Café com companhia

Mesmo sem vontade de sair de casa, quem vive sozinha e precisa de comprar alimentos, tem de o fazer. Estava sem pão, base do pouco que tenho comido ultimamente, desde que ando adoentada. Queria comprar legumes e fruta. Resolvi arranjar-me e lá fui.
Para não vir para casa logo depois de fazer as compras, sentei-me no bar e aproveitei para tomar o pequeno almoço.
Nas mesas à minha frente estavam 5 pessoas que me despertaram a atenção.
Um casal mais idoso, ele sempre sorridente, com um rosto perfeito, com aspecto de ser muito alto e magro, ela muito bem vestida, com um blusão acetinado de penas e uma boina de lã angorá, que deixava aparecer algum cabelo loiro e cuidado, estavam logo ao meu lado.
Duas mulheres, a rondarem os quarenta anos e um homem da mesma idade, vestindo roupa desportiva e de bom gosto estavam à sua frente. Uma ficou no topo da mesa e lia uma revista, a outra falava, enquanto os mais velhos, que deduzi fossem os pais, sorriam.
O homem mais novo alimentava a tagarelice com um ou outro comentário.
A que lia, não respondia e mostrava não prestar atenção ao que diziam.
A outra, em tom bastante alto, confiante, que me permitia ouvir o que dizia, comentava que "alguem com quem trabalhava, mal entrava no serviço tomava café. Daí a pouco já pedia café de novo e até à hora de almoço ainda bebia mais dois ou três, continuando assim todo o dia.
Quando lhe dizia que ele bebia café demais, respondia-lhe que como havia pessoas viciadas em tabaco, ele era viciado em café."
Sorriam e mal faziam um comentário de poucas palavras, ela voltava a dominar as atenções com outro assunto.
De repente, levantou-se para ir às compras. Perguntou à que lia se precisava de alguma coisa. Esta negou com um gesto de cabeça, sem desviar os olhos da revista.
Isso não a fez desistir e nomeou uma lista de coisas, na tentativa de a fazer lembrar de alguma falta. Passou do shampô para o creme das mãos, dos detergentes para os legumes, dos queijos para as bebidas.
Mas, nem resposta, apenas novo acenar de cabeça.
Então, saiu da mesa e desapareceu no meio das pessoas.
A que lia, levantou os olhos para o homem mais novo, passou-lhe a mão no rosto e deu-lhe um jeito no cabelo já bastante grisalho. Ele olhou-a e sorriu.
Lembrei-me da minha família. Do meu pai sempre tão bem posto, com um riso franco em que mostrava os dentes perfeitos, sempre com um ar meigo e bem disposto. Da minha mãe tão vaidosa, com o seu baton, os seus brincos e colares, o seu cabelo muito curtinho, com roupa clássica de boa qualidade. Eu, tagarela, ria de tudo e entusiasmava o meu irmão mais novo a dizer disparates e a rir também.
O meu irmão mais velho não me achava graça, nem tinha paciência para me ouvir.
A minha mãe acabava por me mandar calar, mas era nesses momentos que eu mais tinha vontade de rir.
Então o meu pai dava-me toques com os pés debaixo da mesa e ria também. A minha mãe zangava-se dizendo que ele era o culpado, que era pior do que eu.
O meu coração encheu-se de recordações e de saudades.
A minha solidão tornou-se tão real, que de repente parecia não haver ninguém à minha volta.
Olhei o fundo da chávena, bebi o último golo açucarado em demasia, arrumei o tabuleiro e saí.
O frio da rua pareceu-me uma carícia. Enchi o peito de ar, com força e corri para casa.

Ronan Keating

2010...

