Asas de seda

Ter asas de seda pura e voar como sopro morno, dolente.

Deslizar entre as nuvens macias, guiada por sentidos ausentes.

Adormecer sobre as águas lisas dum lago e cobrir-me com mantas de luar.

Ser embalada pela canção do vento a sussurrar... a sussurrar.

Voar...


Voar, voar, voar...

Hoje apetecia-me ser borboleta e poder voar, voar, voar .
Em casa, com um pé magoado, sem poder movimentar-me àvontade, começo a ficar melancólica.
Não me apetece escrever, ler ou ver tv.
Os poucos passos que posso dar, não saem do mesmo lugar, por má sina minha.
Se eu pudesse voar, não precisava de ser águia ou falcão.
Bastava ser gaivota para andar sobre as ondas do mar, pousar nas rochas com cheiro salgado a algas rosadas e sentir a maresia passar suave e fria.
Podia ser um flamingo também, pois eles equilibram-se bem numa só perna. Alem disso, têm uma plumagem rosa muito bela, são elegantes, altivos e gostam de horizontes largos.

Não queria ser canário, apesar de os achar lindos e de encantarem com os seus trinados.
Nunca vi nenhum em liberdade... vejo-os sempre em gaiolas, saltando de um poleiro para o outro, de olhos fitos nas grades que os prendem. Como podem ter vontade de cantar?
Talvez ser ave migratória, ir para longe e poder voltar, subir alto nos céus e descansar nas escarpas solitárias. (Mas penso que seria uma vida muito cansativa... detesto fazer e desfazer malas.)
.
Acho que escolheria mesmo ser borboleta. Nunca conheci nenhuma velha, enrugada, feia, gorda ou mal asada, como dizem no Fundão. São todas de uma beleza estonteante.
Airosas, coloridas, graciosas, ágeis, bailarinas de danças sensuais, vestidas de roupagem de festa, aveludada, quer sejam pequenas e cinzentas, ou garridas e extravagantes.
Andam de flor em flor, misturando com elas as suas cores, as suas formas, fazendo-lhes inveja com a sua dança de sevilhana com saia de mil folhos.
Levam nas patinhas pantufas de pólen doce e perfumado, que oferecem mais adiante às que as recebem com amabilidade nas suas corolas de toque acetinado.
Em cada volteio de dança ritmada, riem em gargalhadas como mulheres escandalosas que soltam os cabelos e estendem os braços até tocar as nuvens.
E depois, renovam-se com a rapidez de raio de luz, como um sopro de madrugada.
.
Seria a Corcovado... ou a Gema. Talvez a Prepona, que de tão discreta é a mais enigmática.
Se eu hoje pudesse, sairia em direcção ao mar, pousaria em cada rosa, em cada jasmim, correria nas nuvens para ver o pôr do Sol riscar onde começa o céu e acaba o mar, planaria no suão e tremeria com a nortada, riria da terra, das pedras, das árvores que permanecem no seu lugar, sem gozarem o prazer da liberdade.
Mas como tenho o meu pé doente, só me resta escolher a borboleta mais bela e... sonhar!

Surpresas!

A estrada secundária que conduz à minha casa é uma constante fonte de novidades.

Há uma pequena curva com uma árvore que deita um óleo e deixa o piso escorregadio. Então, volta e meia está lá um carro acidentado ou vestígios de acidente.
Um colega meu andava todo vaidoso por ter comprado um carro topo de gama e pouco tempo depois já estava com ele no fundo da barreira.
Uma outra colega, que nos veio contar o acidente em pormenor... teve a mesma sorte. Até parece que teve inveja.
Penso sempre quando será a minha vez!!!

Ali perto, a Vanda foi multada em 3oo Euros, por excesso de velocidade e ficou um mês sem carta...
Também olho para o velocímetro, não vá o diabo tecê-las!
Um dia destes vinha a atravessar a estrada uma senhora muito jovem, com 2 crianças de 1 ano num carrinho duplo e outras duas de 3 anos, uma de cada lado. Parei para a deixar passar.
Agradeceu e eu, no momento que passou em frente do carro, perguntei-lhe, mostrando os 4 dedos da mão, se eram todos dela... Deu um sorriso escancarado, feliz e acenou afirmativamente com a cabeça. Foi lindo de se ver.
Outra vez, ia um casal à minha frente, num Golf. A mulher gesticulava muito e, sem mais nem menos, desatou a dar murros no homem que conduzia.
Surpreendida, temi ultrapassá-lo, não fosse ele distrair-se e chocar no meu carro.
Ela batia-lhe com fúria e ele conduzia com uma mão, enquanto se defendia com a outra, tentando segurar-lhe os braços, sem afrouxar. De repente, ela abre a porta do carro e tenta sair, enquanto ele a puxava para dentro. Abrandou um pouco a velocidade nesse momento e eu consegui ultrapassá-los. Gente louca!

