Um momento de melancolia

A vida tem momentos difíceis de definir.
Não há nada que os mostre diferentes, porque não há tumultos, não há desgraças, não há mudanças, não há nada que os diferencie de todos os outros vividos recentemente, no entanto, nós sentimos mais a solidão, lembramos mais as coisas que nos magoaram, temos menos esperança, não queremos continuar a lutar.
A realidade aparece de repente nua e crua a nossos olhos e instala-se no nosso peito, não nos deixando respirar, consumindo as energias que constantemente renovamos para ultrapassar isso. Faz-nos companhia a tristeza, o silêncio e o desamparo.
Continuar obriga a uma força que não temos e ficar, uma desistência que nos derruba.
Neste momento tudo parece igual à minha volta, mas nada é o que eu quero, o que eu quis ou o que eu sonhei.
Parecia tudo como desejei, mas num instante apenas, a realidade mostra-se e eu sinto-me perdida. Como se este lugar não fosse o meu, nem este presente fosse o que procurei.
A tristeza vem, magoa e vai-se embora a rir-se de mim.

???

Tenho inveja das pessoas que sabem bem o que querem.
Sabem e acreditam mesmo naquilo que escolheram.
Uma pessoa que escolhe para seu clube o Benfica, ou o Sporting, que escolhe o PS ou o PSD, que segue o Reino de Deus ou os Adventistas do Sétimo Dia, que escolhe e luta pela sua escolha com todo o seu entusiasmo, não duvidando nunca que é essa a melhor opção, a única 100% certa, sem qualquer dúvida ou excepção, deixa-me enternecida por tamanha fé, tão forte convicção.
São pessoas que discutem, gritam, zangam-se, espumam e quase dão a vida pelo seu clube, partido ou religião, sem esmorecerem no seu entusiasmo nunca (jamais, como diria o outro).
Fico invejosa das suas decisões e curiosa por saber como conseguiram estudar, analisar, comparar, provar e comprovar, até atingirem o grau de conhecimento que lhes dá essa força.
Ou então será apenas uma escolha de cor, de simpatia, de musicalidade, de moda?
Mas uma opção de cor ou moda, é capaz de fazer assim tanta efervescência?
A verdade é que, seja apenas fé ou antes muito conhecimento, me deixam triste com as minhas interrogações, as minhas hesitações e invejosa com tais certezas.

Bon Jovi




O que é bom, é bom para sempre!

Nada vale a pena...

Sinto que nada do que faça vale a pena.
Muito menos o que sonho.
Um sábio dizia "tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Se assim é, eu tenho a alma pequena!
Cumprir os objectivos não é suficiente. Superá-los, não é relevante.
Ser justo é relativo. Se estás comigo, posso arranjar-te uma justiça. Se não estás, a justiça terá de ser outra, tem lá paciência!
Estudar, avançar... Só interessa a mim mesmo.
Há sucessos por aí, que eu tento compreender e não consigo.
Nem pela qualidade, nem pela originalidade, pela beleza ou outra característica qualquer, se destacam, merecem a atenção que de repente têm. Procuro o segredo, mas ainda não descobri. Sabia-me bem, nem que fosse uma vez por outra.
Não chego lá, por mais que me esforce.
Por isso acho que não vale a pena.
A minha alma é pequena, definitivamente.

Pedro Álvares Cabral


Quantas vezes Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, terá ficado nesta janela a olhar a Serra da Estrela e a recordar o verde mar que o levara a Terras de Vera Cruz?

Belmonte


Belmonte- a terra de Pedro Álvares Cabral, o homem que navegou até ao Brasil pela primeira vez.
Não era a Índia, mercado além-mar que o navegador português procurava, mas também encheu de riqueza e glória o reino de Portugal.
Pedro Álvares Cabral é o orgulho da sua terra- Belmonte.
Tudo está agora preparado para receber os turistas que chegam todos os dias para olharem as pedras do seu castelo e as inúmeras igrejas que o rodeiam.
Ao passar frente a uma pequena capela, reparei que estava aberta. Atrevi-me a entrar para ver, claro.
Logo que passei a porta, vi uma senhora atrás de um pequeno balcão montado junto da pia da água benta. Dei os bons dias juntamente com um passo para o centro da pequenina capela. Ela chamou-me e comunicou-me que para ver a capela teria de pagar.
Mas eu já estou a ver a capela, respondi admirada. De tão pequena, com um altar a meio e outros dois de cada lado, bastava um olhar para ficar toda vista.
A senhora insistiu que eu tinha de pagar e depois teria direito a ver outras existentes em Belmonte.
Não aceitei e saí, dando para trás o passo que me permitira entrar.
Eu queria ver Belmonte vivo, onde as pessoas viviam e conviviam.
Encontrei então uma bela casa de pedra, com a entrada que fotografei, sob o olhar sorridente da proprietária.