Terminou 2009 e... lá tivemos que aceitar 2010.
Nada consegue parar o tempo.
Nem a vontade, nem a necessidade, nem a força do pensamento!
E foi triste o fim de um e o começo do outro.
Temporal, destruição, falta de electricidade, inundações, gripe A, desemprego, serviços de saúde de meter medo para os menos abonados, miséria, crime e injustiça q.b.
No entanto as lojas cheias de gente a comprar roupa como se tivessem 200 corpos, a comprar brinquedos cada vez mais sofisticados e a que as crianças pouco ligam, comida aos montes de todas as espécies e sabores, bibelots, adornos, sei lá eu que mais... enquanto os sem emprego, os sem abrigo, os sem saúde, os sem família, os sem comida, os sem esperança, assistem a todo um desfile de supérfluo com o coração partido.
Tenho visto muita indiferença, muita ambição, muitas atitudes que não gosto.
As pessoas desculpam-se com a crise, mas ela serve apenas de motivo para darem largas ao seu mais profundo egoísmo.
Poderiam contornar a crise de que tanto falam, com menos luxo, com menos ostentação... mas é difícil privarem-se de um pouco que seja, para que os outros se sintam menos infelizes.
Estou triste, como há muito tempo não estava.
Comecei 2010 com o coração apertado, com as lágrimas nos olhos, com uma nuvem sobre o que espero do futuro.
E não é por crise económica nenhuma...
Apenas antevejo o que é a velhice, a falta de sáude, a falta de projectos, as limitações de quem soma anos.
E em 2010 somarei mais um.

A vida é um minuto!

Está quase terminado o ano de 2009.
É um minuto, a vida!

Os dias sucedem-se, formando meses e anos.
E nem damos por isso.
O maior desperdício ainda é o tempo que passamos a dormir.
No fim de 60 anos, só foram vividos 40!
Dormir... dormir para quê? Acho que deveria dormir quem quisesse, quem gostasse, como o faz quem fuma, viaja ou vai à praia.
E o trabalho, a despesa e o tempo gasto para nos alimentarmos?
Gastamos 6 horas por dia, no mínimo, para preparar e tomar as refeições, já não falando no tempo para fazer as compras necessárias par tal, acabando por somar mais de 90 dias por ano, que nos tais 60 anos vai dar a bonita soma de mais de 14 anos.
O ideal seria comermos uma vez por semana, ou vá lá, uma vez por dia.
É que os anos passam a correr.
Não sobra tempo para ler todos os livros que gostaria, para ver todos os filmes, para ouvir todas as músicas.
E quando é que poderemos passear, viajar, fazer uma sesta, conviver com os amigos, com a família?
Passar 20 anos a dormir? É um desperdício.
Se descontármos os 20 anos que temos que trabalhar... lá se vai a nossa vida entre trabalhar, comer e dormir.
Pouco resta para tudo o mais.
E se pensássemos aproveitar melhor esta passagem por cá?