Hoje, quando fui trabalhar, às 9 h, andavam 3 cavalos castanhos, imponentes, no meio da estrada.
Um dava alguns passos e os outros seguiam-no. Andavam em círculos e ocupavam a faixa de rodagem completamente. Se eu avançava um metro, eles aproximavam-se e eu ficava aflita sem saber o que fazer. Duas senhoras idosas observavam e eu perguntei da janela do carro, de quem eram os cavalos. Responderam-me que não sabiam, que não eram dali. Depois, uma delas deu um grito para outra mais distante e disse: "Oh Fulana, telefona aí ao Cicrano e avisa-o que andam aqui os cavalos dele!" Fiquei de boca aberta...
Atrás de mim, já havia fila e no outro sentido também, mas os cavalos, enormes e indiferentes continuavam a passear-se no asfalto, ocupando a faixa toda.
Um carro, vindo do fundo da fila, passou por nós com velocidade e só parou mesmo junto dos animais, parecendo que os ia atropelar. Um homem saiu, colocou uma corda à volta do pescoço de um deles, que a aceitou muito dócil e levou-o. Os outros seguiram-no de imediato.

Nesse dia, à tarde, vinha do serviço calmamente, quando vejo perto da tal curva, um carro parado e o condutor a ver um mapa. Segui, a pensar que ele tentava saber onde estava- não deveria ter ainda GPS ...
Olhei pelo espelho retrovisor e vi-o atrás de mim. Pensei que estava lá à minha espera e sorri com a minha própria palermice.
Continuei e ele seguiu-me no atalho que faço sempre. Depois, virou onde eu virei.
"Mau, mau," pensei.
Quando cheguei a casa, encostei logo ao portão do jardim e vi que ele parara também.
Curiosa, quis ver a cara do condutor e da sua acompanhante. Foi então que reconheci a minha cunhada e o meu irmão! Riam-se de mim! Tolos!
É a estrada das surpresas... umas bem melhores que outras!

Signo "Leão"

Nasceu o meu neto.

Sentia-se bem, porque não estava disposto a deixar o conforto da barriguinha da mamã. O médico deu mais uma semana de oportunidade à natureza para que o parto fosse natural, mas o maroto decidiu que aproveitaria enquanto pudesse.

Dia 30 de Julho, segunda-feira, pelas 18 horas, foi feita a cesariana e o Tomás viu a luz do dia na presença do papá.

Estava em casa, quando recebi o telefonema a avisar da sua chegada e corri a dar a novidade à Francisca. Esta, que andara todo o dia ansiosa, deu saltos de entusiasmo e mal pode esperar que a levasse à clínica para ver o irmão.

O pequeno rapazinho foi recebido com todas as praxes.
A mala ficara pronta no sábado e nela iam 4 mudas completas de fatinhos tamanho 0, em sacos individuais para facilitar o trabalho do papá na hora da escolha. Uma caixa branca levava duas xupetas previamente esterilizadas.

No primeiro dia, vestiu o fato que a irmã lhe escolheu, cor de laranja com bonecos.
Foi fotografado pelo pai e pelo avô. Foi visitado por muitos familiares.

Um nascimento normal, numa família normal.

No entanto, para nós, foi um acontecimento especial, um bebé lindo que enriqueceu a nossa família, uma benção que uniu duas famílias e criou laços definitivos entre elas, um garoto que crescerá sob o olhar terno e deliciado dos pais, prontos a dar a vida por ele.

Chegou, passou a fazer parte das nossas vidas de forma insubstituível e irreversível.

Trouxe consigo um monte de sentimentos nobres e profundos. Mal sabe que existe e já é tão importante, tão poderoso.

Ainda não tem cargos, nem títulos, mas já tem forma de se fazer obedecer, de ser o centro das atenções, de ser a razão de viver dos seus mais chegados.

Uma pequena vida que tem em si tanto, que tem em si tudo.

Pura magia, o ser. Golpe de sorte, o ter.

Terra, céu e mar...

Infante D. Henrique, olhando o seu mar e, quem sabe, suspirando pelas suas memórias...