Fundão, a terra da minha mãe


Fundão e Cova da Beira - o vale entre a Serra da Gardunha e a Serra da Estrela é a terra da minha mãe e a terra minha mãe.

Visto da Serra dos castanheiros e das cerejeiras, o Fundão é o coração da Cova da Beira.

Aldeias da Cova da Beira

Logo a seguir à Aldeia de Joanes, aparece-nos a Aldeia Nova do Cabo.

Como a placa mostrava "Aldeia Nova do Cabo 1" indicando que esta se encontrava a 1 km dali, nós diziamos por brincadeira "Aldeia Nova do Cabum".

É muito bonita esta aldeia.
A Igreja está situada numa parte mais alta e tem a toda a volta um pátio com belas Tílias.


A escola com as características colunas de granito e grades de ferro, é um belo edifício, num espaço magnífico, na encosta da Serra da Gardunha.
Quanto não se terá conversado e namorado nesta varanda de beleza sem igual?

A terra do meu pai


A Cova da Beira encheu-me de mimo na minha juventude e eu nunca esqueci isso.

Acho-a linda e estou convencida que é linda, apesar de saber que a vejo com os olhos do coração.
Um destes fins de semana tive uma manhã livre e fui dar uma vista de olhos. Fui matar
saudades.
A aldeia do meu pai é logo ali, à saída do Fundão- Aldeia de Joanes.
Esta é a Igreja, simples mas acolhedora, com altares de talha dourada, bancos de madeira e sempre enfeitada com flores angariadas nos jardins da aldeia.

A Junta de Freguesia funciona nesta casa lindíssima, que a capela denuncia como afidalgada.
À saida, uma casa particular que mostra como o granito é característica da Beira e como torna as suas aldeias tão belas.

Árvores, pedra e muita simpatia, lá estavam, como na minha infância.

Chuva

Emigrantes

Há alguns anos atrás, por esta altura, já a Beira estava cheia de carros com matrículas de França, da Alemanha, da Suíça e do Luxemburgo, principalmente.
No mercado, logo pela manhã, esgotavam-se todos os produtos frescos, pedidos em português misturado com palavras estrangeiras já bem conhecidas doutros Verões.
A roupa que a mulher da Beira vestia, raramente fugia ao tom escuro, negro a maioria das vezes, mas nesta altura tudo mudava. As ruas enchiam-se de cores claras, garridas e brilhantes, os tecidos eram também mais leves, de fibras quase transparentes e sem necessidade de serem passadas a ferro.
As lojas estavam sempre apinhadas na manhã de sábado, quando vinham comprar os alimentos para o fim de semana e aproveitavam para procurar as roupas de cerimónia, que vestiriam nos casamentos marcados para o mês em que a família estaria toda reunida.
Com frequência se viam carregar cerveja em grades, mostrando uma abundância que não era comum nestas terras de gente sem recursos.
Todos os fins de semana havia cortejos com fanfarra de buzinas e fitas de tule nas antenas dos carros, anunciando que mais uns noivos tinham sido abençoados.
Tudo era uma mostra daquilo que o trabalho no estrangeiro podia dar, valendo a troca de muitas saudades, por bons salários.
Era um cenário já habitual. Nós desdenhávamos, chamando-lhes franciús.
Hoje, sábado, a Beira está vazia e o comércio fechado por não valer a pena abrir as portas.
Nas ruas não se vê uma única matrícula estrangeira e o pouco movimento que se vê, é rotina de todo o ano.
Em vez de franciú, fala-se nas fábricas que fecharam, nas lojas em liquidação total, no desemprego e nas prestações em atraso.
Não se fala em viagens, na ida para as praias para escapar ao Verão tão agreste do interior, na compra de móveis e electrodomésticos, como era usual nesta época.
Vejo muita gente a viver com necessidades e a resolver problemas cada vez maiores.
No centro comercial ao lado da minha casa só a pastelaria está aberta e a única pessoa que vi, foi a empregada, que atrás do balcão, mostra ar de enfado.
Olho os preços das montras reduzidos a 50% e a 70%...
A loja dos queijos da Serra já não tem filas à porta e as prateleiras da perfumaria mostram uma pobreza de stock embaraçosa.
Talvez esteja enganada... As pessoas têm boas casas com piscina, vão aos supermercados fora de portas e estarão no Algarve.
Talvez eu esteja enganada, mas sinto falta de vida, neste Verão.
Sinto que o interior de Portugal está triste.