Temporal e Natal

Saí por uns minutos para comprar pão e quando voltei, o portão do jardim não funcionava.
Uma rajada de vento atirou-o no sentido contrário, saltou a peça que o segura e fiquei sem poder entrar.
Tentei de todas as formas colocá-lo no sítio, mas não tive força.
Pedi ajuda a uma vizinha e o esforço das duas foi insuficiente para o voltar a colocar no lugar.
Por fim, com uma alavanca, o marido da vizinha lá conseguiu fazê-lo funcionar.
Já deitada, ainda pensava na força terrível do vento que conseguiu fazer uma acção daquelas em segundos.
Adormeci tarde e ainda não tinha dormido uma hora, quando começou o temporal.
Vento assustador fazia abanar como leques os estores, os gradeamentos das casas ao lado, parecia que ia fazer voar as casas como penas de passaritos.
Foram horas de susto, em que só ouvia os vasos do meu quintal serem projectados e partirem-se como ovos.
O som dos grandes potes, que eu tanto estimava, a bater no chão e a partirem-se, fazia-me tremer de medo e de pena.
Tentava identificar o que se ia estragando a cada rajada de vento e comecei a pensar em descer as escadas e ficar no rés-do-chão, lugar que considerava mais seguro.
Fiquei encolhida na cama e esperei que o vento amainasse e a chuva parasse de cair.
Só pela manhã foi sossegando aos poucos e me deixou passar pelas brasas, ainda com a preocupação do que iria encontrar quando abrisse a porta.
Sem electricidade, sem aquecimento, sem TV, sem coragem... lá fui ver o que restara da terrível noite.
As telhas da vivenda ao lado, voaram.
As grades do jardim da outra vizinha, que seguravam as trepadeiras, partiram-se em bocadinhos
que se espalhavam por todo o lado.
Os meus potes de barro, com plantas tão bonitas, jaziam como soldados agonizantes no campo de batalha, com as entranhas de fora e partidos de tal forma que nem deixavam mostras do que tinham sido as suas formas.
Restava-me o consolo de que tudo aquilo tinha remédio...
A lareira fez companhia e uma vela ajudou a não andar contra as paredes.
Foram 24 horas sem electricidade, mas mesmo assim com sorte, pois na cidade ao lado, 48 horas depois ainda estava tudo apagado.
Uma véspera de Natal triste e desconfortável.
A Natureza começa a vingar-se!

Sara

Um sonho...

Tenho andado pouco por aqui, porque tenho passado mais tempo nas minhas recordações em Tempo Diferente.
Talvez seja esta Quadra Natalícia, talvez a solidão de que sofro em recaídas como se fosse doença crónica, talvez a procura de quem fui, da força que pensava ter e dos sonhos que me empurravam para a frente.
Ora passo o meu tempo a ver filmes, ora leio, leio, leio, sem encontrar um tema que me afaste desta insatisfação, ora consumo música até ao cansaço... sempre com a esperança de ocupar o lugar que continua vazio.
Deveria ser preso, quem mata um sonho.

"Eu conheço um país..."

Nicolau Santos, Director - adjunto do Jornal Expresso, In Revista "Exportar"

"Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.
Eu conheço um país que tem uma empresa que concebeu um sistema pelo qual você pode escolher, no seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou um sistema biométrico de pagamento nas bombas de gasolina.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou uma bilha de gás muito leve que já ganhou prémios internacionais.
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, permitindo operações inexistentes na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos.
Eu conheço um país que revolucionou o sistema financeiro e tem três Bancos nos cinco primeiros da Europa.
Eu conheço um país que está muito avançado na investigação e produção de energia através das ondas do mar e do vento.
Eu conheço um país que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para toda a EU.
Eu conheço um país que desenvolveu sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos às PMES.
Eu conheço um país que tem diversas empresas a trabalhar para a NASA e a Agência Espacial Europeia.
Eu conheço um país que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas.
Eu conheço um país que inventou e produz um medicamento anti-epiléptico para o mercado mundial.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça.
Eu conheço um país que produz um vinho que em duas provas ibéricas superou vários dos melhore vinhos espanhóis.
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamento de pré-pagos para telemóveis.
Eu conheço um país que construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pelo Mundo.
O leitor, possivelmente, não reconheceu neste país aquele em que vive...
PORTUGAL
Mas é verdade.Tudo o que leu acima, foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.
Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Out Systems, WeDo, Quinta do Monte d'Oiro, Brisa Space Services, Bial, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Portugal Telecom Inovação, Grupos Vila Galé, Amorim, Pestana, Porto Bay e BES Turismo.
Há ainda grandes empresas multinacionais instalada no País, mas dirigidas por portugueses, com técnicos portugueses, de reconhecido sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal e a Mc Donalds (que desenvolveu e aperfeiçoou em Portugal um sistema que permite quantificar as refeições e tipo que são vendidas em cada e todos os estabelecimentos da cadeia em todo o mundo).
É este o País de sucesso em que também vivemos, estatisticamente sempre na cauda da Europa, com péssimos índices na educação, e gravíssimos problemas no ambiente e na saúde... do que se atrasou em relação à média UE...etc.
Mas só falamos do País que está mal, daquele que não acompanhou o progresso.
É tempo de mostrarmos ao mundo os nossos sucessos e nos orgulharmos disso."