S... de Silêncio, de Saudade, de Salvado da Silva

Depois que partiu, pai, muitas coisas aconteceram, muitas.
Sei que está atento a tudo o que se passa connosco, sinto que em muitos momentos está perto, mas o que eu queria mesmo era tê-lo aqui. Gostava de lhe mostrar o que consegui na vida, à força de lembrar repetidamente, quando o desânimo leva a melhor, as palavras que me dizia para me encorajar.
Mas antes, começaria por lhe pedir desculpa por não ter sido capaz de continuar o seu trabalho, de salvar a escola e de manter a quinta como um jardim. Eu tentei. Recomecei muitas vezes, mas não o fiz da forma certa. Não foi o suficiente.
Se andei em frente e elas ficaram para trás, foi a pensar que era isso que o pai desejaria para mim. Mas a minha alma continua a morar na nossa casa, a sonhar transformá-la em turismo rural, a voltar a plantar flores no jardim onde as rosas deixavam um perfume sem igual, a lanchar na varanda, a ver as estrelas no céu quando o sol se punha e ficava tudo em silêncio.
Continua lá, mesmo sem esquecer os dias de solidão, quando o temporal nos deixava sem electricidade e era a luz dos relâmpagos que iluminava a sala onde eu fazia as contas à vida, onde sentia mais do que nunca o desamparo e via morrer a esperança.
Continua lá, apesar dos dias de desânimo, de raiva e de impotência, em que assisti à agonia por envenenamento dos fiéis companheiros- Diana, Snoopy, Kid, Leão e Lassie, por crueldade de quem tinha conseguido fazer uma piscina e não os queria por ali a gozar o fresco da relva...
Até quando me roubaram os bens e desesperava na dor da perda, por não saber que apesar de ter ficado sem anéis e pulseiras, ainda tinha a coragem, a força e a vontade.
Continua a alma, mas não podia continuar o corpo, pois enquanto cá andamos temos que ganhar o nosso pão, temos que continuar a lutar- é o que repito para mim mesma na esperança do conformismo.
Então pus os pés a caminho e hoje queria mostrar-lhe, paizinho, onde cheguei.
Queria mostrar-lhe como cresceram os meus filhos e como são inteligentes e pessoas do bem. E a minha neta... pois é, o tempo passa! Imagino como iria adorá-la. É saudável, inteligente, simpática e muito engraçada. Vai ter um irmão e está toda contente. Sim, vou ser avó outra vez. Vai ser bisavô, de novo!
Também queria que conhecesse a minha casa. Não há dia nenhum que eu não pense como se admiraria de eu ter conseguido comprar a minha casa, sózinha, desde o contrato promessa, até à escritura.
Veria o pequeno jardim, onde tenho roseiras de todas as cores e tantas flores quantas as saudades que nelas vou matando. Já me disseram que não é um jardim, é um bosque.
Também vejo uma Serra em frente e da varanda conto estrelas nas noites sem luar.
É na estrada que mais sinto o pai por perto, que mais tenho a certeza de tão valiosa ajuda. Só isso já me conforta... O trânsito está difícil e podemos cumprir à risca o Código de que o pai era Mestre, que pouco adianta, pois há quem nada cumpra e ponha a vida dos outros em risco constantemente.
A Aldeia de Joanes, que o viu nascer e o acolheu na partida, está uma cidade. Os amigos que ainda não partiram, não se cansam de o lembrar com palavras afectuosas.
Quem me dera ouvir outra vez as suas gargalhadas. Eram um constante hino à alegria e à amizade. Estrondosas e cativantes.
Lembrei-me agora dum episódio com o Frederico:
-"Avô, estás a dormir?"
-"Não, estou a pensar"
-"Oh avô, mas fazes tanto barulho a pensar?"
Acho que o pai nem acredita como estou a escrever-lhe... num computador, no meu blog. É mais uma das modernices que agora todos têm. Eu, que sempre gostei de escrever, tenho nele uma grande ajuda e só penso como teria sido diferente se eu o já conhecesse quando era estudante e estava ainda a tempo para tanta coisa... Mas ocupo nele muito do meu tempo e fico menos só, menos infeliz, pois vou-me realizando ainda que à medida dos frutos temporões.
Tantas outras coisas que eu gostava de lhe mostrar... que eu gostava que o pai tivesse conhecido e aproveitado!
Questiono-me muito para onde vai a inteligência, a sensibilidade, os conhecimentos, o amor, daqueles que partem. Como pode acabar alguém que é tão importante para nós, mesmo depois de ter partido há tanto tempo? Só desejo que um dia eu mereça voltar a sentir o seu abraço tão quente, o seu olhar tão meigo e o seu amor sem condições.
Abençoado seja o dia 20 de Julho que o viu nascer e abençoados todos os dias em que pude tê-lo como pai- o melhor pai do Mundo.


free music
Pai

Não me perdoes, Pai – que ingrato sou!
Para remir a soberba em que me perco
Só por pecos garatujos me acerco
De quem por vida o verbo me doou

Tanto cantei o amor sem perceber
Que em todos os lugares e momentos
Jamais eu disse mais que os sentimentos
Que o teu sentir me deu a conhecer

Dos mundos, vidas, almas que me deste
Recusou-se a abrir mão esta memória
Temendo que ao usá-los os perdesse

Digo-te só que mais faria se tivesse
Engenho para plagiar a história
Que sem papel nem pena escreveste
.
*António Leal Salvado

"Teorias"

