Sim, mas...


“Eu disse à Troika que Portugal não está no caminho certo, mostrei-lhe os graves problemas que estamos a enfrentar. Não houve qualquer alteração da sua atitude, mas mostrei-lhes as nossas preocupações.”
Esta frase que ouvi hoje nas notícias da manhã, fez-me lembrar um produtor de fruta que conheci no Fundão, quando lutava por obter rendimento da quinta que o meu pai nos deixara e me informava dos mercados possíveis para a fruta que produzia.
Enquanto me queixava do baixo preço que nos ofereciam, esse produtor dizia-me com ar fanfarrão:
“Vendi os meus pomares muito bem vendidos, foi o preço mais alto que já vi por aí. Não me pagaram, mas foram muito bem vendidos!”

Entrelinhas


O que maior prazer me dá na escrita, é o que consigo dizer nas entrelinhas.

Apelo


Ora nos manda emigrar, ora nos manda mudar de vida... Não haverá ninguém que o mande àquela parte?

Ainda os tempos de indiferença


Fui confrontada por alguém que leu o meu post na Pegada, querendo saber se eu era contra a ajuda que cada um pode dar para as Instituições que se debatem com dificuldades financeiras.
Não sou contra. Não sou contra o acto de dar, nem contra o acto de receber, nem contra coisa nenhuma que as pessoas queiram fazer.
Sou contra a ideia de que temos que contribuir constantemente para que as Instituições sobrevivam, se arrastem, atinjam minimamente os fins para que foram criadas.
Não aceito que uma corporação de bombeiros tenha de pedir de porta em porta.
Não aceito que uma casa de acolhimento de crianças abandonadas tenha necessidade, para cuidar delas, de fazer peditório nacional.
Não aceito que um hospital não possa comprar medicamentos ou outros materiais e ande na pedincha para poder atender os doentes que ali são tratados.
Trabalho há 40 anos e nunca vi a cor a mais de um quarto do meu vencimento, para poder ter algumas regalias, entre elas a assistência médica. A verdade é que durante anos e anos nem um comprimido gastei e se contabilizar as vezes que adoeci e necessitei de ajuda, meio ano desses descontos cobririam todas as despesas.
De quem é a obrigação de zelar por esse suporte social?
Constantemente, aonde quer que vá, vejo pessoas pedir para os mais diversos fins. São todos conhecidos, são todos idóneos, são todos necessitados, são todos do bem.
Nada neste país funciona?
Acho ridícula esta pedinchice.
No entanto, as pessoas cada vez estão mais afastadas dos seus familiares, dos seus vizinhos, dos seus conterrâneos, fazendo vista grossa às  suas necessidades como seres humanos.
A atenção, a amizade, o carinho não se compram com donativos de porta de supermercado.



Ganância


Já pensaram na publicidade feita ao supermercado que fez a promoção de 50% na venda dos seus produtos no Dia do Trabalhador?
Se fizermos bem as contas, ficou mais barata e teve mais resultados do que feita de forma normal.
Em todas as cidades, as pessoas correram a fazer as compras, gastando o que tinham e talvez, o que não tinham. O dito cujo guardou a sua margem de lucro, ainda que menor.
Os da concorrência vão ficar algum tempo às moscas e a notícia abriu os noticiários na hora nobre, além de encher as redes sociais e os jornais.
Depois, sempre tiveram o prazer de dar uma risada na cara do 1º de Maio...
Acho que a imaginação do homem não tem limites e a sua ganância também não!

Amanhã

"Crescimento, só para o ano!" (Diz o governante)

"Fiado, só amanhã!" (Diz o taberneiro)

Porque é que me lembrei disto? Será que existe em si o mesmo espírito?

Sonhar


Achava que os sonhos tinham a dimensão das posses de cada pessoa.
Se uma pessoa não sabe ler, sonha que poderá, de um momento para o outro, ler o jornal, as legendas do filme da televisão, da bula do último medicamento que lhe receitaram. Esse não será o sonho de quem já não se lembra sequer de ter aprendido a ler.
Eu sempre tive pena de não saber música e sonho constantemente poder sentar-me a um piano e tirar dele música de Mozart ou de Chopin.
Na verdade nunca procurei um professor e tentei aprender.
Sou como aquele que desejava que lhe saísse a sorte grande e nem sequer jogava!
Os sonhos, concluo, têm a dimensão do querer de cada pessoa.