Humanidade robot

Quantas crianças das nossas cidades já viram uma galinha viva?
Quantas já viram como se semeia, rega e arranca uma cenoura da terra, ou um ninho de passarinho com filhotes de olhos pretos e bicos escancarados?
E o nascer do Sol ou o seu adormecer alaranjado atrás dos contornos do horizonte?
Pensam que os frangos nascem e crescem sem cabeça, sem roupa e manetas, tal como os podem ver no supermercado, único local onde contactam com alguns elementos da natureza.
Para os nossos filhos mais novinhos o porco é bifana, costeleta ou chouriço.
Nos desenhos animados conhecem os porquinhos, mas estes falam, vestem e brincam como eles, diferindo apenas nos narizes mais redondos que o habitual e as orelhinhas cor de rosa.
As alfaces, as bringelas, as cenouras e as batatas são feitas pelos homens nas fábricas, tal como eles moldam a plasticina no jardim escola.
O sumo de ananás vem do supermercado, assim como o de morango e o de pêssego.
Até a água boa para beber de lá vem, em garrafas e garrafões, já que a que sai da torneira, dizem-lhes que não serve para beber e a que provam no mar é salgada e cheia de lixo.
A chuva vem do céu e é uma seca, porque impede que brinquem no pátio. Às vezes é gira, porque faz lama e charcos onde podem meter os ténis de marca, à saída do colégio, quando vão a correr para o carro, arrastados pelos pais. A utilidade da água, além de ser para beber, talvez arrisquem a dizer que é para lavar os carros, encher as piscinas e regar a relva do jardim da vivenda.
Embora digamos constantemente que as nossas crianças sabem tudo de computadores, de canais da TV Cabo e de telemóveis, dá tristeza ver como crescem longe da natureza.
Nunca viram um riacho, a correr límpido entre os seixos do seu leito e nas suas margens, a pequena vegetação a mergulhar a folhagem na água de cristal.
Nunca ouviram o arrolhar dos pombos no telhado do palheiro, nem o galaró cantar ao amanhecer. Não dormiram à sombra duma árvore, em tarde de calor, nas traseiras da casa, respirando o oxigénio com que ela generosamente os presenteia, sem cobrar qualquer taxa.
E à noite, em vez de luzes coloridas de publicidade animada, nunca ficaram na varanda a olhar o céu estrelado, medindo apenas a imensidão do universo e o silêncio - o silêncio tão ausente dos seus dias.
As fontes estão poluídas, os rios cheiram mal, não podem andar descalços por causa dos vidros, das latas e dos arames.
Até olhar o firmamento, já não é possível sem tomar os satélites, por estrelas.
E se os olhos não sentem a ausência das cores da natureza, por terem as tintas que as imitam, se os ouvidos se habituaram aos sons das baterias, violas eléctricas e estereofonias, em vez do canto dos pássaros e das canções trauteadas pela mãe nos seus trabalhos domésticos, o olfato perde o cheiro da terra molhada pela chuva na tarde de Verão e o paladar nem adivinha o que é uma cereja colhida da árvore, estalar entre os dentes e suculenta, deixar escorrer o sumo que nos tinge a camisola da cor do sangue.
O pôr do Sol é tão habitual, que nunca pararam para o ver e só dariam conta que o Sol nasce, se um dia ele não nascesse.
E assim o progresso vai roubando, aos poucos, a humanidade das gerações que chegam.

Pessimismo?