Vão desaparecendo certas "teorias" sobre grávidas e bebés, que as pessoas contavam na minha terra, plenamente convencidas daquilo que defendiam.
Quando uma grávida chegava, logo as outras mulheres se apressavam a adivinhar se estava à espera de rapaz ou de rapariga.
Umas diziam que era o feitio da barriga- redonda para rapariga, bicuda para rapaz.
Outras, adivinhavam o sexo do bebé pela cara da mãe- se tinha a boca inchada e a pele manchada, era menina. Se "estava bonita", era rapaz.
Outras faziam o jogo da agulha. Uma agulha com linha enfiada, fazia pêndulo na mão da futura mamã- se ficava parada (ou se movia em círculo, não sei bem), era menina. Se balançava em movimentos rectos, era rapaz...
Estas teses eram defendidas com ar convicto e diversos exemplos que comprovavam a infalibilidade.
O médico que me assistiu durante a gravidez dos meus filhos, Dr. Kirio Gomes, tinha uma teoria mais simples e acertava sempre.
Dizia à futura mamã que vinha lá um rapaz e escrevia na ficha- menina. Quando o bébé nascia, se a mãe o confrontava com o facto de se ter enganado, mostrava-lhe a ficha e pronto!
Nem se imaginavam os tempos em que basta fazer uma ecografia.
Quando o bébé tinha soluços, arrancavam um borboto da roupa, molhavam-no na boca e colavam-no na testa da pobre criatura! Não seria higiénico, mas resulta sempre, dizem.
Recomendavam que as grávidas não metessem botões, chaves ou outras coisas do género nos bolsos, junto à barriga, porque as crianças nasciam com as marcas desses objectos.
Entretanto as mulheres devem ter-se rebelado contra o "resguardo" de 40 dias depois do parto de um rapaz e 30 dias de uma menina. Era um período de tempo em que a mãe não saía da cama e só comia canja de galinha! Até nisso os rapazes tinham mais regalias!
Coitadas das mulheres que trabalhavam duramente até ao momento de darem à luz e no dia seguinte voltavam ao trabalho com o filho, que deitavam num cesto, aconchegado numa mantinha, debaixo de uma árvore, enquanto apanhavam as batatas ou tratavam das hortas e das vinhas. Dirão que é imaginação minha!
Para os bebés não fazerem hérnias umbilicais, quando choravam muito, punham uma moeda no umbigo.
Diziam também, que cortar o cabelo do bebé antes do ano de idade, fazia com se atrasassem na fala.
E outras coisas engraçadas, que estão a ficar esquecidas, como as consequências dos desejos da mamã.
Se à mãe lhe apetecia qualquer alimento que não comia, fosse qual fosse a razão, diziam que o bébé nascia com a boca aberta ou com os cabelos em pé.
Fui ao Fundão passar o dia de Todos os Santos, dia 1 de Novembro. A minha mãe tinha guardado uma melancia com cuidado, esperando que não apodrecesse antes de irmos lá. Era muito doce e eu comi umas quantas fatias.
Quando voltei para Lisboa, comecei a sentir-me enjoada e soube que estava grávida. Tinha sempre sede e só me lembrava da melancia do Fundão. Todos tentaram encontrar aquele fruto nos mercados ou nas casas de produtos especiais, mas não era época da melancia e eu não pude satisfazer o meu apetite.
O desejo era tão grande, que um dia vi em cima da cómoda alguma coisa que me pareceu ser uma fatia vermelhinha. Mostraram-me depois, um papel que amachucaram e deixaram ali esquecido...
Disseram logo que foi por isso que a Rita nasceu com o cabelo em pé!!!

A actriz


Tudo para a Francisca pode transformar-se em brincadeira "faz de conta".
.
Fingir que chora, que espirra, que está a dormir, que coxeia, que ri em gargalhadas, que passeia o irmão no carrinho imaginário... tudo para ela é fácil!
.
Decorar um texto ou uma poesia... é canja!
.
A forma como fala, como gesticula, como se enfeita, como veste as personagens, fazem antever uma actriz, uma actriz que quer ser médica.
.
Para a foto há sempre uma pose especial...
.
.
.
.
free music

BIA


100 anos!


Parabéns a esta grande senhora, bisavó do Tomás, que tem a coragem de enfrentar a vida com tanto optimismo!

Festa da Francisca.


Francisca na festa do fim do ano lectivo 2006/2007, na 3ª classe, com 8 anos.

Tema: Os compositores clássicos.

"A radicalidade da música denuncia uma nova era. Surpreende-nos ainda como surpreendeu na estreia do bailado para a qual foi composta.

A sagração da primavera não foi uma das obras mais importantes deste compositor russo, nascido em 1882. Foi uma obra crucial que marcou o fim do predominio e da harmonia sobre o ritmo: Stravinsky é o seu nome".
.
A Francisca diz este texto de cor e está triste porque não segurou na letra...

Rita

Depois da análise de laboratório (nessa altura ainda não havia análises "pronto a usar" à venda nas farmácias e supermercados), que me disseram ter de ser feita numa rã, soube que se confirmavam as minhas suspeitas- estava grávida.
Tinha casado em Maio, na Basílica de Fátima, com uma festa tradicional. Vestido de noiva, véu branco com muitos metros, 2 padres amigos a celebrar a cerimónia religiosa e almoço no Hotel Pax com a família e os amigos mais próximos.
Agora, 6 meses depois, sabia que esperava o meu primeiro bébé e estava confusa. Penso que quase todas as mulheres nas minhas condições (não falo nas que têm de fazer tratamentos e aguardam a gravidez com a incerteza de a conseguir) ficam preocupadas com essa notícia.
Sabemos que com o casamento vêm os filhos, vemos as outras com os ventres estofados e o andar pesado, mas não sabemos como vai ser connosco, o que vai mudar na nossa vida, como vamos passar por tudo até termos um filho no colo. Se fiquei entusiasmada com a novidade, também surgiram dezenas de interrogações, de medos, de angústias.
Estava-se grávida e pronto. Não se faziam exames ao feto, não se previam anomalias, não se sabia nada... nem o sexo do bébé tão pouco.
Os primeiros 3 meses enjoei tudo. Foi horrível. Também não me deram qualquer medicamento que ajudasse nesse ponto. Depois, comecei a ficar melhor, com fome de morrer e a barriga a lembrar-me que não estava doente...
Tinha acabado de fazer o enxoval de noiva e recomeçava com o do "crianço" que vinha a caminho.
Tive de fazer novas roupas para mim, pois a cintura foi a primeira a desaparecer e não havia roupa para grávidas no "pronto a vestir".
Comprava roupinhas brancas, amarelas, azuis e verdes. Não escolhia o rosa, pois podia ser um rapaz e depois não ficaria bem com a cor das meninas.
Comprei a alcofa, o carrinho, a caminha de grades e fiz colchinhas de renda e xalinhos de lã macia.
Vivia o período mais feliz da minha vida...
Era muito mimada pois vinha lá o primeiro filho, o primeiro neto, o primeiro sobrinho!
Eu sentia-me óptima e expunha a minha barriga, que ficava maior a cada dia e me deixava redonda como uma pipa, com muito orgulho. Parecia que só eu tinha conseguido aquela façanha.
Preparei-me para o parto com o curso "O parto psicoprofilático", a que também chamavam "O parto sem dor". Quem lhe deu este nome era homem, de certeza.
Por fim, fiz a mala, arranjei o cabelo e as unhas e fiquei à espera.
Depois de um fim de semana muito comprido, na 2ª feira, dia 17 de Julho, às 11,30 h da manhã, no Hospital Particular de Lisboa, chegou. Era uma menina.
Pesava 3,100 kg e media 49 cm. Tinha o nariz arrebitado e a carinha redonda como uma laranja.
Chorou ao nascer e mamou poucas horas depois.
Foi muito visitada no berçário, onde de nariz encostado ao vidro, toda a família a achava a criança mais linda do mundo. Tinha o cabelo preto, farto e em pé, espetado como se fosse de arame. Muitas vezes ouvi a frase "Tão linda, que pena ter assim o cabelo!"
Até a isso, todos achávamos graça.
O pai disse que ela tinha cara de Ritinha e eu concordei. Foi registada Rita, diminutivo de margarida, flor.
Ao quarto dia, tivemos alta, as duas. Regressámos a casa, o pai e eu, com o nosso maior tesouro na alcofinha e um enorme sorriso de felicidade. Eu tinha de novo uma boneca...
Ontem completou mais um aniversário e também ela, esperando um filho já nos últimos dias, tem a mala pronta para ir a qualquer momento para o Hospital. Só que já leva o enxoval em azul e já escolheu o nome para o meu neto- Tomás.