Einstein

Como podemos sofrer uma vida inteira por não aceitarmos como somos!
Há quem não aceita ser feio. Quem aceitaria, pergunto eu.
Há quem não aceita ser gordo demais, ser magro demais, ser alto demais, ser baixo demais... o que é demais, é demais!
Há quem não aceite ser pobre. Natural, claro. Quem gosta de ser pobre?
Há quem não aceita ser gago, ser vesgo, ser coxo, ser marreco, ser fanhoso. Natural!
Há quem não aceita ser preto, ser mulato, ser branco, ser amarelo, ser vermelho.
Há quem queira sempre ter outra coisa que não tem, ser outra pessoa que não é.
Fazemos dietas para emagrecer e dietas para engordar. Já se usaram ligaduras a achatar os seios... agora fazem-se implantes de silicone para os aumentar!
Fazemos cirurgia plástica, terapia da fala, esticamos os ossos, usamos roupa e calçado que disfarcem o que não gostamos.
Mentimos, fingimos, dissimulamos.
Fazemos burlas para ter o que queremos, ou furtos, ou roubos, ou assaltos à mão armada.
Tudo depende de como nos vemos, de como nos vêem, do que está na moda.Lutar pelo que desejamos, toma a forma que queremos, não a que seria indicada, a maior parte das vezes.
Será tudo tão linear?
Acredito que rouba, quem gosta de roubar e não porque é o único meio de deixar de ser pobre. Senão, todos os ladrões seriam os pobres (e os honestos, os ricos!!!)
Acho que sofre por causa da sua imagem, quem não tem outra coisa em que pensar, quem não se realiza noutras actividades, quem não consegue chamar a atenção senão pelo físico.
Resolvemos alguns dos nossos sofrimentos com as frases "não sou capaz", "não sei", "não tive quem me desse", "não tenho sorte", etc.
Eu, por exemplo, tenho o hábito de dizer que tenho pena de não saber música. Durante anos e anos tenho dito isso. Entretanto, já tive tempo de fazer 2 ou 3 cursos superiores de música!!!
Assumir que somos ignorantes, que somos cobardes, que somos preguiçosos, que somos vaidosos, que somos criminosos, que somos fracos... é difícil.
Cada ano que passa, sinto que damos valor ao que não interessa e desvalorizamos o que nos pode tornar mais felizes nesta passagem que é a vida.
Não fazemos o pic-nic, acusando as formigas...
Cada um de nós tem a medida apenas do que conhece, do que julga conhecer.
Ser rico, por exemplo: Qual é a minha medida de ser rico?
Ser bonito: Como se mede a quantidade de beleza? O que é para mim "ser bonito"? (Diz o povo que quem feio ama, bonito lhe parece...)
Ser perfeito: O que é isso?
Dizia há dias uma amiga minha, que mesmo com notas baixas no serviço (injustas), continuava feliz, pois o marido e os filhos davam-lhe sempre a nota máxima.
Sofrer uma vida inteira por ser baixo, por ser gordo ou por ser gago, é esquecer de apreciar a vida, de viver.
Tudo porque precisamos de ser aceites pelos outros, de caber nos padrões estipulados não sei por quem, nem porquê.
Tudo é relativo. Einstein foi sábio.