Telenovelas

Há já algum tempo que as telenovelas deixaram de ser histórias de amores e enganos, de truques e armadilhas.
Neste momento tiro o chapéu às telenovelas brasileiras.
Os assuntos que nelas são tratados, a abordagem dos problemas sociais feita de forma tão lúcida e acessível, a oportunidade de ensinar, de chegar às grandes massas, são notáveis.
Por outro lado, os actores cada vez são mais fantásticos. Que maravilhosas representações!
Depois vem a fotografia, a música, os cenários.
Quem se lembra do jovem actor que representava um doente de esquizofrenia?
Quem pode ter vergonha de dizer que vê telenovelas, quando elas são já verdadeira arte de fazer teatro, televisão e cinema?

Pobre de espírito


O senhor não vê que ao boicotar o trabalho de alguém, não está a mostrar a incompetência dessa pessoa, mas a sua?

A tarefa mais simples que dependa da sua colaboração, arrasta-se no tempo e é mal feita ou fica incompleta, para a prejudicar.

Não vê que isso não prova que a pessoa que o senhor quer deixar mal vista, não sabe fazer o que lhe foi pedido, mas sim, que o senhor não é um profissional?

Se ela tem de montar um jornal de parede e o senhor é chamado para colocar uma simples luz que o ilumine, se para tal leva 3/4 meses... não mostra que ela não é capaz de escrever os artigos, dar forma ao jornal, mas sim que o senhor não corresponde ao que deve ser a sua função - a de electricista na sua forma mais simples, que apenas tem de esticar um fio e montar uma lâmpada!
Quer provar à viva força com o seu trabalho mal feito, que ela não sabe fazer o dela???

Isso é o que se chama pobreza, pobreza de espírito.

Música especial

O original

Georg Friedrich Haendel (1685-1759), ópera Rinaldo. Aria “Lascia la Spina”.
A interpretação (talvez) mais fiel à partitura original é a da mezzo-soprano Cecilia Bartoli, “menina bonita” do Quadratim e do Pretérito Mais-Que-Perfeito.
No PmqP foi publicado a 23.Fev.2009, a propósito do aniversário do nascimento de Haendel, este clip de um espectáculo de Bartoli, acompanhada, salvo erro, pos “Les Musiciens du Louvre”, grupo de câmara que frequentemente acompanha a mezzo-soprano italiana nas suas (muitas) interpretações do canto barroco.

Uma bonita versão
A interpretação de Lascia la Spina pelo soprano Sarah Brightman, que “aproxima” mais a leitura original da obra das versões que modernamente são apresentadas em filmes, telenovelas, etc.
A peça é por vezes apresentada com o título “Lascia ch’Io Pianga”





No vídeo reproduzido acima, uma versão da aria de Haendel arranjada por Paul Schwarz, com o título “Lascia” e utilizada recentemente na telenovela “Viver a Vida”, realizada pela Rede Globo e transmitida em Portugal pela SIC.

A magia das palavras

"O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso. "

Eugénio de Andrade

Lenga lenga

Outra lenga lenga da minha infância


Ana Badana
Roca de cana
Fita vermelha
Rabo de ovelha
Mija no pote
Faz vinagre forte.


A música dos nomes em ana...

Israel, tão distante.

Sou católica e pouco sei da religião Judaica, mas quando era miúda queria ir para Israel ajudar a construir a nova Nação dos Judeus.
Li todos os livros de Leon Uris, li tudo sobre os Kibutz, era apaixonada pela luta e pelas vitórias daquele povo que sofrera o Holocausto.
As mulheres militares, os laranjais a crescer no deserto, a união que faz a força... eram temas que me empolgavam.
No entanto, mal conhecia o terror que o meu país vivia sob a ditadura de Salazar.
Cresci com as palavras do meu pai bem gravadas no meu ouvido de que a política é para os políticos e nós, simples mortais, teríamos de aceitar a nossa sorte calados, para não sofrer as consequências. As paredes tinham ouvidos...
Era o medo instalado anos e anos a fio.
A política não fazia parte da nossa vida e apesar de se viver em democracia há mais de 3 décadas, continua a não fazer parte.
Poucos portugueses conhecem a ideologia dos partidos que traçam o caminho da nossa Nação.
Sabemos alguma coisa pelo que vamos lendo nas letras gordas dos jornais, pelo que vamos ouvindo nos noticiários televisivos, mas não nos empenhamos em aprender, em compreender e principalmente, em ajudar a construir um país melhor.
Não enfrentamos os problemas... não nos comprometemos.
Fazer parte de um grupo que defende a Natureza, que defende um Povo, que luta por alguma coisa que melhore a breve existência do ser humano, dá trabalho, tira tempo, é cansativo e muitas vezes frustrante.
Mas falar, criticar, exigir... é a nossa especialidade. Mesmo sem sabermos o que estamos a dizer!
Quem defende o Homem do poder destruidor do Homem?
Quem nos defende de nós próprios?

