supermercados, enroladas dentro de caixas de papelão. Nas lojas dos 300, em sacos de plástico transparentes, amontoadas junto dos panos da loiça e turcos para fins variados. Na Galinha Gorda, perto dos detergentes e chinelos de plástico.
Há quem a use como lenço a dar um nozinho no pescoço, a dar um nó na alsa da carteira, como forro do apoio de cabeça no assento do carro, como cortina a forrar o vidro traseiro, como catavento na antena do rádio.
Enfim. Pobre símbolo da nossa Nação!
Quando se ouvia o Hino Nacional e se olhava o hastear da Bandeira, sentíamos a obrigação de ter as costas direitas, o rosto sério e o coração patriótico a bater com ritmo acelerado.
Agora, carros com metade pintado de verde e metade encarnado, com as fotos dos jogadores estampadas, tocam o Hino Nacional alto e bom som, entre várias cervejas e saquinhos de tremoços, à porta do Palácio de Belém, enquanto esperam que a Selecção Portuguesa chegue para cumprimentar o Presidente da República e parta para disputar o Campeonato Europeu na Suíça.
E eu, sem perceber nada de futebol, nada de hinos, nada de símbolos da Nação, acho que tudo isto é um tanto exagerado, porque até à chegada ao Fundão, vi a Gardunha vestida de verde, na folhagem das cerejeiras e vermelho, na quantidade imensa de cerejas maduras, que vergavam as suas ramadas.

Então, concluí que a Natureza também é adepta de futebol e torce pela Selecção de Portugal.

Desporto Rei

O povo português festeja as vitórias no futebol com verdadeiro entusiasmo.
Apreciam as casas, os móveis, os carros, as jóias, os hotéis, as mulheres dos jogadores.
Dizem à boca cheia e com verdadeiro orgulho, o que eles ganham por dia, por anúncio publicitário, por golo, por entrevista, por fotografia.
Conhecem o Mister, a família do Mister, os gostos do Mister, a vida do Mister.
Vibram com o campeonato nacional, com o europeu, com o mundial, com a liga, com a taça e com a taça das taças.
Saltam com os cartões amarelos, gritam com os vermelhos e insultam a mãe do árbitro, que é a culpada de todas as desgraças, sempre.
Discutem o canto, o fora de jogo, o penalty e o goooolo.
Votam o bota de ouro, o bola de ouro, o jogador do ano, o melhor jogador do mundo, o maior marcador, o melhor golo.
Compram a camisola do clube, o cachecol da selecção, a bandeira nacional, o cartão de sócio e de apoiante.
Aplaudem as jogadas bonitas, rejubilam com as vitórias, sofrem com as derrotas.
Não sabem a letra do Hino, mas conseguem trautear a música...
Esquecem a crise, o preço do gasóleo, do pão, da carne, do peixe, da roupa, do calçado, das propinas, da dívida da casa e do empréstimo que fizeram no banco. Arranjam paciência para a espera da operação às cataratas ou à vesícula. Não sofrem com o facto de terem feito um curso superior e só conseguirem trabalho de caixa em supermercado. De não poderem fazer férias na praia, cura nas termas, de não poderem comprar o tal CD ou o tal livro.
Até se sentem bem no seu quarto com serventia de cozinha e casa de banho, de só poderem usar o Metro para ir para o trabalho e conseguirem pagar o almoço na tasca da esquina.
A política, os políticos, as leis, os impostos, as taxas, as mensalidades, os juros, a luz, a água, o gaz, deixam de ser o centro das preocupações.
Só interessa o Nani, o João Pinto, o Quaresma, o Ronaldo, o Nuno Gomes, o Miguel Veloso, o Ricardo.
O futebol faz maravilhas. O futebol é um milagre. O futebol é a vida.
Viva o futebol!





(A Lili disse-me que o João Pinto já foi... pelo engano, peço desculpa. A verdade é que ouço falar em Pinto constantemente nas notícias ligadas ao futebol. Este, o João, já era... outros ainda serão, até deixarem de ser, também. Mas está a emenda feita. Obrigada Lili.)

