O espírito





Quando desaparece alguém que admiro pela sua sabedoria, pergunto-me sempre para irá tanto conhecimento.
De que valeu o estudo, se tudo termina quando o corpo envelhece e morre?
Como pode o espírito estar confinado à breve existência do corpo?

Universo



Tantas vezes tentei já encontrar uma relação entre mim, as plantas, as estrelas, as pedras, os animais, a Lua e as outras pessoas.
Demasiado complexo ou simples, afinal?

Dizer


Há formas de falar, sem dizer uma palavra.
A poesia, a música, a imagem, a dança, a prosa, são discursos directos que outros escolheram por nós.

nota

O que mais me dá prazer na escrita, é o que digo nas entrelinhas.

Distraídos

Entretidos que temos andado com os jogos de futebol e a luta das claques, com os pés e joelhos em sangue dos peregrinos de Fátima, com o sexo sem segredo da casa dos segredos, com a quinta das celebridades sem celebridades, com as Júlias, Fátimas e Gouchas super divertidos e bem resolvidos, com o preço certo, que nunca está certo... nem nos demos conta de estarmos a ser depenados pelos políticos que nos vieram salvar doutros políticos, que nos estavam a depenar.

Sophia

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in "RELÂMPAGO" Nº 9 (Out. de 2001), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)

Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia

Saudades

Cheguei à conclusão de que não é só do Natal que eu vivi com os meus pais e com os meus irmãos e das coisas que tínhamos nessa altura, que eu tenho saudades, mas da pessoa que eu era então.

Mais um Natal!

Saudades imensas da noite de Natal na quinta dos meus pais (a nossa casa). Mesmo que quisesse seguir o que eles faziam, as muitas ausências fazem com que a imensa saudade ocupe todo o espaço destinado à alegria.
O cheiro das filhoses a fritar, do açúcar queimado no leite creme, a lareira acesa, o presépio, os meus irmãos e primos, eram motivos suficientes para a magia acontecer.
A verdade é que os meus pais também sofriam com a ausência de entes queridos e mesmo assim, a sua preocupação é que nós vivêssemos aquela noite de forma inesquecível. Agora, talvez me caiba a mim ter imaginação e força de vontade suficientes para fazer a magia acontecer de maneira a ficar para sempre na memória dos meus netos. Este ano quero compensá-los da falta de força que tive o ano passado, não só por eles, mas pela memória dos meus pais.

Somos o povo

Dizem constantemente que temos de baixar "não sabemos o quê" para pagarmos "não sabemos a quem" uma dívida que não sabemos quem a fez, já que sempre vivemos com tão pouco e só do nosso trabalho. Apenas sabemos que temos de trabalhar muito e continuar a ter pouco.A grande maioria do povo português não entende nada de finança, ninguém nos explica e tb nada nos perguntam. Não imaginamos tantos milhões de que eles falam, não sonhamos com as negociatas que enriquecem alguns de um dia para o outro e vemo-nos a ter que pagar o que eles dizem que devemos... É a sina de quem mal sabe ler, de quem não quer saber de eleições e de quem acha que quem tem algum dinheiro é honesto e sábio, por isso merece o nosso respeito.

Serra da Gardunha

Na Primavera, a minha terra enche-se do colorido das flores e do doce das cerejas e dos morangos. No Verão são os pêssegos, as maçãs, as pêras que se atrevem a competir com o mel das abelhas. No Outono são as uvas brancas, vermelhas ou rosadas, as melancias e as romãs. No Inverno, é o açúcar com que a Natureza polvilha os campos, dando-lhe aspecto de bolo de noiva.
Doce, doce é a minha terra.

Seres sem alma!

Vivemos tempos de indiferença.
Julgamo-nos sábios, superiores e eternos.
Não respeitamos a Natureza,
não valorizamos a Vida,
não protegemos os idosos e as crianças,
somos cada vez mais ignorantes,
mais insensíveis,
mais egoístas
e mais dependentes do consumismo.
Não aprendemos com as plantas, os animais, os mais velhos, os mais pequenos e os mais simples.
Não aceitamos medir-nos pelo Universo.
Estamos a perder a alma.

Moments of Glory

DAVID MOURÃO-FERREIRA

in ANTOLOGIA PESSOAL DA POESIA PORTUGUESA de EUGÉNIO DE ANDRADE (Campo das Letras, 2002)

NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

Prisões em Portugal

Nunca

Como pesa o silêncio!
Acumula-se a certeza e alonga-se a ausência.
Diluem-se as formas, os sons, os gestos
Não se preenchem os vazios
Nunca volta a existência.

Fernando Pessoa

"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

Ilusão

O Outono pensou, que podia ser Primavera.
A Lua Cheia sonhou ser chamada de Sol.
As Nuvens quiseram substituir as Estrelas.
Mas o Inverno chegou,
a Lua minguou
e a Chuva caiu.

O recado que me trouxe a Lua

A Lua quis segredar-me alguma coisa ao ouvido.

Eu não percebi. Pensei que estava a fantasiar, pois como era possivel a Lua, tão importante naquele céu imenso e estrelado, lembrar-se de mim e querer dar-me um recado. Recado de quem? Talvez um aviso, mas de quê?