Fernando Pessoa

"Deve chamar-se tristeza"

"Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe estará uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó."


Poesias inéditas - F. Pessoa

Muro de Berlim

A criatividade do ser humano não tem limites e explode mesmo nas condições mais difíceis.

Para quem tem a liberdade na alma,
não há muro suficientemente alto para evitar que o sonho nasça e se realize.
Para quem tem a esperança no
coração, a tirania dos homens é um muro que eles próprios derrubarão.
O sonho, a força e a paixão levam sempre a melhor... Os que não conseguem ouvir os seus sentimentos, ficarão para trás.

Cisjordânia.


Mas o homem cria outros muros.
Cisjordânia é assim.

São 6 mts de altura para ilustrar o ódio, a raiva, a vingança...

O que ensinamos aos nossos filhos?

Berlim... 20 anos.

Muro de Berlim, Cortina de Ferro, Muro da Vergonha.
Mais de 5000 pessoas foram tentadas a saltá-lo... 200 perderam a vida atrás do seu desejo de ser livre.
Balas, minas, arame farpado, jactos de água...
Como deve ser triste viver a sonhar com uma liberdade que nos negam, só porque têm mais força... mais armas.
Um país derrotado, uma cidade dividida, famílias separadas, sonhos mil vezes adiados.

Caiu, finalmente, o Muro da Vergonha. E em 2 dias, mais de 2 milhões de pessoas atravessaram de Berlim Leste para Berlim Oeste, festejando esse momento tão importante para toda a humanidade.

Foi há 20 anos. Continua a ser festejada.
A festa da liberdade!

Natal...Já?

Já se fala em Natal!
Eu sei que o tempo passa num instante, mas cada vez começa mais cedo esta barafunda nas ruas, nas lojas, nas cabeças das pessoas.
Hoje pensei fazer doce de abóbora e como não tinha açúcar suficiente, nem nozes, fui tomar um café e aproveitei para dar um salto ao supermercado.
Quando entrei, fiquei parada no meio do hall. Não queria acreditar que aquela gente toda estava à espera para fazer embrulhos de Natal!
Acho um pouco demais.
No ano passado, quando no princípio de Dezembro fui às compras normais para casa, fiquei assustada ao ver os carrinhos à minha frente cheios de caixas de chocolates e de garrafas de bebidas.
Primeiro, pensei que me distraíra na data e que já estava na véspera de Natal. Depois fiquei admirada com a quantidade daquelas coisas que as pessoas levavam.
Uns carrinhos tinham dificuldade em equilibrar a montanha de compras, outros eram o transporte de quantidade imensa de caixas de Ferrero Rocher e de garrafas de scotch.
O que ia mesmo junto a mim, levava mais de 30 ou 40 caixas de chocolates e de vinho, apenas.
Pensei na despesa, mas fiquei mais chocada quando vi pagar com recurso ao crédito.
Oferecer o que não temos, fazer vista com o que teremos de pagar durante meses... Não me entra na cabeça!
Não é Natal, é disparate.