O ouro negro

E se em vez de ser o boicote dos transportadores, fosse o fim do petróleo?
Se os poços secassem, se nada saísse das bombas extractoras, se uns atrás dos outros fechassem os campos de exploração do produto que faz andar o mundo?
Como encararíamos mudar radicalmente a nossa vida?
Como iríamos trabalhar? Parar o nosso carro, sim... mas que transporte poderíamos utilizar?A bicicleta, o cavalo, a carroça, as pernas?
Como se alimentariam os animais? Como se lavrariam as terras? Como se fariam chegar os alimentos aos mercados? Passar a ter horta, galinhas, uma vaca leiteira, árvore de fruta no quintal da casa? Alimentar os animais pelo pastoreio, rasgar a terra com a charrua, retirar a água do poço com o balde ?
Trocar uma cabra por uma mesa e levá-la para casa em carro de bois.
Voltar a usar as velas, a lareira, a forja, a escrita em papiro.
Tecer o algodão, o linho e a lã para fazer os nossos agasalhos... depois de os produzir, claro.
Se acabasse agora o petróleo quando é que estaríamos em condições de fazer outra vez tudo o que necessitamos para assegurar a nossa sobrevivência?
Como viveríamos sem viajar, sem consumir, sem ter a certeza que se chamarmos os bombeiros, a polícia ou a ambulância eles estarão junto de nós em minutos?
E as pessoas que apenas têm 2 assoalhadas para viver, sem quintal, sem terra?
Talvez não víssemos tantos campos abandonados no interior, tantas famílias desunidas, tantos obesos, tantas dietas para manter a linha, tanta ambição e tanta inveja.
Mas é difícil pensar em tudo o que dependemos do petróleo.
(Admiro mais ainda os grandes escritores, os cientistas, os artistas que só podiam criar à luz da vela)
E penso nos alertas constantes que os cientistas fazem há algum tempo, de que os recursos de petróleo se estão a esgotar...

A casa Maia

A lindíssima habitação que se vê na foto, à direita, o palacete dos Maia, propriedade da muito querida Emilinha Maia, foi restaurado e adaptado para turismo de habitação.
Junto do jardim da Câmara Municipal, fica um pouco escondido pelo muito trânsito que passa nesta rua, já que é a via usada por quem sai da auto-estrada e atravessa o Fundão.
A entrada ampla de granito assim como a larga escadaria que conduz ao 1º andar, deixa-nos sem fôlego, de tanta beleza. Toda a decoração é clássica e de bom gosto.
Nele costumava ficar hospedado Eugénio de Andrade sempre que vinha ao Fundão.

Alvorada

Há algum tempo que prefiro as manhãs, as madrugadas nascendo da noite e fazendo adivinhar o sol.
Se o pôr-do-sol é paixão, é grito, música de mil instrumentos, ópera, vestido de cetim, lâmina de espada silvando no ar, a alvorada é água correndo entre pedras polidas, canção de amor trauteada em surdina, chilreio de aves no ninho, xalinho de seda nos ombros nus.
A cada raio de luz que vai tornando mais claro o horizonte, a vida renova-se e o coração aquieta-se.
Se o sol não quisesse aparecer na sua hora marcada, como sala em que a persiana continua cerrada, como receberíamos essa recusa, como caminharíamos na noite que não acabara ?
Cada manhã, dou as boas vindas ao Sol e fico a observar o seu regresso, morno, sem pressa, entre névoa de tule, aquecendo e brilhando em progressão geométrica.