Ser feliz

Os pássaros são os seres mais felizes da Terra.
Podem voar, experimentar a cada instante a liberdade de planar nos céus e ver toda a imensidão de vales, montanhas, rios e mares, do alto das nuvens, sustentados por brisas suaves, ou tomar velocidade em voos mais audazes.
Pisam a terra fresca, acabada de lavrar, com a mesma segurança e àvontade como ainda há pouco eram embalados no ar.
Banham-se nos riachos, nas fontes, em simples goteiras, ou em charcos que a chuva formou.
Vivem em bando, mas sempre junto do seu parceiro, no ninho construído de novo, na ramada mais segura e maternal, que os acolhe sem cobrar renda.
Visitam jardins de mil cores, parques de sombras acolhedoras e ecos inspiradores, searas ondulantes de espigas douradas e papoilas de faces coradas, sem pagar portagem ou mostrar passaporte.
Poisam tão descontraídos no beiral da velha casa no largo da aldeia, onde já não os afugenta o cansado sino que balança na torre da Igreja quando toca a casamentos, baptizados, rebate, finados, ou apenas a reunir cristãos para a Missa dominical, como na varanda sofisticada do palácio senhorial.
Não têm preconceitos, nem escala social, atrevendo-me a afirmar que nem conhecem a escala musical. E cantam maravilhosamente, mesmo quando mais discretos e recatados, fazendo-o quando lhes apetece, sem aspirarem a favores da crítica ou a top de vendas.
Não precisam de roupa, calçado, carros e cartões dourados, porque não querem impor-se.
Não usam jóias ou bijutaria. Não lêem livros, não vêem filmes, não frequentam raves.
Não amontoam bens supérfluos, fazem escrituras ou contratos. Não usam moeda, não têm reforma, nem serviço de saúde, não conhecem a bolsa, as acções ao portador, os títulos do tesouro, talvez adivinhando que tudo cá fica no dia que partirem.
Não conhecem o consumismo, não fazem dieta, não têm crises de identidade, nem precisam de psicólogo.
Não são religiosos de qualquer fé, políticos de qualquer partido, adeptos de qualquer clube.
Ignoram o fanatismo, a corrida ao armamento, o ódio e a guerra.
Não sofrem preocupações, humilhações, pressões ou desilusões.
Graciosos, têm sempre aspecto de estar de bem com a vida, de dançarem e cantarem só por ter nascido o Sol, uma vez mais, cada manhã, sem precisarem de coreografia ou estereofonia.
Não questionam a existência, julgam o passado ou projectam futuros que chegarão ou não.
Apenas nascem, crescem, procriam, morrem, aprendendo com os pais e transmitindo ao filhos a fazê-lo da melhor maneira possível.
Apenas vivem, vivem e vivem, enquanto a vida dura.

Ismael

Pela 1ª vez, dei conta que alguém em Caracas entrara no meu espaço.
Imaginei que fosse o Ismael.
Ismael é um venezuelano de sorriso franco e dentes alvos, que voltou para a Venezuela há pouco tempo.
Sei que telefonou a dar notícias, mas não me encontrou. Espero que esteja bem e que a vida lhe sorria finalmente.
Há períodos de grande sofrimento na nossa vida e ele já teve a sua conta.
Sei que vai ter sorte, pois inteligência e força não lhe faltam.
Ismael, lá tão longe e bastará um www. que o satélite tornará perto. Fico à espera.

Parabéns

Um voto de parabéns nunca pode ser um voto triste.
Nunca pode ser triste um voto dirigido a quem queremos bem, a quem queremos dar tudo, a quem sabemos digno de tudo o que de melhor queremos para nós próprios.
Aos 23 de Junho de 2009 passou um aniversário especial. Especial para ti, porque é diferente de todos os outros. Especial para nós, os teus, porque é o teu.
Ao bater da meia-noite quis estar contigo de viva voz. Mas melhor o faria com quem me estivesse mais distante. Para ti, eu sei, um aniversário é apenas uma data de lembrança obrigatória. Não tinha que sê-lo para mim - mas era-o para o teu repouso, para o teu amanhã de trabalho tão sério como o de todos os dias.
Ficou o abraço para depois. Quem sabe à hora do jantar, essa refeição tão asada para se comemorar um dia de anos. Ficou.
Ao final da tarde veio um atropelo. Diana, menina de 27 anos, esposa de poucos meses, adversária do cancro de muitos meses, teve dificuldade de respirar. E foi a última dificuldade com que lutou - e foi a última luta. Diana, menina do trabalho de todos os dias da minha filha mais nova, morreu. A vida, a vida madrasta e injusta, negou-lhe o ar depois de lhe ter negado tudo. E tirou-nos um pedaço do oxigénio que nos faz viver a todos nós, roubou-nos um sorriso que era a única coisa que sabíamos dar-lhe.
Não passou em vão mais uma meia-noite. Esta, que passou há pouco, deu-nos mais uma lição - uma lição cruel, mas real - a do valor da vida.
A vida, minha irmã, é uma festa - uma medonha mas fantástica aventura. Porque a vida não é só grande, não é só muito - é tudo. Quem a tem, tem pouco, mas tem tudo: espaço, luz e cor; passado, presente e futuro; sonho, projecto e realização; Amor que se dá, Amor que se recebe, Amor que se tem.
Cada vida vale aquilo que vale quem a usa. As palavras que se reúnem para conforto de não importa quem; o trabalho que se faz para valorização do destino de não importa quem; o carácter que se ousa para exemplo de não importa quem.
A tua vida vale duas vidas que urdiste, cem lugares que perfumaste, mil sorrisos que regeneraste, um milhão de actos de amor que propiciaste, um universo de silêncios que reanimaste.
A tua vida vale, acima de tudo, a felicidade que ajudares o mundo a construir, na parte que te toca.
Pela parte que me toca, não prescindo dessa continuidade.
Por tudo, este não é um voto triste - senão pelo espaço demasiado que nos toca, pelo tempo demasiado que se intrometeu neste dia 23 de Junho. Um dia triste por quem não temos? Não! um dia grande, por tudo o que temos, um dia especial, por quem temos. Um dia que faz desta data uma data feliz.
Sê feliz, por todos os que te querem feliz.
Parabéns e uma longa vida.
Um beijo, do teu irmão mais pequeno.