Parabéns Ritinha, continuas a ser a minha alegria, a minha vida.

Francisca

Fomos almoçar ao restaurante, ontem, num dia de calor de verão lisboeta.
A Francisca, que levava a sua malinha preferida cheia dos objectos mais diversos, a dada altura, sem darmos por isso, tira um cachecol de lã e enrola-o ao pescoço. Disse que tinha frio.
O ar condicionado estava um pouco forte.
Depois, pediu os óculos de sol à mãe e colocou-os.
Quando o empregado veio servir, ollhou para ele e disse: "Estou na Serra Nevada".
Assim, com este sorriso e esta alegria que nos contagia.

Viva!

Recebi 4 livros novos!
Os meus amigos estão atentos aos meus gostos e fazem-me sentir muito feliz.
Nem sei qual hei-de ler primeiro. Talvez os 4, como é costume.
.
Também recebi um IPod!
A Rita, o Jorge e a Francisca sabem como adoro música e deram-me a possibilidade de a levar sempre comigo, carregando pouco mais do que um cartão de visita.
.
É pena ter ficado um ano mais velha...
Não há bela sem senão.
.
Não fora esse pequeno pormenor e não me importava de fazer anos mais vezes.

Mãe

No dia 12 de Julho festejaremos o seu aniversário.
Foi bonita, elegante e forte.
Agora, no entardecer dos seus dias, depende da atenção e do carinho daqueles a quem dedicou toda a sua vida.
Com consciência de que a chama está prestes a apagar-se, mostra-se conformada.
A sua alma continua forte, o seu pensamento lúcido, mas o seu corpo deixa de lhe obedecer, teimando em lembrar os anos que a serviu.
Com olhos tristes pede o que vai precisando. A maior parte das vezes cala os desejos, pois nada é já muito importante...
Lembra-nos como foi amada pelo pai e pelo marido.
Também sabe que o é pelos filhos e netos. A bisneta tem verdadeira paixão pela Bis.
Mas a natureza tem as suas regras e nem todo o amor do mundo consegue restituir força às suas pernas e brilho ao seu olhar.
Disse-me, na sua linguagem de gestos, que nos sonhos fala e anda como quando era jovem.
Eu também a vejo sempre como quando cuidava de nós, quando o sol ainda era quente e fazia curta sombra no chão. Apesar da fragilidade e do silêncio, continua um pilar nas nossas vidas.
Parabéns mãezinha, pelo aniversário e pela vida.
Natal de Julho

Talvez sintas, Mãe, que não tens Natal
Que o que jaz no silêncio dessa cama
Não é a paz que esta noite proclama
É a falta à de outras noites igual

Talvez sinta esse teu sono desperto
O frio que esta noite sempre faz
Mas hoje, minha Mãe, que aqui não estás
Temos-te mais que sempre aqui perto!

Natal... ó minha Mãe, o que é Natal?
É esse meigo olhar abençoado
E esse imenso amor nunca negado

É fazer do que nasceu do passado
Presente três vezes multiplicado
Futuro do Amor intemporal

Inspira-te na natureza...

Envelhecer, não é uma escolha...

