F. Nietzsche

O que eu preferiria? Amar a Terra como a ama a Lua e de não tocar na sua beleza senão com os olhos.

No 10 de Junho- Deolinda - Movimento Perpétuo Associativo

Português!

Prestes a começar o Mundial de Futebol, no noticiário de hoje, uma jornalista entrevista diversos portugueses a residir na África do Sul e a certa altura uma senhora responde:

-"Eu falo português, não é muito bem, mas desenrosco-me."

(A senhora queria dizer "desenrasco-me", claro. Sem comentários, mas com sorrisos. )

Solidão

Ter passatempos...
Passar algumas horas na cadeira da varanda a ler um livro e à medida que se avança no enredo, nascer a simpatia por um dos personagens, adivinhar as suas reacções, torcer para que descubra a conspiração ou adivinhe os planos que tecem contra ele e quando a história termina, sentir pena da separação enevitável daqueles que viveram connosco tantas horas desde que se iniciou a sua leitura.
Ou ver um filme na TV, no silêncio da casa, vivendo a cada minuto os planos mais próximos, quase sentindo as dores de quem sofre, deixando cair uma lágrima de comoção, rindo com uma cena atrapalhada, suspirando com as lembranças que se associam a cada minuto da história do herói da tela, em que a música é companhia a propósito e o cenário envolvente.
Estar sentado numa esplanada, olhando o infinito como se não existisse mais nada, mas seguindo atentamente os outros, nos seus gestos mais íntimos, sorrindo com as brincadeiras de um cachorro que punha pela roupa de uma criança ou dos namorados que se beijam esquecidos de tudo ao seu redor.
Ver as fotos da revista de excentricidades, enquanto se saboreia um café amargo e quente, desculpa apenas para sair um pouco e ver gente por minutos...
Tudo passa diante dos olhos como um filme, sem que se entre na cena, se sinta o calor do abraço, se receba o sorriso de quem chega, se faça adeus a quem parte.
Estou farta de assistir à vida sem fazer parte dela, de viver a vida no camarote de espectador.

A Vida Ensina

A vida ensina
a esperar, a esperar,
que tudo se altera, tudo se revela,
que acreditar é o primeiro passo
e questionar, o que se lhe segue.
Que as estrelas lá continuam,
mesmo com espessos véus de nuvens
em céus cinzentos de desespero.

A vida ensina
a saber escutar os silêncios,
ler as mensagens escondidas nos gestos
e suportar o peso das ausências.
A encontrar luz no negro profundo,
tristeza no sorriso mais rasgado
e alegria no sal das lágrimas de cristal.

A vida ensina
a avaliar a riqueza da flor,
como jóia que não sabemos lapidar.
E, apesar da força do vento
no seu uivo aterrador,
a saborear a maciez da brisa morna
em fim de tarde prenhe de estios.

A vida ensina
a saber guardar o calor de um sorriso
para encher navios de solidão
e poder navegar
entre suspiros de espuma
e canções de embalar.
(Ou não basta um sorriso de quem amamos,
para nos encher o coração de sonhos?)

A vida ensina,
que uma só migalha pode matar
a fome a um pintassilgo.
E que se o desdém consegue
destruir com a força do terramoto,
basta um raio de Sol nas planícies dos dias,
para fazer renascer a esperança,
como semente após chuva
adormecida em colchões de terra dourada.

A vida ensina-nos

O relógio do mundo

www.poodwaddle.com/clocks2pw.htm

Quem acreditaria?

Se Jesus Cristo viesse ao Mundo nestes tempos modernos, voltaria a ser crucificado.
Quem é que levaria a sério um homem que pregasse a igualdade e o amor ao próximo, o perdão e a misericórdia, sem o apoio das televisões, sem automóvel com vidros à prova de bala, sem guarda-costas, polícias visiveis e secretas, sem cavalaria da GNR, vestes ricas, refeições delicadas e dezenas de motos com luzes azuis a abrir alas, onde foi proibido o trânsito de almas comuns?
O milagre dos peixes ou do vinho... Luís de Matos arranjaria maneira de fazer melhor!
A opulência, a riqueza, o poder...
(Cá para mim, Jesus Cristo nem precisaria de Pôncio Pilatos!)