Uma luta de todos nós

Rui Pedro tem hoje 14 anos. Tem, certamente. Porque todos acreditamos que está vivo - porque todos o queremos vivo, porque todos o queremos de volta para os pais, de volta para a sua vida.

Desapareceu em 1998. Em 2001 os pais viram-no num site de pornografia. Há 11 anos que os pais e a polícia o procuram. Há 11 anos que pedem ao mundo inteiro que devolva a vida a Rui Pedro, que devolva Rui Pedro à sua vida.

Recebi pela internet a mensagem - mais uma - dos pais que não desistem do seu direito, que não renunciam ao direito mais elementar e sagrado de Rui Pedro.

É nosso dever restituir-lhes, ao Rui Pedro e aos pais, esse direito. É dever de nós todos. Sob pena de perdermos o nosso próprio direito a sermos homens.



1 de Junho, dia da Criança

Desaparecida

Dia 25 de Maio é o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas.
Dia das crianças desaparecidas, das crianças que levaram à força dos que as amam, das crianças que viviam com o carinho da sua família e que foram arrancadas dos seus braços.
Tantas crianças a precisar de abrigo, de comida, de cuidados, de medicamentos... e mentes perversas vão destruir as que estão bem, para fins que não me atrevo sequer imaginar.
É isso que eu odeio nos seres a que pertenço - o poder de destruição, a indiferença pelo sofrimento, a subserviência ao poder e ao dinheiro.
Para esses, esses que fazem desaparecer crianças do seio das suas famílias... a pena de morte!

Dor

Crianças que sofrem. Penso muito nisso, mas...
Confesso que podia pensar, mas devia fazer mais.
Quantas vezes não me afastei daquelas que pedem esmola junto da porta do supermercado, por estarem sujas e andrajosas?
Quantas vezes passei por aquelas que estão sentadas no chão, no passeio da rua das principais lojas, à volta da mãe, com o irmão mais pequeno dentro duma caixa de papelão e olhei as montras, fingindo não ver as mãos estendidas, os olhos tristes pedindo ajuda.
Quantas vezes me contrariou que viessem pedir-me "uma moeda para matar a fome"?
Quanto esbanjei em roupa que visto raramente, em pares de sapatos que não preciso, em malas, relógios, anéis e outras futilidades, que não servem para nada, que não me tornam melhor, que não me ensinam nada, que não me retribuem nada?
Ah! Dou a roupa que já não quero, para um colégio... que grande avaria! Arranjo lugar nos roupeiros para outras que já penso comprar e ainda alivio a minha consciência.
Dou alguns pacotes de massa ou de arroz para o banco alimentar... e tento esquecer a quantidade de guloseimas que me enchem o carrinho e me vão adoçar os serões, depois de ter jantado tudo o que me apeteceu.
Dou uma moeda ao arrumador, é verdade, para que ele não me risque o carro e resmungo contra o vício que engolirá a moeda no minuto seguinte.
E resmungo porque tenho preconceitos, sem o admitir, contra todos os que são diferentes, os que não conheço, não reconheço ou não pertencem à minha tribo.
Acho que me falta admitir que se for "um diferente", mas filho de alguém famoso, importante, a quem eu reconheça valor, até sou capaz de achar graça. -"Hum, que querido!"
Talvez exagere um pouco, mas sinto que, de uma maneira ou doutra, protejo os meus e ignoro ou evito os estranhos.
Arrepio-me com as fotos das crianças esqueléticas, moribundas, cobertas de moscas, mas nada faço para minorar a fome, já não digo desses milhões de seres que morrem todos os dias de inanição, mas apenas daqueles que me estendem a mão na porta do supermercado.
Sou uma bela moralista, não haja dúvida!