A Tradição

"A tradição já não é o que era"
Esta frase concebida, penso eu, pelos especialistas de publicidade, é excelente.
Todos os dias há situações que me fazem repeti-la.
Lembrei-me dela ainda há pouco tempo quando pensei no "adeus" aos funcionários dos nossos serviços, quand são transferidos ou aposentados.
Com dias de antecedência já se organizava o almoço de despedida.
Depois era o alvoroço na hora da saída, todos juntos no cortejo dos carros a caminho do restaurante, as risadas e as conversetas na hora de escolher lugar nas mesas, a sala repleta só com o "nosso" grupo!
Um de nós mandava fazer o ramo das flores com toque especial para oferta, outro escolhia o cartão com cuidado e fazia-o circular para que fosse assinado por todos. Durante o almoço, cuja ementa também merecera alguma atenção, contavam-se as velhas histórias passadas nas horas de trabalho e todos riam, mesmo que já as tivessem ouvido dezenas de vezes.
Depois da sobremesa, era o momento dos brindes e do discurso.
A despesa era dividida por todos sem problemas de orçamento.
Mas parece que a crise já chegou às despedidas.
Até essas são agora a seco!
A tradição já não é o que era, realmente!

"Os narcísicos" de Daniel Sampaio

E agora... a reflexão.
"Portugal anda cheio de chefes narcísicos. Querem dominar tudo e todos e não mostram qualquer empatia pelos problemas dos que os rodeiam.
A principal característica destas pessoas é um sentimento grandioso da sua importância. Hipervalorizam todos os dias as suas capacidades e exageram tudo em que participam, exigindo que os outros dêem o mesmo valor ao que atribuem a si próprios. Embora o disfarcem com cuidado, desvalorizam as realizações alheias, sendo frequentes os comentários de que foram os primeiros a realizar os feitos de que - às vezes - são os únicos a ter orgulho.
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Os comportamentos arrogantes e altivos destes chefes são característicos. Muitas vezes mostram desdém e atitudes de complacência, considerando que os sentimentos dos outros são sinais de fraqueza ou vulnerabilidade, por isso não se detêm no caminho que os levará à glória.
Quando não são servidos como desejam, ou quando alguém ousa uma crítica, respondem com agressividade, como se estivessem a ser atacados.
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Para manterem a ilusão de auto-suficiência (necessária por causa do temor que os afectos positivos possam conduzir à destruição do sentido de si próprios), não se relacionam profundamente com ninguém, porque assim julgam controlar tudo à sua volta e evitar a destruição psíquica da sua (afinal) frágil pessoa.
Estes chefes não são verdadeiros democratas: falta-lhes o sentido do reconhecimento do outro, a partilha e a capacidade de amar que caracteriza os verdadeiros líderes: podem mandar, mas não serão amados, apenas tolerados, mais tarde ou mais cedo cairão do pedestal que construíram para si próprios.

(Nota: Esta crónica contém fragmentos da DSM-IV-R, classificação americana das doenças mentais.)"

Daniel Sampaio

Adeus

Não gosto de despedidas.
Faço os possíveis para me escapar à hora derradeira da despedida com abraços e adeus de olhos molhados.
Mas, se consigo evitá-las, também fico aborrecida, porque aquele momento da separação é importante para continuar em frente sem problemas.
Parece que fico com a ideia de que ainda não houve a separação, que a qualquer momento vou ver de novo quem já partiu.
Por isso, o melhor é mesmo enfrentar o sofrimento e levar um lenço no bolso para não fungar com o pingo da comoção.
Adeus, boa viagem, conduza com cuidado, avise quando chegar. E a seguir... um momento de nostalgia e a saudade a crescer.
Como é que vou ultrapassar mais um momento doloroso de adeus? Fum, fum.
Já começo a pensar na hipótese de o evitar... lá vem o dilema.