A minha casa é do banco!


Um casal festeja a compra da sua casa e entra nela cheio de ilusões.
Tem a conta para amortizar, mas só pede saúde, pois o esforço de ambos já foi calculado mil vezes e está previsto até ao último cêntimo.
Anos depois, um perde o emprego e o outro não ganha o suficiente para assegurar a alimentação da família, os estudos dos filhos, os seus transportes, a sua saúde e a dívida ao banco.
A casa deixa de poder ser paga e o banco vem resgatá-la sem dó nem piedade.
Num leilão, onde aparece aquele apartamento como um simples T3, onde nada mostra o amor com que foi comprado, como foi transformado em lar de uma família que ia crescendo, como foi testemunho de tantas horas de aflição, é rematado a um licitador, ao som do martelo na mesa nua, cumprindo a missão de não deixar o banco sair a perder.

Luta desigual


Fico indignada quando ouço dizer que este ou aquele foi tão forte que conseguiu vencer o cancro.

Acho uma tremenda injustiça por aqueles que o cancro derrubou, pois parece que viver ou morrer é uma questão de força de vontade de quem é surpreendido por esta doença.
Lutar, todos lutam. Querer vencer e continuar junto dos seus, todos querem. Só que a doença não dá essa chance a todos.

Apesar do frio


Apesar do frio, da falta de chuva, dos percalços da bolsa, das explicações looooongas e leeeeentas do responsável pelas Finanças, das manifestações com manifestantes em número incerto entre os 30.000 e os 300.000, apesar dos dias curtos e cheios de Sol e das noites longas e escuras como é usual, apesar de todas essas desgraças, as roseiras começam a rebentar em folhagem brilhante, as cameleiras estão em botão, a magnólia está cheia de flor e todo o jardim mostra que tudo está bem na Natureza. Quem me dera que após um período de ramos despidos e morte aparente, eu pudesse voltar, como elas, a ser viçosa e florir cada ano, ao chegar a Primavera.

Miguel Torga


Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.



Perde-se a vida a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto

O nosso amor

Durou.

Mas o tempo passou,

Há calmaria...

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada


Frederico

ESECTV na RTP2: emissão 01 fevereiro 2012 (LGP) from esectv on Vimeo.

Pablo Neruda

SAGRES

John Denver

"As Farpas" de Eça de Queiroz

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!”
Isto foi escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número d'As Farpas. Parece mais actual do que nunca!

1872...

Castelo de Vide












É bom não perdermos as nossas raízes de vista.
Só assim conservaremos a nossa identidade.
Eu tenho orgulho em ter nascido neste país cheio de Sol, mesmo tão pobrezinho.
A única pobreza que lamento, é a de espírito.

O acordar dos sentidos



Pela manhã, o acordar dos sentidos:


A vista do nascer do Sol
O tacto da roupa macia
O sabor da torrada
O odor do café
O som do... despertador

O espírito





Quando desaparece alguém que admiro pela sua sabedoria, pergunto-me sempre para irá tanto conhecimento.
De que valeu o estudo, se tudo termina quando o corpo envelhece e morre?
Como pode o espírito estar confinado à breve existência do corpo?

Universo



Tantas vezes tentei já encontrar uma relação entre mim, as plantas, as estrelas, as pedras, os animais, a Lua e as outras pessoas.
Demasiado complexo ou simples, afinal?

Dizer


Há formas de falar, sem dizer uma palavra.
A poesia, a música, a imagem, a dança, a prosa, são discursos directos que outros escolheram por nós.

nota

O que mais me dá prazer na escrita, é o que digo nas entrelinhas.

Distraídos

Entretidos que temos andado com os jogos de futebol e a luta das claques, com os pés e joelhos em sangue dos peregrinos de Fátima, com o sexo sem segredo da casa dos segredos, com a quinta das celebridades sem celebridades, com as Júlias, Fátimas e Gouchas super divertidos e bem resolvidos, com o preço certo, que nunca está certo... nem nos demos conta de estarmos a ser depenados pelos políticos que nos vieram salvar doutros políticos, que nos estavam a depenar.