O Papa em Portugal

A nossa TV repete incansável a notícia da hora, seja a vinda do Papa a Portugal, o vulcão no norte da Europa, o tremor de terra na Ásia, o capeonato de futebol ou peregrinação a Fátima.
Se alguém temesse passar ao lado de tão grandes acontecimentos, a antecedência e a insistência com que são noticiadas, descansaria de imediato esse temor.
Papa antes do Papa, durante o Papa e ainda durará muito depois do Papa.
Os aviões onde ele viajará e o seu papamóvel, a decoração especial do quarto onde descansará, as cadeiras feitas em madeira especial, por artesão especial, para sentarem os "simsenhores" especiais, o microfone coberto de película de ouro, as ementas especialíssimas das refeições do velho senhor, a honra imensa de o ver, de o ouvir, de receber a Santa Hóstia da sua santa mão.
Queixam-se os pequenos comerciantes que viram o trânsito cortado nas suas ruas desde domingo, os pais que não têm onde deixar os filhos nos dias de feriado, os motoristas que têm de dar voltas enormes para chegar aos destinos.
Polícia, segurança, protocolo.
A despesa é imensa. O país pára.
Tanta pompa e circunstância para receber o homem que deve fazer apologia ao despojamento, à partilha, à pobreza!
No domingo foi o Benfica. Hoje foi o Papa. Depois será Fátima.
O desemprego, a violência, a desilusão, as fraudes e mais, ficam esquecidos perante "momentos tão emocionantes e vivências tão importantes".
A TV insiste e nós resistimos.
(Nota: A vinda do Papa é uma mensagem de esperança, porque se temos tanto para gastar é porque afinal não estamos assim tão mal!!! Ou será "perdidos por cem... perdidos por mil"?)

Universidade Sénior- Fundão

No fim de semana passado, no Fundão, quando atravessei a avenida para ir tomar um café reparador, não só por um pouco de cafeína, mas também por sair de casa e dar dois dedos de conversa com a minha amiga Teresa, fui surpreendida com o som dos tradicionais bombos de Lavacolhos, uma aldeia do Concelho.
Como gosto de tudo o que é tradicional da minha terra, parei logo para os ver.
Os bombos abriam o cortejo dos finalistas da Universidade Sénior.
Ao mostrar pena de não ter ali a minha máquina fotográfica, a Teresa afundou a mão no imenso saco (os sacos das senhoras são como a farmácia... têm de tudo!) e passou-me a sua.
Com o Sol muito forte, a máquina desconhecida, os meus óculos desaparecidos, quando consegui preparar-me, já o cortejo tinha passado. Mesmo assim, entre fotografar o chão, as paredes e outros objectos não identificáveis, ainda registei algumas imagens que poderão lembrar como na minha terra se vão dando passos em frente para combater o isolamento das cidades do interior, a solidão das pessoas mais velhas e o pouco conhecimento a que tinham acesso.
Os trajes impecáveis, as cabeças já brancas e a serenidade dos rostos, mostravam uma altivez de quem está bem com a vida, de quem está feliz, realizado.
As vozes afinadas acompanhavam os adufes e o cavaquinho nas canções tantas vezes ouvidas na minha infância.
Gostei muito.
Parabéns aos corajosos, que deixam a sua casa confortável e rumam à escola, mostrando que "o aprender, pode ser sempre".

Acordo

A Chuva e o Sol em competição, uma no desejo de prolongar o Inverno e o outro de instalar definitivamente a Primavera, chegaram finalmente a acordo.
O Sol brilha durante o dia e a Chuva cai durante a noite.
A Natureza está feliz!

As duas faces da vida.