Lenga-Lenga

Hoje lembrei-me de uma lenga-lenga que cantava na minha infância e apeteceu-me recordá-la aqui.
Os sons, as imagens e os costumes que me trazem à memória a minha terra, a minha família e principalmente os meus dias de despreocupação , dão-me alento para aguentar tantas tristezas deste meu dia a dia.
Procurei uma imagem que ilustrasse as minhas recordações e hoje, por momentos, voltei a ser a garota de cabelo cortado à rapaz, que subia a Rua da Cale, a saltitar ora numa perna ora noutra e cantava:

Joaninha voa, voa
que o teu pai foi para Lisboa
para comprar uma sardinha
para dar à joaninha.

Um momento de melancolia

A vida tem momentos difíceis de definir.
Não há nada que os mostre diferentes, porque não há tumultos, não há desgraças, não há mudanças, não há nada que os diferencie de todos os outros vividos recentemente, no entanto, nós sentimos mais a solidão, lembramos mais as coisas que nos magoaram, temos menos esperança, não queremos continuar a lutar.
A realidade aparece de repente nua e crua a nossos olhos e instala-se no nosso peito, não nos deixando respirar, consumindo as energias que constantemente renovamos para ultrapassar isso. Faz-nos companhia a tristeza, o silêncio e o desamparo.
Continuar obriga a uma força que não temos e ficar, uma desistência que nos derruba.
Neste momento tudo parece igual à minha volta, mas nada é o que eu quero, o que eu quis ou o que eu sonhei.
Parecia tudo como desejei, mas num instante apenas, a realidade mostra-se e eu sinto-me perdida. Como se este lugar não fosse o meu, nem este presente fosse o que procurei.
A tristeza vem, magoa e vai-se embora a rir-se de mim.

???

Tenho inveja das pessoas que sabem bem o que querem.
Sabem e acreditam mesmo naquilo que escolheram.
Uma pessoa que escolhe para seu clube o Benfica, ou o Sporting, que escolhe o PS ou o PSD, que segue o Reino de Deus ou os Adventistas do Sétimo Dia, que escolhe e luta pela sua escolha com todo o seu entusiasmo, não duvidando nunca que é essa a melhor opção, a única 100% certa, sem qualquer dúvida ou excepção, deixa-me enternecida por tamanha fé, tão forte convicção.
São pessoas que discutem, gritam, zangam-se, espumam e quase dão a vida pelo seu clube, partido ou religião, sem esmorecerem no seu entusiasmo nunca (jamais, como diria o outro).
Fico invejosa das suas decisões e curiosa por saber como conseguiram estudar, analisar, comparar, provar e comprovar, até atingirem o grau de conhecimento que lhes dá essa força.
Ou então será apenas uma escolha de cor, de simpatia, de musicalidade, de moda?
Mas uma opção de cor ou moda, é capaz de fazer assim tanta efervescência?
A verdade é que, seja apenas fé ou antes muito conhecimento, me deixam triste com as minhas interrogações, as minhas hesitações e invejosa com tais certezas.

Bon Jovi




O que é bom, é bom para sempre!

Nada vale a pena...

Sinto que nada do que faça vale a pena.
Muito menos o que sonho.
Um sábio dizia "tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Se assim é, eu tenho a alma pequena!
Cumprir os objectivos não é suficiente. Superá-los, não é relevante.
Ser justo é relativo. Se estás comigo, posso arranjar-te uma justiça. Se não estás, a justiça terá de ser outra, tem lá paciência!
Estudar, avançar... Só interessa a mim mesmo.
Há sucessos por aí, que eu tento compreender e não consigo.
Nem pela qualidade, nem pela originalidade, pela beleza ou outra característica qualquer, se destacam, merecem a atenção que de repente têm. Procuro o segredo, mas ainda não descobri. Sabia-me bem, nem que fosse uma vez por outra.
Não chego lá, por mais que me esforce.
Por isso acho que não vale a pena.
A minha alma é pequena, definitivamente.