Dia 1 de Junho- Dia de todas as Crianças

Hoje é o Dia Mundial da Criança.
Da criança que frequenta a escola, e da que... não tem quem se preocupe com o seu futuro.
Da criança que tem pais, irmãos, amigos e da que... está sozinha.
Da criança que tem comida, demasiada comida e da que... passa fome.
Da que tem médico de família, da que é vacinada e ainda da que... sofre com doenças que já se podem prevenir.
Da que tem quem lhe dê mimo, a abrace, a ouça, mas também da que... é espancada, abusada, esquecida, abandonada.
Hoje é dia de todas as crianças. Na TV só mostram as que brincam no pátio da escola, as que escolhem presentes, as que são levadas ao Jardim Zoológico, ao Teatro, ao cinema, as que riem, que riem muito.
Que passem a ser lembradas as que sofrem e que a indiferença habitual comece a transformar a tristeza, em sorrisos.
Sejamos adultos... no Dia Mundial da Criança.

Os amigos virtuais

Para quem tiver dúvidas de que a internet é uma invenção do caneco, talvez possa ajudar a esclarecer.
A internet, além de ser uma enciclopédia maravilhosa, com som, imagem e que procura os temas por nós, tem mil coisas que podem dar-nos imenso prazer (e não falo de nus, nem de anedotas picantes).
Uma pessoa que conheço, muito mais nova que eu (e que nem quer pensar na altura em que tiver a minha idade!!!) criticava-me por eu ter comprado um portátil e começar a dar os primeiros passos na internet. Dizia, alto e bom som, que na internet só andavam as pessoas levianas e se era um meio de consulta, como eu lhe afirmava, as filhas nunca iriam estudar assim.
O mafarrico estava a ouvir... Veio o plano tecnológico e a possibilidade dos estudantes comprarem os portáteis ao preço da uva mijona. Então, em vez de 1, passou a haver 3 computadores na sua casa e a ser orgulho de modernidade o facto das suas meninas navegarem no ciberespaço, como Vasco da Gama nos mares do Adamastor (ou melhor ainda).
Aos leitores da minha idade, que já casaram os filhos, que estão sozinhos ou como se estivessem, aos que gostam de estar informados, de investigar, de rir, de comparar, aos que gostam de fotografia, de teatro, de cinema, de escrever, de ler, a internet é o meio que devem passar a usar para ocupar utilmente o seu tempo de forma barata e com tudo ali mesmo à mão de semear. Tudo se aprende e isto não é nenhum bicho de sete cabeças, principalmente para quem passou a vida neste país, a fazer investigação por conta própria para conseguir educar os filhos, pagar a hipoteca da casa e não ter credores à porta.
Além disso, quem gosta das mesmas coisas que nós, vai andando por perto, criando um abraço amigo e ficando atento ao pulsar do nosso coração.
Quem não gosta, também pode vir, ler, interpretar à sua maneira e aborrecer...
Mas isso acontece menos, pois ter de ler só para encontrar por onde pegar, também é chato!
Há dias atrás, eu estava triste. Tive então a mensagem de um amigo bloguista, que dizia: "Estou aqui, desabafa comigo, sabes que não me aborreces e que terei todo o gosto em te ouvir."
Hoje, depois de deixar o último post, recebi a mensagem que podem lá encontrar e que me dá o carinho que só uma amiga pode dar. A Lili, como eu lhe chamo, apesar da sua juventude, dos seus muitos afazeres, tem sempre tempo para me dizer uma palavra amiga e me puxar para cima. É bom.
Obrigada Nuno, eu sei que estás sempre aí, como só os amigos estão.
Obrigada Lili. Prometo que vou ver de uma escola de dança ( já frequentei uma ou duas, mas desisti por falta de par) dessas que me sugeres, embora o par seja importante para aprendermos e até para nos sentirmos motivadas (não te rias, estou a falar no bom sentido).
Não sei porquê, mas os homens não têm coragem de ir aprender a dançar. Aprender, é isso mesmo... é não saber e passar a saber! É duro, para eles, passarem pelo vexame dos primeiros passos! Preferiam nascer logo como bons pés de dança. Arrisco-me a afirmar, para os animar, que até o Fred Astaire passou por isso!
Um dia, numa escola onde andei, calhou-me um par que era bastante mais baixo que eu. O professor dizia que as mãos deviam estar dadas à altura do ombro do homem... então no nosso caso, tinha de ser à altura do ombro da mulher.
Caramba, gosto das coisas como deve ser. Comigo, tradição é tradição!
Ele comandava, porque na dança é o homem que manda, (na dança!) mas a postura tinha que ser pelo meu ombro, ou dançava marreca!
O destino resolveu-me o problema. Caí das escadas abaixo, fiquei doente de um pé e pronto...
Gostar de escrever, no nosso caso, é o elo que nos une. E faz-nos bem, acredite quem tem a mania que a internet só é usada para encontrar namorados. (Mesmo que fosse, já não era mau, mas há mais, muito mais a aproveitar deste meio que os homens iluminados souberam dar-nos).
É uma questão de escolha, como tudo na vida.