No meu serviço, duas amigas vieram ajudar-me a terminar uma tarefa e enquanto o faziamos, tagarelámos depreocupadas.
Houve um momento em que falámos do casamento.
Como já tinhamos, as três, vivido essa experiência sem nos sairmos muito bem, pelo menos tão bem como tinhamos sonhado - o "para sempre" não tinha passado de "alguns anos"- ficámos para ali a compor teorias sobre o tema.
Elas, como mulheres inteligentes, bonitas, independentes e ainda jovens, falavam da disposição para voltar a experimentar o casamento, apesar de tudo.
Eu, como mais velha, dava sugestões (a que geralmente chamam conselhos e como diz o outro, se conselhos fossem de alguma valia, não se davam, vendiam-se) e dizia-lhes que não fechassem o coração a um amor, pois de um momento para o outro poderia aparecer e fazer com que as suas vidas fossem mais felizes.
Concordaram e asseguraram-me que não tinham desistido de envelhecer com um companheiro que as mimasse.
Entre frases mais sérias e algumas graçolas, fomos terminando a nossa tarefa.
Passou cerca de um ano sobre esse dia. Para mim continuou tudo igual, numa rotina calculada.
Para as minhas amigas, não.
A vida guardava-lhes grandes surpresas.
Naquele dia estavam ambas na mesma posição, no mesmo caminho, iam na mesma direcção.
Eram as duas divorciadas, sem namorado, com um filho pequeno, no mesmo emprego, quase a mesma idade, saudáveis e charmosas.
De repente, o destino obrigou-as a um caminho diferente.
Uma encontrou o amor da sua vida e com ele toda a alegria de viver. E como é bonito o sorriso de alguém apaixonado e correspondido!
A outra, sempre preocupada com o exercício físico, com a alimentação saudável, com a escolha da vida bem perto da Natureza, descobriu estar doente e ter de ser operada urgentemente.
Encetou então uma dura luta contra a doença.
E nestes momentos tão inesperados para mim, o que mais me tem impressionado é a forma como ambas têm percorrido o seu novo caminho.
A que está feliz, age discretamente, sem fazer alarde da sua sorte, da sua fortuna, do seu tesouro, evitando exibir o entusiasmo que passou a acompanhar os seus dias. Passa silenciosa no corredor, quase a esconder os sinais da sua felicidade, num pudor ingénuo.
A que luta para reaver a vida que lhe foi roubada por doença intrusa, nunca mostra desânimo ou revolta, nunca se queixa.
Eu fico temerosa por ela, com lágrimas nos olhos perante a volta que a sua vida deu em poucos meses, aflita, antevendo as horas de sofrimento que a esperam. Mas ela não baixa os braços e ainda me anima.
Enquanto uma caminha para tratamentos de consequências dolorosas, a outra goza pequenas férias com o coração cheio de esperança.
No entanto, nem uma exibe a sua felicidade, nem a outra se queixa da sua desdita.
Numa, vejo a simplicidade mesmo quando pisa um caminho atapetado com pétalas de rosa.
Na outra, a imensa coragem de enfrentar o medo e a dúvida, sem queixumes.
Eu, eu fico feliz com a que está bem, sofro as dores da que se debate com a doença e sinto-me muito orgulhosa de as ter como amigas.
Verdadeiras lições de vida todos os dias!

PRIMAVERA


Voltou o Sol.

Tomam rebentos novos as árvores e começam a invadir os campos as pequenas flores de todas as cores.

Os meus amigos passaritos já conversam na minha Gingko, às 6,30h da manhã, em alegre chilreada.

Posso cuidar das minhas plantas ao ar livre, sujando as mãos e molhando os pés.

É Primavera, de novo.

Parar para pensar



Há 6 mil anos, que a guerra agrada aos povos quesilentos, enquanto Deus perde o seu tempo a fazer as flores e as estrelas.