Num país distante, havia o hábito de levar os idosos para o cimo da montanha, quando deixavam de produzir e ficavam dependentes da ajuda dos mais novos, onde esperavam a morte à mercê do frio, da fome e dos animais selvagens. Então, um homem que gostava muito do seu pai, no momento em que este ficou velho e deixou de poder trabalhar, lembrou-o que chegara a hora de subir a montanha e se separarem.
Caminharam em silêncio, lado a lado, até à zona mais alta e gelada, onde o homem se despediu do velho pai, sabendo que ele ficaria ali para morrer e ser devorado pelos animais.
Então, com pena do pai, deu-lhe uma manta e disse-lhe:
-Tome, meu pai, para se proteger do frio no gelo da noite.
O pai abraçou-o demoradamente, com os olhos cheios de lágrimas e antes que ele lhe virasse as costas para voltar a casa, rasgou a manta em duas e deu-lhe uma das partes, dizendo:
-Espera, meu filho, guarda esta manta, pois em breve chegará a tua vez e também vais precisar.

Os dias passam...

As cidades crescem, os carros multiplicam-se, os interesses instalam-se,
as florestas desaparecem, os rios adoecem, os pássaros rareiam, as flores pagam-se,
o ruído ensurdece, a fome cala-se, a doença propaga-se, a crueldade esmera-se,
a ganância cega, o poder embriaga, o ter deslumbra, a traição aceita-se,
a solidariedade adia-se, a compaixão despreza-se, a tristeza disfarça-se,
a solidão consome, a palavra nega-se, a honra perde-se,
as pessoas ignoram-se...

Teatro


Tenho tentado arranjar forças para falar de teatro... Do meu teatro.

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estortor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir.Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençois o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
Para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão Ferreira

Penumbra

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
e nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser.

David Mourão Ferreira

Instantes

Se há um Deus
que te aprova
esse Deus
não me assiste

Um de nós
é a prova
de que Deus
não existe.

David Mourão Ferreira

O meu melhor amigo

Quando procuro na minha memória os primeiros momentos que passei com ele, encontro pequenos episódios em que raramente participo, mas fazem parte da nossa vida.
Essas lembranças mostram claramente a semente a germinar de um homem inteligente, brilhante e bom. O melhor ser humano da Terra.
Recordo o 1º dia que foi ao colégio, com 3 anos. Morava no Largo José Barata, nº10, muito perto do colégio das freiras. Era só virar a esquina. O Luís, seu amiguinho, também começava a vida de "estudos" e combinaram ir juntos.
A mãe tinha bordado no seu bibe um coelhinho a andar de lambreta e ele, muito vaidoso, de cabelo molhado e acabado de pentear, como a Amélia gostava de fazer, atravessou a rua com passo apressado, a caminho do colégio, pequenino, gordinho e muito, muito bonito.

Nesse Natal, a prenda que pediu ao Menino Jesus foi a cartilha, para aprender a ler.
Sabia o catecismo só de ouvir as lições dos mais velhos e teimou fazer a 1ª Comunhão. O Sr. Padre Bento não autorizava, por ele ter só 4 anos. Como não se calava, a Irmã Prudência intercedeu junto do Sr. Padre, que acabou por concordar em lhe fazer exame.
Provou que sabia o catecismo de cor e salteado e no dia do Corpo de Deus, de fatinho branco, concentradíssimo, fez a 1ª Comunhão.

Mas não era nenhum "papa-açorda"! Um dia, sempre na companhia do amigo Luís, foi brincar para o parque das tílias.
No Fundão o mês de Agosto é muito quente e toda a gente sai à noite para apanhar ar fresco. Um dos lugares mais agradáveis é o Parque das Tílias, onde as crianças aproveitam para brincar. Ele e o amigo lembraram-se de correr à volta do pequeno lago e não foi preciso esperar muito tempo para caírem lá dentro. A mim calhou-me ir a casa buscar roupa seca!

Sabia os nomes de todos os elementos dos clubes de futebol, nacionais e estrangeiros. O pai delirava ouvi-lo dizer os nomes complicados dos jogadores russos, alemães, italianos, eu sei lá…
Falava das fintas, dos cantos, dos fora de jogo e dos penaltis como verdadeiro especialista. Era Belenenses, como o pai.
Nos dias de futebol na TV em que jogava a selecção (não sei se foi por esta altura que Portugal foi campeão europeu) a casa vinha abaixo com o entusiasmo deles.

