Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

A poetisa fala por mim...

"Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa-
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência."

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dor

"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem."

Sophia de Mello Breyner Andresen

Flores

Com minha mãe também aprendi a amar as flores.
A amar flores pequenas, simples, mas de cores vivas e formas variadas, em mantos pintados no campo ou em ramos mais elaborados de corolas sofisticadas em feitio de taça, de pássaro, de campainha ou de concha em madrepérola, que ela amava e cuidava como ninguém.
Com uma simples rosa, uma camélia dobrada, uma orquídea ou um malmequer azul do meu quintal, ela ficava feliz, querendo mostrar a preciosidade que a filha lhe levara à Irmã Teresa, à Amélia, à tia Fernanda, a quem quer que a visitasse.
Tantas, tantas flores, tão belas, em sua homenagem!
Se as pudesse ver...

Silêncio

Silêncio no quarto onde a minha mãe dormia.
Tristeza ver a cama desfeita e as suas coisas à mercê da vontade dos outros.
Uma dor profunda instala-se no meu peito e a saudade começa a espreitar.
Toda a minha vida passa num filme em câmara lenta, vendo-a receber-me com um sorriso, a cada regresso, a cada reencontro.
O silêncio,a sua ausência,a certeza do definitivo,fez-me olhar o céu e desejar que ela lá estivesse, de mão dada com o meu pai (como sempre andavam)e nos pudesse ver, aos seus filhos, netos e bisnetos, apesar de tão tristes com a sua partida.

Dar tempo... à dor

A dor foi tão forte, tão profunda, tão imensa, que me secou por dentro.
Quero dar tempo, dar tempo à dor, para amainar e poder reconstruir sobre os destroços alguma coisa mais que não seja apenas um lamento constante.
Quem me dera que dentre os destroços surja uma pequena raiz que dê caule, folhas, flores e frutos, de novo.

Luísa Dacosta

Naufrágio

No fundo do mar,
perdidos,
estão os sonhos,
dia a dia, inutilmente dobados.
Carne de medusa,
lacerada pelos corais,
oculta entre as algas,
quem poderá sabê-los?
ou encontrá-los?

Miau

Faltava ainda o 5º elemento da família, o Miau.
Num dia em que assistia a filmagens no exterior, o Jorge encontrou um pequeno gato recém-nascido, ossos a furar a pele e muito doente. Certamente fora abandonado e resistira para ser salvo pelo maior coração do mundo.
Levado ao veterinário, ficou a soro e veio para casa com olhos mortiços e andar trémulo.
Quando a minha neta lhe perguntava o nome, ele respondia com miados doridos.
Miau. Ficou Miau.
É hoje este lindo gato preto, de olhos verdes e porte altivo.

Recontar

Desapareceu o contador deste blog.
Desapareceu há uns meses e tinha mais de 15.000 visitas.
Como na vida, de vez em quando é preciso recomeçar. E aqui vou recomeçar do zero.
Quero saber se o que escrevo chega a alguém.

Ano Novo

"Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas."

(Cecília Meireles)

Chopin-Etude no. 3 in E major, Op. 10 no. 3, "Tristesse"




Eu disse ao Jorge que adorava a música de Chopin e ele respondeu que a achava muito triste. Sim, ele tinha razão. Hoje identifico-a com a minha tristeza...
- Para si, Jorge e que esteja em paz.

Jorge



O desgosto que sentimos por algo que sabemos ser irreversível, é uma dor que dói a dobrar.

Família

A família que a Leucemia desfez, roubando-lhe num mês, a força, a esperança, a alegria e o coração,

Luto

Quem adoptou o preto para o luto, sentiu ser essa a cor que melhor combinava com a tristeza, com a saudade, com o vazio que fica com o desaparecimento de alguém muito querido.
Eu concordo.
Sinto-me bem na roupa escura que visto, porque é dessa cor que está o meu coração ao olhar para a minha filha e para os meus netos, sabendo a falta que lhes faz o marido e o pai, que tanto amavam e de quem recebiam tanto amor.
É dessa cor que está a minha alma com o desaparecimento de alguém com quem tanto aprendi e de quem tanto recebi.
Embora haja a lembrança, há a ausência, uma ausência que magoa.
O Jorge era como meu filho e o lugar dele na minha casa, na minha vida, pelo homem que era e pelo que fazia pela família, pela minha família, deixou-me de luto, não só no negro que visto, mas também no negro que sinto.