Victor Hugo

Café com companhia

Mesmo sem vontade de sair de casa, quem vive sozinha e precisa de comprar alimentos, tem de o fazer. Estava sem pão, base do pouco que tenho comido ultimamente, desde que ando adoentada. Queria comprar legumes e fruta. Resolvi arranjar-me e lá fui.
Para não vir para casa logo depois de fazer as compras, sentei-me no bar e aproveitei para tomar o pequeno almoço.
Nas mesas à minha frente estavam 5 pessoas que me despertaram a atenção.
Um casal mais idoso, ele sempre sorridente, com um rosto perfeito, com aspecto de ser muito alto e magro, ela muito bem vestida, com um blusão acetinado de penas e uma boina de lã angorá, que deixava aparecer algum cabelo loiro e cuidado, estavam logo ao meu lado.
Duas mulheres, a rondarem os quarenta anos e um homem da mesma idade, vestindo roupa desportiva e de bom gosto estavam à sua frente. Uma ficou no topo da mesa e lia uma revista, a outra falava, enquanto os mais velhos, que deduzi fossem os pais, sorriam.
O homem mais novo alimentava a tagarelice com um ou outro comentário.
A que lia, não respondia e mostrava não prestar atenção ao que diziam.
A outra, em tom bastante alto, confiante, que me permitia ouvir o que dizia, comentava que "alguem com quem trabalhava, mal entrava no serviço tomava café. Daí a pouco já pedia café de novo e até à hora de almoço ainda bebia mais dois ou três, continuando assim todo o dia.
Quando lhe dizia que ele bebia café demais, respondia-lhe que como havia pessoas viciadas em tabaco, ele era viciado em café."
Sorriam e mal faziam um comentário de poucas palavras, ela voltava a dominar as atenções com outro assunto.
De repente, levantou-se para ir às compras. Perguntou à que lia se precisava de alguma coisa. Esta negou com um gesto de cabeça, sem desviar os olhos da revista.
Isso não a fez desistir e nomeou uma lista de coisas, na tentativa de a fazer lembrar de alguma falta. Passou do shampô para o creme das mãos, dos detergentes para os legumes, dos queijos para as bebidas.
Mas, nem resposta, apenas novo acenar de cabeça.
Então, saiu da mesa e desapareceu no meio das pessoas.
A que lia, levantou os olhos para o homem mais novo, passou-lhe a mão no rosto e deu-lhe um jeito no cabelo já bastante grisalho. Ele olhou-a e sorriu.
Lembrei-me da minha família. Do meu pai sempre tão bem posto, com um riso franco em que mostrava os dentes perfeitos, sempre com um ar meigo e bem disposto. Da minha mãe tão vaidosa, com o seu baton, os seus brincos e colares, o seu cabelo muito curtinho, com roupa clássica de boa qualidade. Eu, tagarela, ria de tudo e entusiasmava o meu irmão mais novo a dizer disparates e a rir também.
O meu irmão mais velho não me achava graça, nem tinha paciência para me ouvir.
A minha mãe acabava por me mandar calar, mas era nesses momentos que eu mais tinha vontade de rir.
Então o meu pai dava-me toques com os pés debaixo da mesa e ria também. A minha mãe zangava-se dizendo que ele era o culpado, que era pior do que eu.
O meu coração encheu-se de recordações e de saudades.
A minha solidão tornou-se tão real, que de repente parecia não haver ninguém à minha volta.
Olhei o fundo da chávena, bebi o último golo açucarado em demasia, arrumei o tabuleiro e saí.
O frio da rua pareceu-me uma carícia. Enchi o peito de ar, com força e corri para casa.

Ronan Keating

2010...

Terminou 2009 e... lá tivemos que aceitar 2010.
Nada consegue parar o tempo.
Nem a vontade, nem a necessidade, nem a força do pensamento!
E foi triste o fim de um e o começo do outro.
Temporal, destruição, falta de electricidade, inundações, gripe A, desemprego, serviços de saúde de meter medo para os menos abonados, miséria, crime e injustiça q.b.
No entanto as lojas cheias de gente a comprar roupa como se tivessem 200 corpos, a comprar brinquedos cada vez mais sofisticados e a que as crianças pouco ligam, comida aos montes de todas as espécies e sabores, bibelots, adornos, sei lá eu que mais... enquanto os sem emprego, os sem abrigo, os sem saúde, os sem família, os sem comida, os sem esperança, assistem a todo um desfile de supérfluo com o coração partido.
Tenho visto muita indiferença, muita ambição, muitas atitudes que não gosto.
As pessoas desculpam-se com a crise, mas ela serve apenas de motivo para darem largas ao seu mais profundo egoísmo.
Poderiam contornar a crise de que tanto falam, com menos luxo, com menos ostentação... mas é difícil privarem-se de um pouco que seja, para que os outros se sintam menos infelizes.
Estou triste, como há muito tempo não estava.
Comecei 2010 com o coração apertado, com as lágrimas nos olhos, com uma nuvem sobre o que espero do futuro.
E não é por crise económica nenhuma...
Apenas antevejo o que é a velhice, a falta de sáude, a falta de projectos, as limitações de quem soma anos.
E em 2010 somarei mais um.

A vida é um minuto!

Está quase terminado o ano de 2009.
É um minuto, a vida!