Já sabia ler, escrever e contar... não queria continuar no colégio.
"Outro ano a brincar? Outro ano a ouvir as mesmas cantilenas de aeiou e de 123?" Não se calava… “O colégio é para os pequeninos”, queixava-se (começava a deixar de ser gordinho e esticava...) Queria ir para a escola.
O pai falou no assunto com o professor Pacheco, de quem era amigo, e riram das espertezas do miúdo. O professor ia leccionar a 1ª classe e achou que podia deixá-lo estar na sala, mesmo sem se matricular, pois só tinha 5 anos. E lá foi, todo lampeiro e sorridente.
No ano seguinte foi o bom e o bonito. Tinha de ser matriculado e por conseguinte, frequentar de novo a 1ª classe. "Então tinha chumbado? Repetir o ano porquê?" O pai soava as suas gargalhadas habituais e não lhe dava importância, mas ele não se conformava, não achava graça à brincadeira. Como sempre, venceu.
Nós fazíamos a 4ª classe em simultâneo com a admissão ao liceu. Quando chegou a sua vez, ainda estava matriculado na 3ª classe. O pai já sabia que não o ia calar e tentou contornar o problema. Fez a 4ª classe na escola e no ano seguinte, em vez de repetir, foi para o Externato fazer a admissão. Andou sempre um ano adiantado. Era decidido, mas sempre meigo e sorridente.
De joelhos no chão e o papel em cima da cama, passávamos horas juntos, eu a desenhar os carrinhos miniatura que ele tinha, ou cenas de cowboys, e ele a assistir maravilhado. Era desenho à vista, com lápis de carvão, com que eu fazia simples efeitos de sombra e luz.
Já então me inspirava e incentivava...
Um dia fomos jantar a casa da D. Etelvina, uma senhora amiga. Havia um piano no enorme corredor da casa. Ele descobriu-o e pediu para ver como era. Daí a pouco começamos a ouvir o som das notas que ele experimentava. Em menos de um minuto já soava na casa a música “As pombinhas da Catarina”.
A música fazia parte dele, nasceu com ele. Sabia todas as canções que estavam em voga. Todo o dia cantava.
A mãe, cansada de o ouvir batucar em tudo o que era lata ou madeira, mandava-o para os quartos mais distantes da sala, onde repetia o reportório das 6 da manhã, até cair de maduro. Aos 14 anos formou um conjunto, nome que se dava então às "bandas". Como não tinha idade para actuar em recintos em que os espectáculos se prolongassem além da meia-noite, pediu uma autorização especial e teve o pai de responsabilizar-se por ele.
Era o baterista do "Psycadelic Set", nome do grupo que ajudei a escolher.
Era o tempo de "If you go to S. Francisco", "Love me tender", "The times they are a-changin", "Love, love me do", dos singles e dos LP de vinil, dos primeiros gritos de fans que desmaiavam a ver os Beatles, das flores no cabelo, do "make love, not war"e do LSD.
Fui emancipada para poder ter a carta de condução e como o meu pai me emprestava o carro, passei a ser o motorista do grupo, transportando os rapazes quando iam actuar nas festas das redondezas. Não fazia grande sacrifício, como se deduz. Tudo aquilo era pura emoção para mim.

Mas ele ainda não sabia dançar. Então, quando os 14 anos já pediam para dançar agarradinho às miúdas, nas vésperas dum Baile dos Finalistas, eu ensinei-lhe o “dois para a frente e um para trás”, ao som da música que a Emissora Nacional oferecia nas tardes de sábado. Deu para o gasto nesse dia. Depois, sem a minha ajuda, tornou-se num grande dançarino.
Os livros de estudo serviam para alguns anos e os meus, talvez por ser pouco estudiosa ou já então bastante cuidadosa, passavam para ele quase novos. Em pouco tempo ficavam sem capas, folhas soltas e dobradas, com desenhos de baterias e violas em todas as folhas, mesmo em cima das lições.
.
Riamos muito. Por tudo e por nada. Quando estávamos juntos, qualquer coisa servia para rirmos. Ainda hoje temos esse hábito.

Fui a sua madrinha nos lobitos (escuteiros).
Nasceu a minha filha e foi ele o padrinho. Quem melhor poderia eu escolher para cuidar dela?
A Rita tem verdadeira paixão pelo Tonô e considera-o como um pai.
Casou e eu fui a sua madrinha.
Laços supérfluos comparados com o sentimento verdadeiro que nos une.
.
A vida ganha tendo-o como músico, escritor e poeta.
Ele ganha a vida como advogado.

É realmente um ser humano muito especial.
Tem um coração enorme, doce, sensível e generoso. Tem muito sentido de humor e é uma companhia muito divertida.
Mas o tempo não pára e a vida deu-nos rumos diferentes.
Ele é importante, respeitado e muito querido pelos seus e por muitos, muitos amigos.
Em todos os momentos, no entanto, mesmo a km de distância, eu sinto que posso contar com ele, que ele está sempre lá.
Há algum tempo, alguém defendia as vantagens dos filhos únicos e uma amiga minha, a Vandinha, disse que nem imaginava a vida sem o irmão. Eu fiquei a pensar nisso e compreendi o que ela sentia. Que tristeza, se não tivesse o meu irmão. A minha solidão seria bem mais pesada. É ele que me incentiva, me ajuda, me defende, me ensina, me compreende. Tanto que eu perdia!O
...Obrigada, paizinho.
Tivemos sempre sonhos idênticos.
Desde criança sonho muitas vezes que estou sentada a um piano e toco sem dificuldade as músicas que mais gosto. Casei cedo, tive os meus filhos e tenho trabalhado muito para não depender de ninguém. Talvez tudo isso não passe de uma forma de justificar a minha preguiça , mas nunca arranjei tempo para ir estudar música.
Ver o meu irmão sentado ao piano e ouvi-lo tocar tão bem, foi maravilhoso! O meu coração encheu-se de música e de... orgulho.
No liceu fiz aptidão a Direito, mas depois entrei para História, fui trabalhar, casei e não continuei. Adoro escrever, mas ver os seus poemas, as suas crónicas, os seus contos, mostra-me que também aí, ele vai bem à frente.
Eu sonho e ele vive.
Pois é! Que seria a minha vida sem o meu irmão, sem o meu melhor, maior e verdadeiro amigo?
Em tempos, tive o meu pai, que ao partir, providenciou que eu não ficasse desamparada e me deixou este irmão. Obrigada, paizinho..
Está prestes a passar mais um aniversário do seu nascimento. Foi abençoado na hora em que nasceu, mas mais do que ele, fomos nós abençoados com a sua presença na nossa vida.
Deus estava inspirado quando pegou no barro com que o modelou. Estava inspirado e foi muito generoso.