Entretanto as nuvens começaram a cercá-la e mesmo assim, ela fitava-me por uma pequena fresta, que o rendilhado branco deixara, como se quisesse saber se eu percebera.

A Lua já dera tantas voltas que estava tonta, ou então era eu que exagerava no meu querer.

Depois de a ter olhado com o mesmo carinho e admiração das outras noites, ela foi andando no seu percurso directo ao mar e a outro continente.

Eu, um grão de poeira na imensidão do Universo, logo seria escolhida para ter a Lua como carteiro.

O meu coração, apesar disso, ficou sereno.

A imaginação é uma colcha de retalhos da realidade.

As palavras da alma

Só conheço o teu olhar.
Triste e indiferente, perdido nos pensamentos que teimam em voltar, sempre que reages e os afastas, tentando mostrar-te interessado no que te cerca.
Olhos negros e profundos que nada mais deixam transparecer que a tua dor.
Cruzam-se com os meus, mas não se iluminam, como se nem me visses, nem sentisses o que te quero dizer.
Olho pela janela e na rua a vida decorre igual, indiferente à minha solidão e aos teus pensamentos, que gostaria de afugentar.
De novo te fito e espero com um sorriso. Devolves-me o sorriso mais dorido que já conheci.
Sento-me a teu lado e recosto a cabeça no teu ombro. Procuras a minha mão e ficamos calados como se o silêncio nos mostrasse uma solução.
Passas a mão no meu cabelo, sem olhar para mim, como quem diz: Sei que estás aí, que estás comigo e eu também te quero muito. Mas o silêncio perdura.
Eu fecho os olhos e imagino-te com o rosto irradiando alegria, vindo ao meu encontro de braços abertos. Dás-me um abraço apertado e rodas-me no ar, enquanto eu rio, inclinando a cabeça para trás, pela força do rodopiar.
Como se adivinhasses onde pairava a minha fantasia acariciaste a minha mão com um doce gesto do dedo polegar. O teu afago foi leve e passageiro.
Fechaste os olhos também e fez-se noite escura naquele momento, para mim.
Fiquei quieta, respiração suave como se não existisse e o meu coração serenou com o calor da tua mão que continuava a segurar a minha.

As Cores do Sonho

Como oleiro, eu tentei
modelar o mundo com os meus sonhos.
Eu, árvore com ramagens de cores avermelhadas
no outono, caindo na terra fria desmaiadas
Tu, pinheiro altivo, sempre verde, rasgando o céu ,
sem temer ventos em rajadas, ou o peso da neve silenciosa.
Depois, para mim uma flor, talvez o jasmim, o lírio ou a rosa
e para ti, rosmaninho do campo ou alecrim perfumado.
Moldaria uma ave, eu, o pintassilgo talvez
frágil, modesto, mas livre viajante, sempre
entre nuvens ou por mornas correntes levado.
Pintaria com a cor do entardecer
os teus braços onde ele iria adormecer.
O céu de azul claro, suave como um sorriso,
nuvens como véus de noiva, em bailado,
por do sol em matiz alaranjado, cor de fogo como o nosso sentir
De negro, a noite, para contar as estrelas, de mãos dadas
Rosado o horizonte ao amanhecer, com risadas
Modelaria o mar, que pintaria com a cor dos meus olhos
E tu, o barco, que viria nele ancorar.

Mª Suzete 28.08.2011


Goethe

HISTÓRIA DE UM POEMA COM FOLHAS DE ÁRVORE-AVENCA

No dia 15 de Setembro de 1815, o poeta alemão Johann Wolfgand von Goethe escreveu um poema para a sua namorada Marianne von Willemer. Inspirou-se numa Árvore-Avenca (Gingko biloba) que viu no jardim do castelo de Heidelberg. No dia 23, encontrou-se com Marianne pela última vez e mostrou-lhe a árvore. No dia 27, enviou-lhe o manuscrito, ao qual juntou... duas folhas dessa árvore.
A árvore tem muitas outras particularidades. É uma das plantas medicinais mais utilizadas e foi a única a resistir aos bombadeamento atómico de Hiroshima. Mas a razão da escolha de Goethe é a forma bifurcada das folhas ('biloba', dois lóbulos), ideal para ilustrar o tema do poeta: a unidade/dualidade.
O poema foi magistralmente traduzido por JOÃO BARRENTO.
O manuscrito original, com as duas folhas coladas pelo próprio Goethe, está no Goethe Museum de Dusseldorf. É a imagem que reproduzimos hoje.


JOHANN WOLFGANG VON GOETHE, in DIVÃ OCIDENTAL-ORIENTAL (1819), in OBRAS ESCOLHIDAS DE GOETHE, vol. VIII POESIA, trad. de JOÃO BARRENTO (Círculo de Leitores, 1992)



GINGKO BILOBA

Esta folha, que o Oriente
Ao meu jardim confiou,
Dá a provar o secreto
Saber que o sábio formou.

É um ser vivo que em si
Mesmo em dois se dividiu?
Ou são dois que se elegeram
E o mundo neles um viu?

Dessas perguntas que fazes
O sentido certo te dou:
Não sentes nos cantos meus
Como eu uno e duplo sou?


(15-9-1815)

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Fotografia: manuscrito do poema original de Goethe (Goethe Museum, Düsseldorf)

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Nota: Esta é a árvore que tenho no meu pequeno jardim e que adoro.