Os dias sucedem-se, formando meses e anos.
E nem damos por isso.
O maior desperdício ainda é o tempo que passamos a dormir.
No fim de 60 anos, só foram vividos 40!
Dormir... dormir para quê? Acho que deveria dormir quem quisesse, quem gostasse, como o faz quem fuma, viaja ou vai à praia.
E o trabalho, a despesa e o tempo gasto para nos alimentarmos?
Gastamos 6 horas por dia, no mínimo, para preparar e tomar as refeições, já não falando no tempo para fazer as compras necessárias par tal, acabando por somar mais de 90 dias por ano, que nos tais 60 anos vai dar a bonita soma de mais de 14 anos.
O ideal seria comermos uma vez por semana, ou vá lá, uma vez por dia.
É que os anos passam a correr.
Não sobra tempo para ler todos os livros que gostaria, para ver todos os filmes, para ouvir todas as músicas.
E quando é que poderemos passear, viajar, fazer uma sesta, conviver com os amigos, com a família?
Passar 20 anos a dormir? É um desperdício.
Se descontármos os 20 anos que temos que trabalhar... lá se vai a nossa vida entre trabalhar, comer e dormir.
Pouco resta para tudo o mais.
E se pensássemos aproveitar melhor esta passagem por cá?

Temporal e Natal

Saí por uns minutos para comprar pão e quando voltei, o portão do jardim não funcionava.
Uma rajada de vento atirou-o no sentido contrário, saltou a peça que o segura e fiquei sem poder entrar.
Tentei de todas as formas colocá-lo no sítio, mas não tive força.
Pedi ajuda a uma vizinha e o esforço das duas foi insuficiente para o voltar a colocar no lugar.
Por fim, com uma alavanca, o marido da vizinha lá conseguiu fazê-lo funcionar.
Já deitada, ainda pensava na força terrível do vento que conseguiu fazer uma acção daquelas em segundos.
Adormeci tarde e ainda não tinha dormido uma hora, quando começou o temporal.
Vento assustador fazia abanar como leques os estores, os gradeamentos das casas ao lado, parecia que ia fazer voar as casas como penas de passaritos.
Foram horas de susto, em que só ouvia os vasos do meu quintal serem projectados e partirem-se como ovos.
O som dos grandes potes, que eu tanto estimava, a bater no chão e a partirem-se, fazia-me tremer de medo e de pena.
Tentava identificar o que se ia estragando a cada rajada de vento e comecei a pensar em descer as escadas e ficar no rés-do-chão, lugar que considerava mais seguro.
Fiquei encolhida na cama e esperei que o vento amainasse e a chuva parasse de cair.
Só pela manhã foi sossegando aos poucos e me deixou passar pelas brasas, ainda com a preocupação do que iria encontrar quando abrisse a porta.
Sem electricidade, sem aquecimento, sem TV, sem coragem... lá fui ver o que restara da terrível noite.
As telhas da vivenda ao lado, voaram.
As grades do jardim da outra vizinha, que seguravam as trepadeiras, partiram-se em bocadinhos
que se espalhavam por todo o lado.
Os meus potes de barro, com plantas tão bonitas, jaziam como soldados agonizantes no campo de batalha, com as entranhas de fora e partidos de tal forma que nem deixavam mostras do que tinham sido as suas formas.
Restava-me o consolo de que tudo aquilo tinha remédio...
A lareira fez companhia e uma vela ajudou a não andar contra as paredes.
Foram 24 horas sem electricidade, mas mesmo assim com sorte, pois na cidade ao lado, 48 horas depois ainda estava tudo apagado.
Uma véspera de Natal triste e desconfortável.
A Natureza começa a vingar-se!

Sara

Um sonho...

Tenho andado pouco por aqui, porque tenho passado mais tempo nas minhas recordações em Tempo Diferente.
Talvez seja esta Quadra Natalícia, talvez a solidão de que sofro em recaídas como se fosse doença crónica, talvez a procura de quem fui, da força que pensava ter e dos sonhos que me empurravam para a frente.
Ora passo o meu tempo a ver filmes, ora leio, leio, leio, sem encontrar um tema que me afaste desta insatisfação, ora consumo música até ao cansaço... sempre com a esperança de ocupar o lugar que continua vazio.
Deveria ser preso, quem mata um sonho.

"Eu conheço um país..."