. Parabéns Tonô e que o dia 14 de Junho se repita por muitos e muitos anos, com saúde, alegria e sucesso. Sê feliz. Não deixes por menos!

Só mais um...

Mais um aniversário... que bom! Estou mesmo feliz!!! E o booooolo?

já agora...


para já, um símbolo:
uma fonte, confinada mas possante, de onde nasce uma torrente imensa, irrepetível, interminável...

Nós e... os outros!



400 Milhões de crianças passam fome.
4 Milhões de pessoas morreram de fome no último ano.
1,3 Biliões de pessoas não têm acesso a água potável.


Há números idênticos para povoações sem saneamento básico, sem acesso à saúde e que morrem com doenças que uma simples vacina previne.
Para povos que são escravizados, que sobrevivem de trabalhos degradantes, que utilizam a mão-de-obra das suas crianças.
Para pessoas que são agredidas, abandonadas, marginalizadas, violentadas ou perseguidas devido às suas opções políticas, religiosas ou sexuais.
.
Todos esses números perdem importância quando temos tudo.
Quando temos tudo, passamos a preocupar-nos com a moda. E para estarmos na moda temos de ser altos, magros, bonitos, jovens e ricos.
Somos avaliados pelo que possuimos e pelo que parecemos.
Temos de medir, pelo menos, 1,70 m de altura, senão vemo-nos obrigados a usar saltos de 10 cm, plataformas com 2 ou 3 cm, roupas que alonguem o tronco ou as pernas, conforme a necessidade.
Temos de ser esqueléticos, com as maçãs do rosto salientes, as costelas debulhadas, os dedos finos que nem linhas e as unhas bem limadas, transparentes como vidro.Dieta é a palavra de ordem.
Não porque o açúcar provoca diabetes, a gordura origina colesterol… mas porque qualquer grama a mais, é mal aceite pela sociedade. A gordura é desleixo, falta de brio, de força de vontade, gula, lambança. Estar de dieta é sinal de lucidez.

Também devemos fazer exercício, muito exercício. Não a lavar o chão da nossa casa de banho, o fundo da nossa banheira, não a passar a ferro ou a encerar os móveis, não a cultivar uma horta ou a cuidar do jardim, que para isso há as empregadas, os jardineiros.

Devemos frequentar o ginásio, com treinador que saiba medir a massa muscular, as pulsações cardíacas e que trate por tu as calorias.Não é só suar e emagrecer… é ficar rijo, liso, simétrico.

Se emagrecermos em partes do corpo que queremos mais salientes, podemos fazer implantes… Também podemos esticar a pele, suprimir o duplo queixo, subir as sobrancelhas, tirar os papos dos olhos, encher os lábios, adelgaçar a cintura, aumentar ou diminuir os seios, empinar as nádegas e até voltar a ser virgem... porque não?

Os cabelos tomam a cor que diga bem com a roupa, com a estação do ano, com a estreia do filme a que vamos assistir. Tão depressa podem ser curtos como chegar à cintura.

Cabelos, pestanas, unhas... como quisermos, à hora que o decidirmos. A Natureza já não tem lógica.Tudo se pode alterar numa clínica de estética. A lógica está no que a moda dita e ela exige que continuemos eternamente jovens. Para isso, fazemos tudo, tudo. Não temos filhos, arranjamos namorados cada vez mais novos, vestimos o que foi assinado por estilista bem excêntrico, utilizamos linguagem incompreensível e temos assinatura anual para concertos e festivais.
É obrigatório viajar várias vezes por ano, para destinos cada vez mais distantes e falar disso com a naturalidade de quem vai à Costa da Caparica... Como ser considerado sem fazer um cruzeiro ? Como ser respeitado sem ir ao Brasil, à Riviera Maia ou a Cancun?
Claro que temos de ser ricos. Ou pelo menos, parecê-lo. (É para isso que servem os créditos bancários. ) Mas devemos mostrar sempre desprezo pelo custo da moda.
Conhecemos bem a fome. Fome, mas fome a sério… Então e a fome que passamos para não engordar?

Fazem alarido porque lavamos os nossos carros, regamos os nossos revaldos, usamos os nossos jacuzis, aproveitamos as nossas piscinas? Até parece que utilizamos água mineral...

Ora, a vida é só uma e temos de a aproveitar. É mórbido pensar em fome, guerra, doença, abusos, sei lá, quando vendemos saúde e só desejamos ver-nos livres de alguma gordura ou de umas primeiras rugas. Claro que temos de olhar para o espelho, para as revistas e para as montras… Desigualdades? Não fomos nós que as fizemos...
.
Mais alguns números: Uma caixa de 750 g de ovas de esturjão, o conhecido caviar, custa 3.600 Euros e é consumido como aperitivo num jantar para 16 pessoas.

A pele de crocodilo é vendida para fazer sapatos, cintos, malas ou vestidos a 20 Euros cada centímetro.

A Hermés, em Paris, vende um vestido nessa pele por 150.000 Euros e uma mala por 12.000 Euros.
Todos os anos, 150 milhões de telemóveis são trocados por outros mais modernos.
Foi vendido hoje, em leilão, um quadro de pintura contemporânea por 65 milhões de dólares...
Vivemos tempos em que a futilidade é soberana.