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
.
.
Eugénio de Andrade

Doces de fruta

No Fundão faz-se doce de qualquer fruta.
Faz-se compota de melão, de pêssego, de abóbora com nozes, de cereja, de ginja, de morango.
É óptimo beber um chá, numa tarde fria de Inverno, acompanhado com uma fatia de pão caseiro barrado com um pouco de doce de tomate.
É uma forma de se ter sempre uma sobremesa ou um carinho para pôr na mesa, quando chegam visitas de repente, em terra de gente simples e com poucos recursos económicos.
E todos sabem que as crianças e os idosos adoram geleia de marmelo, marmelada e doce de alperce, razão pela qual os vizinhos e amigos da creche e do lar de idosos de qualquer aldeia da Beira Baixa, divide com eles essas guloseimas, transformando os lanches mais saborosos e menos solitários.
Por isso me indignou tanto a atitude dos fiscais da ASAE.
Deitar para o lixo frascos de doces caseiros, que os habitantes da Soalheira ofereceram para o seu jardim-de-infância, só pelo facto de serem caseiros... não lembra ao demónio!
Talvez porque estavam em frascos reciclados do Tofina ou tigelas de louça, tapadas com papel vegetal cortado à medida.
De certeza nunca sentiram o magnífico aroma dessas compotas quando tomam ponto ao lume, nem provaram o seu sabor em nada comparado com as que se compram no supermercado.
Pois vão admirar-se, meus senhores, com a simplicidade em confeccionar essa conserva, que dura dois e três anos, no armário da sala, sem alteração das suas qualidades e permanecendo uma delícia.
Dou-vos a receita do doce de ginja, tão apreciado naquela terra, para comprovarem a quantidade de ingredientes necessários para conseguir tal milagre.
Receita
Ginjas (ou cerejas à falta daquelas, que cada vez estão mais raras no mercado) a que se retiraram os pés e os caroços, depois de lavadas.
Pesam-se as ginjas e igual quantidade de açúcar.
Numa panela coloca-se o açúcar com meio copo de água. Deixa-se ficar em ponto de pérola e juntam-se então as ginjas. Deixa-se apurar até estar a gosto (mais líquido, ou mais seco).
Come-se no pão, com requeijão, ou à colherada.
Não precisa conservantes, corantes, frigorífico ou congelador... Só paciência para vigiar o ponto.
Provem e vejam porque me indignei e me continuo a indignar sempre que penso no vosso gesto.
Muitos adultos só tiveram essa compota, quando crianças, para acompanhar um naco de pão na hora da merenda, na escola. Nunca provaram fiambre, mortadela ou queijo flamengo!
E a Beira Baixa já deu ao nosso país muitos homens inteligentes e bons. Quem não conhece Eugénio de Andrade, famoso poeta nascido na Póvoa da Atalaia, aldeia mesmo ali ao lado da Soalheira?
No Fundão vendem uns pequenos frascos destas compotas, com um rótulo bonitinho e o selo de garantia, pelo preço de 2,5 Euros... Mas é um luxo!

E a vergonha?

Ouvi dizer que pagar o "aluguer" dos contadores da água era ilegal... iriam retirar essa taxa das facturas.
Fiquei contente, embora esse pagamento seja um riacho, junto dos mares imensos dos pagamentos que me inundam a casa todos os meses.
Agora, ouvi um senhor todo bem posto, dizer na TV que o pagamento tinha de continuar a ser feito e como tal, deixara de se chamar aluguer do contador e passaria a chamar-se "taxa de utilização"...
Eu sou inculta e desatenta, mas pensava que as leis eram para se cumprir e quando alguém se preparava para não cumprir alguma, fazia-o o mais discretamente possível. Acreditava que eram para respeitar e a desrespeitar, seria às escondidas e pelos "sem-vergonha"!
Achava que as pessoas tinham medo das consequências... Mas nem medo, nem vergonha.
Ou há outra explicação que não consigo entender?

Partiu

Morreu Zélia Gattai.
A mulher de Jorge Amado, a companheira que passava à máquina as obras do marido, a escritora... morreu depois de um mês hospitalizada com doença grave.
Foram 91 anos de vida cheia.
Ser mulher de um escritor de sucesso, conseguir encontrar o seu próprio caminho e ser reconhecida como escritora, não deve ter sido tarefa fácil.
Parabéns Zélia Gattai.

9 meses

O Tomás está muito crescido.
Tem dois dentinhos que já fazem estragos nas bolachas Maria.
Rebola pela sala a velocidade cruzeiro, já que andar de gatas ainda dá muito trabalho e só resulta para trás, desaparecendo volta e meia, debaixo dos sofás.
Gosta muito de comer e mesmo que o sabor não seja agradável, arrepia-se, faz caretas, mas abre sempre a boca.
Ri em gargalhadas dobradas que fazem as delícias de toda a família. Nunca chora.
Adora o Miau, gato preto, de olhos verdes, a quem puxa o pêlo sem dó nem piedade, mas de quem recebe sempre um olhar pachola.
Tudo serve para brincar e para meter na boca, principalmente as etiquetas das roupas, os porta-chaves, os comandos da TV e os telemóveis.
Todos estamos encantados com o novo elemento da família e ele também parece estar feliz com a família que lhe calhou, a avaliar pelo seu sorriso constante.
É lindo... o meu neto.