Nicolau Santos, Director - adjunto do Jornal Expresso, In Revista "Exportar"

"Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.
Eu conheço um país que tem uma empresa que concebeu um sistema pelo qual você pode escolher, no seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou um sistema biométrico de pagamento nas bombas de gasolina.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou uma bilha de gás muito leve que já ganhou prémios internacionais.
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, permitindo operações inexistentes na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos.
Eu conheço um país que revolucionou o sistema financeiro e tem três Bancos nos cinco primeiros da Europa.
Eu conheço um país que está muito avançado na investigação e produção de energia através das ondas do mar e do vento.
Eu conheço um país que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para toda a EU.
Eu conheço um país que desenvolveu sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos às PMES.
Eu conheço um país que tem diversas empresas a trabalhar para a NASA e a Agência Espacial Europeia.
Eu conheço um país que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas.
Eu conheço um país que inventou e produz um medicamento anti-epiléptico para o mercado mundial.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça.
Eu conheço um país que produz um vinho que em duas provas ibéricas superou vários dos melhore vinhos espanhóis.
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamento de pré-pagos para telemóveis.
Eu conheço um país que construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pelo Mundo.
O leitor, possivelmente, não reconheceu neste país aquele em que vive...
PORTUGAL
Mas é verdade.Tudo o que leu acima, foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.
Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Out Systems, WeDo, Quinta do Monte d'Oiro, Brisa Space Services, Bial, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Portugal Telecom Inovação, Grupos Vila Galé, Amorim, Pestana, Porto Bay e BES Turismo.
Há ainda grandes empresas multinacionais instalada no País, mas dirigidas por portugueses, com técnicos portugueses, de reconhecido sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal e a Mc Donalds (que desenvolveu e aperfeiçoou em Portugal um sistema que permite quantificar as refeições e tipo que são vendidas em cada e todos os estabelecimentos da cadeia em todo o mundo).
É este o País de sucesso em que também vivemos, estatisticamente sempre na cauda da Europa, com péssimos índices na educação, e gravíssimos problemas no ambiente e na saúde... do que se atrasou em relação à média UE...etc.
Mas só falamos do País que está mal, daquele que não acompanhou o progresso.
É tempo de mostrarmos ao mundo os nossos sucessos e nos orgulharmos disso."

Humanidade robot

Quantas crianças das nossas cidades já viram uma galinha viva?
Quantas já viram como se semeia, rega e arranca uma cenoura da terra, ou um ninho de passarinho com filhotes de olhos pretos e bicos escancarados?
E o nascer do Sol ou o seu adormecer alaranjado atrás dos contornos do horizonte?
Pensam que os frangos nascem e crescem sem cabeça, sem roupa e manetas, tal como os podem ver no supermercado, único local onde contactam com alguns elementos da natureza.
Para os nossos filhos mais novinhos o porco é bifana, costeleta ou chouriço.
Nos desenhos animados conhecem os porquinhos, mas estes falam, vestem e brincam como eles, diferindo apenas nos narizes mais redondos que o habitual e as orelhinhas cor de rosa.
As alfaces, as bringelas, as cenouras e as batatas são feitas pelos homens nas fábricas, tal como eles moldam a plasticina no jardim escola.
O sumo de ananás vem do supermercado, assim como o de morango e o de pêssego.
Até a água boa para beber de lá vem, em garrafas e garrafões, já que a que sai da torneira, dizem-lhes que não serve para beber e a que provam no mar é salgada e cheia de lixo.
A chuva vem do céu e é uma seca, porque impede que brinquem no pátio. Às vezes é gira, porque faz lama e charcos onde podem meter os ténis de marca, à saída do colégio, quando vão a correr para o carro, arrastados pelos pais. A utilidade da água, além de ser para beber, talvez arrisquem a dizer que é para lavar os carros, encher as piscinas e regar a relva do jardim da vivenda.
Embora digamos constantemente que as nossas crianças sabem tudo de computadores, de canais da TV Cabo e de telemóveis, dá tristeza ver como crescem longe da natureza.
Nunca viram um riacho, a correr límpido entre os seixos do seu leito e nas suas margens, a pequena vegetação a mergulhar a folhagem na água de cristal.
Nunca ouviram o arrolhar dos pombos no telhado do palheiro, nem o galaró cantar ao amanhecer. Não dormiram à sombra duma árvore, em tarde de calor, nas traseiras da casa, respirando o oxigénio com que ela generosamente os presenteia, sem cobrar qualquer taxa.
E à noite, em vez de luzes coloridas de publicidade animada, nunca ficaram na varanda a olhar o céu estrelado, medindo apenas a imensidão do universo e o silêncio - o silêncio tão ausente dos seus dias.
As fontes estão poluídas, os rios cheiram mal, não podem andar descalços por causa dos vidros, das latas e dos arames.
Até olhar o firmamento, já não é possível sem tomar os satélites, por estrelas.
E se os olhos não sentem a ausência das cores da natureza, por terem as tintas que as imitam, se os ouvidos se habituaram aos sons das baterias, violas eléctricas e estereofonias, em vez do canto dos pássaros e das canções trauteadas pela mãe nos seus trabalhos domésticos, o olfato perde o cheiro da terra molhada pela chuva na tarde de Verão e o paladar nem adivinha o que é uma cereja colhida da árvore, estalar entre os dentes e suculenta, deixar escorrer o sumo que nos tinge a camisola da cor do sangue.
O pôr do Sol é tão habitual, que nunca pararam para o ver e só dariam conta que o Sol nasce, se um dia ele não nascesse.
E assim o progresso vai roubando, aos poucos, a humanidade das gerações que chegam.

