As duas faces da vida.

No meu serviço, duas amigas vieram ajudar-me a terminar uma tarefa e enquanto o faziamos, tagarelámos depreocupadas.
Houve um momento em que falámos do casamento.
Como já tinhamos, as três, vivido essa experiência sem nos sairmos muito bem, pelo menos tão bem como tinhamos sonhado - o "para sempre" não tinha passado de "alguns anos"- ficámos para ali a compor teorias sobre o tema.
Elas, como mulheres inteligentes, bonitas, independentes e ainda jovens, falavam da disposição para voltar a experimentar o casamento, apesar de tudo.
Eu, como mais velha, dava sugestões (a que geralmente chamam conselhos e como diz o outro, se conselhos fossem de alguma valia, não se davam, vendiam-se) e dizia-lhes que não fechassem o coração a um amor, pois de um momento para o outro poderia aparecer e fazer com que as suas vidas fossem mais felizes.
Concordaram e asseguraram-me que não tinham desistido de envelhecer com um companheiro que as mimasse.
Entre frases mais sérias e algumas graçolas, fomos terminando a nossa tarefa.
Passou cerca de um ano sobre esse dia. Para mim continuou tudo igual, numa rotina calculada.
Para as minhas amigas, não.
A vida guardava-lhes grandes surpresas.
Naquele dia estavam ambas na mesma posição, no mesmo caminho, iam na mesma direcção.
Eram as duas divorciadas, sem namorado, com um filho pequeno, no mesmo emprego, quase a mesma idade, saudáveis e charmosas.
De repente, o destino obrigou-as a um caminho diferente.
Uma encontrou o amor da sua vida e com ele toda a alegria de viver. E como é bonito o sorriso de alguém apaixonado e correspondido!
A outra, sempre preocupada com o exercício físico, com a alimentação saudável, com a escolha da vida bem perto da Natureza, descobriu estar doente e ter de ser operada urgentemente.
Encetou então uma dura luta contra a doença.
E nestes momentos tão inesperados para mim, o que mais me tem impressionado é a forma como ambas têm percorrido o seu novo caminho.
A que está feliz, age discretamente, sem fazer alarde da sua sorte, da sua fortuna, do seu tesouro, evitando exibir o entusiasmo que passou a acompanhar os seus dias. Passa silenciosa no corredor, quase a esconder os sinais da sua felicidade, num pudor ingénuo.
A que luta para reaver a vida que lhe foi roubada por doença intrusa, nunca mostra desânimo ou revolta, nunca se queixa.
Eu fico temerosa por ela, com lágrimas nos olhos perante a volta que a sua vida deu em poucos meses, aflita, antevendo as horas de sofrimento que a esperam. Mas ela não baixa os braços e ainda me anima.
Enquanto uma caminha para tratamentos de consequências dolorosas, a outra goza pequenas férias com o coração cheio de esperança.
No entanto, nem uma exibe a sua felicidade, nem a outra se queixa da sua desdita.
Numa, vejo a simplicidade mesmo quando pisa um caminho atapetado com pétalas de rosa.
Na outra, a imensa coragem de enfrentar o medo e a dúvida, sem queixumes.
Eu, eu fico feliz com a que está bem, sofro as dores da que se debate com a doença e sinto-me muito orgulhosa de as ter como amigas.
Verdadeiras lições de vida todos os dias!

1 comentário:

Nuno Medon disse...

Olá! Infelizmente, aqui está a alegria e a tristeza. Se a tua amiga é forte, na doença e optimista, poderá ficar melhor ou boa, com a sua força de vontade ( assim o espero ). beijos