Baile das velhas

Tenho pena de estar a envelhecer.
Qualquer pessoa tem, claro, mas não é por ter a pele manchada e engelhada, esquecer constantemente os nomes das pessoas e das coisas e não caber na roupa que mais gosto.
Tenho pena de não ter tempo de experimentar tantas coisas novas que chegam a todo o momento, de não poder fazer o que os jovens hoje têm como usual e que para mim, quando com a sua idade, era impensável.
Posso dar um exemplo simples. Adorava dançar. Não havia discotecas na província e se havia, eram mal afamadas. Se eu tivesse agora 20 anos, estaria numa escola de dança, iria a todas as discotecas e dançaria em tudo o que é festa.
Hoje, nem tenho par, nem tenho coragem de ir sozinha, nem coração para ser esquecida numa cadeira da sala!
Prefiro ficar-me pelo que me é mais cómodo... mesmo que menos agradável.
Há por aí muitas discotecas ou "bailes das velhas" como usam chamar a grandes salões, com música ao vivo, mulheres que entram em grupos e muitos homens sem par.
As senhoras ficam a conversar umas com as outras, assim como quem não quer a coisa.
Os homens encostam-se ao bar e medem-nas da cabeça aos pés.
Olham, uns e outros, também os pares que já dançam. Elas procuram quem saiba dançar e tentam descobrir se o par é para a noite toda. Eles procuram outras coisas, embora saber dançar seja importante.
Depois que a música para e os pares se desfazem, em segundos chegam a conclusões do que interessa e do que não vale a pena. A música recomeça e já as damas trocam ideias com as amigas, despreocupadamente, enquanto os cavalheiros avançam para aquela que coube nas suas medidas.
Um baixar de cabeça e o convite está feito. Um sorriso e está aceite.
(Estou a ver-me abanar a cabeça para recusar o generoso convite e o cavalheiro ir a resmungar pelo caminho de volta ao bar, quem raio penso que sou, para não querer dançar com ele o tango argentino. Humilhado com a minha recusa, roga-me todas as pragas num segundo apenas e deita-me um último olhar que me fulmina e me faz cair ali mesmo, junto à mesa onde espera o meu sumo, que todos julgam estar envenenado.)
Lá vão. Serão 15 minutos a rodopiar no salão, aos encontrões com os pares mais frenéticos ou menos ajeitados, talvez haja uma troca de nome, de naturalidade, de piropos se a "coisa" resultou. Ou apenas a troca de suor das mãos, de perfumes quentes, de "desculpe" a qualquer engano ou pisadela.
Usualmente uma música dura 3 a 4 minutos, mas um Kizomba ao vivo, dura no mínimo um quarto de hora, as voltas são muitas e no final, os bofes estão de fora... quem diz um Kizomba, diz um Tango ou um ChaChaCha.
Calor, ar saturado, caras desconhecidas, mãos quentes e grossas nas nossas costas, bafo de "mini", desodorizante de supermercado, é o que me vem logo à ideia.
Ou na melhor das hipóteses, gente nova, bons dançarinos, after shave de qualidade, mas ficar sentada só a ver, pois serei rotulada de cota, de peça de museu.
Também me lembro da frase duma amiga em relação a esses espaços a que chamam baile das velhas: - Se entrassem ali as mulheres daqueles homens todos, era a maior barafunda, era tabefe que fervia, seria debandada geral!
Por essa razão, bailes, bailes das velhas ou discotecas sem companhia, não são a minha opção.
Se não me apetecer dançar sozinha na sala de jantar, terei de ficar a ver um filme.
E que graça tem dançar sozinha entre a mesa do jantar e o sofá?
É por isso que a roupa que eu gosto não me serve e já vi os filmes todos dos milhentos canais da Cabo.
Cada um tem o que merece, dirá o homem a quem dei uma tampa!

Um suspiro na noite.