Para onde?

A polícia é ignorada pelos marginais.
Os professores são agredidos pelos alunos.
As mulheres são espancadas pelos companheiros.
Os idosos são abandonados pelos familiares.
As crianças são maltratadas, sequestradas, violadas, assassinadas.
As árvores são cortadas, os animais extintos, os rios poluídos, os alimentos contaminados.
A amizade é fingida, o amor traído, o íntimo escancarado.
A vergonha, a honra, o respeito e a verdade passaram de moda.
Para onde vais homo sapiens?

Recadinho



Uma amiga que visita o meu espaço e como eu, ama o Fundão, fez-me algumas perguntas a que gostaria de responder.
Mas não tenho o seu endereço electrónico...
Para a Nela e para outros amigos que costumam ler as minhas recordações com tanta paciência, venho pedir que me enviem os contactos, pois nem sempre dá para responder por aqui.
O meu endereço está em cada blog, junto ao meu nome.
Obrigada pelo carinho.

Matracas

Na Páscoa, na procissão que simboliza o enterro de Jesus, vão as pessoas em silêncio, nas ruas às escuras, só se ouvindo as matracas... placas de madeira com ferros dependurados e que fazem um barulho seco, conforme são sacudidas.
Foi assim que eu me senti hoje, todo o dia. Uma dezena de matracas foi chocalhada insistentemente no gabinete ao lado do meu, entrando-me o matraquear pelos ouvidos, enchendo-me a cabeça, arrepiando-me os cabelos, eriçando-me os pêlos como pele de galinha.
Todo o santo dia sofri horrores com aquelas castanholas incansáveis que trauteavam mil assuntos ao mesmo tempo e me faziam zumbidos nos ouvidos, suores nas mãos, tremores nos joelhos.
Secou-se-me a boca, tive tremeliques nos olhos, ameacei ranger os dentes e bufei mil vezes, tantas quantas comecei a mesma frase no computador e a interrompi por falta de coragem para avançar naquele alarido, batuque, sapateado e toques de unhas nos vidros.
Se me atrevia a desviar a atenção para o meu trabalho e me demorava a mostrar a minha concordância (sem saber qual era o assunto, efectivamente) tudo era dito do princípio com mais convicção e frenesim.
A minha cabeça era um coco cheio de pedras miúdas que batiam e ecoavam no fundo, deixando-me com náuseas e tonturas.
Desisti de esperar que se cansasse, pois quanto mais falava, mais energia tinha, mais alto era o seu tom de voz. Os gestos eram cada vez mais largos, mais rápidos, mais ameaçadores e fantasmagóricos. Tive medo que partisse o vidro que nos separava, que rebentasse as veias do pescoço, que lhe saltassem os olhos das órbitas, que sangrasse dos nós dos dedos... de tantas pancadas que davam nos móveis! Se eu desviava o olhar, os sons agudos transformavam-se em silvos, que pareciam sirenes... Era a guerra de 14/18, a bomba atómica, o fim do mundo!
Meu Deus! Venho esgotada de tanto ouvir. De certeza que vai dormir bem esta noite, quem tanto falou! Apesar de já estar fechada na minha casa, a salvo, continuo a ouvir a matraca, no som seco e repetido que me levanta os cabelos e me enche de tiques nervosos!!!

Um minuto

Vento, muito vento. Frio.
Chuva a cântaros e nuvens negras no céu.
As notícias falam de 1 caso de tuberculose numa funcionária de um hospital e da calamidade pública causada pelo tornado em Santarém.
E o caso Esmeralda continua.
Os lucros dos bancos são contabilizados em milhões!
O trânsito está complicado em Lisboa e no Porto!
Eu vou sair para trabalhar, enquanto se ouvem contínuas notícias de despedimentos...
Tenho um livro novo para ler e muitas coisas para escrever. Mas só mais logo, de regresso a casa.
Ouve-se a música "Dizem que só os loucos se apaixonam..." Espero com ansiedade o momento do café. O prazer do seu cheiro, do seu sabor, da sua energia e do convívio com os amigos.
O que tem de ser... o que pode ser! A vida.