Memória Jorge PT Sapo from NORMAJEAN | Brand Culturing™ on Vimeo.

Balzac

"A estupidez tem duas maneiras de ser: ou se cala ou fala.
A estupidez muda é suportável"


Balzac

A Vírgula

Sobre a Vírgula

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.
Detalhes Adicionais:

COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...


(texto cedido por minha querida amiga Drª Ana Marques)

Cancro

"Cancro- Tumor que dilacera as partes onde se desenvolve"
O mesmo que Cancer, em Latim, nome dado a constelação e a Trópico.

in Dicionário de Lingua Portuguesa de Cândido de Figueiredo.

Hibernar

Sou diferente dos ursos... Hibernei, mas no Verão.
Muitas novidades, muitas ideias, muitas ocasiões para deixar registos no meu blog, mas também alguma preguiça e muitas dúvidas.
A escrita tem sido a minha única companhia, mas como um casamento de muitos anos, também tem havido saturação e desejo de fazer alguma coisa diferente, que me impolgue, que me rejuvenesça - como um novo amor!
Passado o peíodo de crise, voltamos a sentir-nos bem no sofá velho, nas pantufas moldadas aos nossos pés e nos serões que conhecemos de cor e salteado.
Por isso, aqui estou.
Não descobri amor novo que me entusiasmasse, nem tive paixão assolapada.
Desejei experimentar um caminho diferente, mas a vida não me deu possibilidade para concretizar essa ideia. Foi adiada por um tempo.
Assim, ora alimentando a ideia, ora desistindo, deixei de lado a vinda ao blog.
Mas não me divorciei.
Apenas hibernei.

F. Nietzsche

O que eu preferiria? Amar a Terra como a ama a Lua e de não tocar na sua beleza senão com os olhos.

No 10 de Junho- Deolinda - Movimento Perpétuo Associativo

Português!

Prestes a começar o Mundial de Futebol, no noticiário de hoje, uma jornalista entrevista diversos portugueses a residir na África do Sul e a certa altura uma senhora responde:

-"Eu falo português, não é muito bem, mas desenrosco-me."

(A senhora queria dizer "desenrasco-me", claro. Sem comentários, mas com sorrisos. )

Solidão

Ter passatempos...
Passar algumas horas na cadeira da varanda a ler um livro e à medida que se avança no enredo, nascer a simpatia por um dos personagens, adivinhar as suas reacções, torcer para que descubra a conspiração ou adivinhe os planos que tecem contra ele e quando a história termina, sentir pena da separação enevitável daqueles que viveram connosco tantas horas desde que se iniciou a sua leitura.
Ou ver um filme na TV, no silêncio da casa, vivendo a cada minuto os planos mais próximos, quase sentindo as dores de quem sofre, deixando cair uma lágrima de comoção, rindo com uma cena atrapalhada, suspirando com as lembranças que se associam a cada minuto da história do herói da tela, em que a música é companhia a propósito e o cenário envolvente.
Estar sentado numa esplanada, olhando o infinito como se não existisse mais nada, mas seguindo atentamente os outros, nos seus gestos mais íntimos, sorrindo com as brincadeiras de um cachorro que punha pela roupa de uma criança ou dos namorados que se beijam esquecidos de tudo ao seu redor.
Ver as fotos da revista de excentricidades, enquanto se saboreia um café amargo e quente, desculpa apenas para sair um pouco e ver gente por minutos...
Tudo passa diante dos olhos como um filme, sem que se entre na cena, se sinta o calor do abraço, se receba o sorriso de quem chega, se faça adeus a quem parte.
Estou farta de assistir à vida sem fazer parte dela, de viver a vida no camarote de espectador.