Deixa-me sentar a teu lado, quieta, em silêncio e ouvir-te apenas respirar.
Deixa-me encostar no teu peito e sentir o bater do teu coração.
Dá-me a tua mão para que possa entrelaçar os meus dedos nos teus e amparar na tua força, a minha fraqueza.
Cerca o meu corpo com o teu, sê árvore, nuvem, pedra e espuma.
A vida lá fora marcha em parada militar, fenece em fogueira de raivas e ódios, desfalece de lutas vãs, amanhece cansada de ilusões e ri-se de ingénuas esperanças.
A música embala o meu sonho e eu deito no teu colo toda luz que o luar não quer.
Fica assim, no escuro, adivinha apenas como me deleito com a tua existência e deixa que te considere meu, que te mostre as minhas lágrimas, os meus suspiros, os meus temores.
Abraça-me e mesmo que amanhã voltes a partir, respira comigo a quietude da madrugada.
Suporta no teu peito o peso do meu cansaço, do meu desamparo, dos momentos tão tristes que a lua apaga, dos gritos sem som, dos gestos de estátua, dos projectos desfeitos, dos desejos adiados.
Fica comigo esta noite. Para ti é uma noite... para mim, a vida.
Se ficares, faz-me acreditar por uma vez, que és só meu.
O vento a cantarolar nas ramadas do jardim, é o suspiro que o meu peito solta nesta ilusão.
Fica comigo e que eu deixe de respirar.

Frase do dia:

"Há espaço para todos os afectos no coração, como para todas as estrelas no céu."

Victor Hugo

Nanda


A vida é muito complicada, mas se não fossem as complicações, como é que íamos conhecer bem os que nos rodeiam?
É que nos momentos bons, na felicidade, todos são amigos... mas na adversidade é que se conhece bem o íntimo de cada um.
A mentira, o disfarce, a bajulação, a canalhice não são formas de vida que eu admire.
Se não é novidade, para mim, a falta de carácter de muita gente, foi uma surpresa muito grande conhecer uma pessoa boa e íntegra - a Nanda. Só por isso já valeu a pena o trabalho que tive.
Foi uma surpresa boa para mim. Conhecia-lhe a simpatia, mas não lhe conhecia tantas outras qualidades já raras, como a educação, a sensibilidade, o aprumo, o gosto pela perfeição e pela verdade, a meiguice, a coragem. É uma Senhora, um ser humano de primeira.
Fica no meu coração. Tem em mim uma amiga com que pode contar na sua vida.
Estou mais rica com esta última experiência, porque pude conhecer uma pessoa maravilhosa, além de ter concluido mais um projecto em que enfrentei mil dificuldades.
A mediocridade, a maldade e a ingratidão, magoaram-me muito, mas não me mataram, só me fortaleceram…
Para si, Fernanda, esta rosa.

Maio

Maio, Maio, Maio.
Mês das flores,
das cores.
Da coragem, da luta, do dia primeiro
De joelhos na peregrinação, no décimo terceiro
E sempre engalanado de rosas, orquídeas, margaridas e papoilas,
Vai aquecendo os dias longos, rosadas moçoilas.
Pequena flor roxa no pinhal algarvio, Maios sorridentes.
Manhãs brilhantes de sóis incandescentes.
Verdes de todos os tons
Trinados de todos os sons.


Mês de Alegria
Mês de Maria
Ladainha de bem aventurança, dolente
Rosário de jasmim, ciclame, lírio e hortense.
Maio dourado
Maio encarnado
Maio, Maio, Maio.

Dia da mãe




Mãe


A amarra, a força, a bonança

Porto seguro, abrigo, aconchego, segurança

O silêncio, olhar perdido há muito dado

O sonho forjado, esquecido, adiado

A desistência

Contigo no wc

O Carlos gostava de ouvir as notícias logo de manhã, quando ainda estava na casa de banho e para isso colocou um pequeno rádio em cima do armário das toalhas, que sintonizou no Rádio Clube Português e que ligava quando acendíamos a luz.

Um dia, a minha tia Fernanda visitou-nos.
Na primeira ida à casa de banho, acendeu a luz num gesto simples e usual, entrou e fechou a porta.
Um minuto depois, saiu a correr, aos gritos.
O locutor, de voz forte e sensual, dava os bons dias e anunciava o tempo.
A minha tia assustou-se, convencida que dividia aquele lugar, onde já estava com as saias levantadas até à cintura, com um homem que, displicentemente, a cumprimentava e fugiu descomposta e atarantada.