Recordar, será viver?

Esta noite sonhei muito e lembro-me de algumas coisas do meu sonho.
Estava numa sala de aula, com outros alunos, jovens como eu era quando estudava.
A professora veio para perto mostrar uma coisa qualquer num livro.
Vi entrar o Aníbal, tal como ele era quando estudámos juntos. Ele olhou-me e sorriu, como fazia sempre. Sentou-se longe e eu tentava esconder-me atrás dos colegas que estavam ao meu lado. Não queria que me ele me visse. Acho que eu tinha a idade que tenho agora e não queria que ele me visse assim.
Acordei com saudades. Não sei se dele, se de mim naquela idade.
Conheci-o num pic-nic que fizemos na Serra da Gardunha. Era magro, alto, moreno e tinha o cabelo forte, liso, brilhante e negro como a asa de um corvo.
Era um ano mais novo que eu. Naquela idade essa diferença notava-se, pois um rapaz com 16 anos parece muito mais criança que uma rapariga de 17. Mas entendíamo-nos muito bem.
Conversávamos todo o tempo que podíamos estar juntos, no fim das aulas. Depois, em casa escrevíamos longas cartas que trocávamos no dia seguinte, no corredor, à entrada das aulas.
Nas festas de amigos, dançávamos sempre os dois e na hora de despedir, olhávamos para trás dezenas de vezes. A separação era sempre triste. Além disso, o muito que fizemos, foi dar as mãos. Mas numa terra pequena, namorar um rapaz mais novo foi logo falado e o meu pai veio a saber. Não gostou e contrariou.
De vez em quando lembro-me dele. Nunca mais o vi. Nem imagino o seu aspecto, agora. Porque é que sonhei com ele, não sei, pois estas lembranças não têm andado muito por aqui...
Uma amiga disse-me que eram saudades. Talvez... saudades de me sentir amada.

Patrick Swazie

.
Patrick Swazie está a lutar contra o cancro.
Bailarino, compositor, actor e ser humano maravilhoso, tenta vencer um inimigo que não desafiou e que não conhece.
O bem que nos fez com a sua arte, não foi paga suficiente para que o sofrimento não lhe batesse à porta.
A doença não passa ao lado de quem venceu na vida pelo seu talento.
Pergunto-me vezes sem conta para onde vão o esforço, a sensibilidade, a persistência, o sacrifício, os conhecimentos, o empenho de pessoas como esta, que se destacam pela forma como perseguem os seus sonhos.
Quem nasce para a arte, alimento do nosso espírito, vive mais distante dos homens e mais próximo de Deus .

Uma obra de arte

Uma flor que ofereci a mim mesma

Dia 8

Imagem que escolhi para o Dia da Mulher


M... Março e Mulher

Dia da Mulher
A um cavalheiro que me mandou um postal através da internet, não respondi. Era cedo, não tinha tomado café e não me apeteceu preparar um agradecimento.
Mais tarde, cerca das 9h, foi um colega, também através da net. Do hi5, mais propriamente.
Aos votos de feliz dia da mulher, respondi : "Sou uma mulher especial... sou festejada todos os dias. Sei que a caça tira os homens cedo da cama... não sabia que o hi5 também tinha esse poder!"
Entretanto recebi uma mensagem no telemóvel: "Que bom haver Mulheres! (Mas, por favor, não abusem) bjs"
Respondi:"Vale a pena ser mulher, para receber mensagens destas... pena que seja só uma vez por ano!"
Na TV o Marco Paulo cantou à "Mulher de quarenta".
No ano que vem, haverá mais! Que bom, que bom, que bom!!!

Canções de riso



Ora pro nobis
Galinha gorda não é para os pobres
É só para os ricos
Que são uns grandes jericos



lenga lenga

Dava o pequeno almoço à minha mãe e lembrei-me do que diziam em pequena, para eu comer.


Ave Maria, está a panela vazia

Pai Nosso, quero comer e não posso