Pessimismo?


Telenovelas

Há já algum tempo que as telenovelas deixaram de ser histórias de amores e enganos, de truques e armadilhas.
Neste momento tiro o chapéu às telenovelas brasileiras.
Os assuntos que nelas são tratados, a abordagem dos problemas sociais feita de forma tão lúcida e acessível, a oportunidade de ensinar, de chegar às grandes massas, são notáveis.
Por outro lado, os actores cada vez são mais fantásticos. Que maravilhosas representações!
Depois vem a fotografia, a música, os cenários.
Quem se lembra do jovem actor que representava um doente de esquizofrenia?
Quem pode ter vergonha de dizer que vê telenovelas, quando elas são já verdadeira arte de fazer teatro, televisão e cinema?

Pobre de espírito


O senhor não vê que ao boicotar o trabalho de alguém, não está a mostrar a incompetência dessa pessoa, mas a sua?

A tarefa mais simples que dependa da sua colaboração, arrasta-se no tempo e é mal feita ou fica incompleta, para a prejudicar.

Não vê que isso não prova que a pessoa que o senhor quer deixar mal vista, não sabe fazer o que lhe foi pedido, mas sim, que o senhor não é um profissional?

Se ela tem de montar um jornal de parede e o senhor é chamado para colocar uma simples luz que o ilumine, se para tal leva 3/4 meses... não mostra que ela não é capaz de escrever os artigos, dar forma ao jornal, mas sim que o senhor não corresponde ao que deve ser a sua função - a de electricista na sua forma mais simples, que apenas tem de esticar um fio e montar uma lâmpada!
Quer provar à viva força com o seu trabalho mal feito, que ela não sabe fazer o dela???

Isso é o que se chama pobreza, pobreza de espírito.

Música especial

O original

Georg Friedrich Haendel (1685-1759), ópera Rinaldo. Aria “Lascia la Spina”.
A interpretação (talvez) mais fiel à partitura original é a da mezzo-soprano Cecilia Bartoli, “menina bonita” do Quadratim e do Pretérito Mais-Que-Perfeito.
No PmqP foi publicado a 23.Fev.2009, a propósito do aniversário do nascimento de Haendel, este clip de um espectáculo de Bartoli, acompanhada, salvo erro, pos “Les Musiciens du Louvre”, grupo de câmara que frequentemente acompanha a mezzo-soprano italiana nas suas (muitas) interpretações do canto barroco.

Uma bonita versão
A interpretação de Lascia la Spina pelo soprano Sarah Brightman, que “aproxima” mais a leitura original da obra das versões que modernamente são apresentadas em filmes, telenovelas, etc.
A peça é por vezes apresentada com o título “Lascia ch’Io Pianga”





No vídeo reproduzido acima, uma versão da aria de Haendel arranjada por Paul Schwarz, com o título “Lascia” e utilizada recentemente na telenovela “Viver a Vida”, realizada pela Rede Globo e transmitida em Portugal pela SIC.

A magia das palavras

"O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso. "

Eugénio de Andrade

Lenga lenga

Outra lenga lenga da minha infância


Ana Badana
Roca de cana
Fita vermelha
Rabo de ovelha
Mija no pote
Faz vinagre forte.


A música dos nomes em ana...