Patrick Swazie

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Patrick Swazie está a lutar contra o cancro.
Bailarino, compositor, actor e ser humano maravilhoso, tenta vencer um inimigo que não desafiou e que não conhece.
O bem que nos fez com a sua arte, não foi paga suficiente para que o sofrimento não lhe batesse à porta.
A doença não passa ao lado de quem venceu na vida pelo seu talento.
Pergunto-me vezes sem conta para onde vão o esforço, a sensibilidade, a persistência, o sacrifício, os conhecimentos, o empenho de pessoas como esta, que se destacam pela forma como perseguem os seus sonhos.
Quem nasce para a arte, alimento do nosso espírito, vive mais distante dos homens e mais próximo de Deus .

Uma obra de arte

Uma flor que ofereci a mim mesma

Dia 8

Imagem que escolhi para o Dia da Mulher


M... Março e Mulher

Dia da Mulher
A um cavalheiro que me mandou um postal através da internet, não respondi. Era cedo, não tinha tomado café e não me apeteceu preparar um agradecimento.
Mais tarde, cerca das 9h, foi um colega, também através da net. Do hi5, mais propriamente.
Aos votos de feliz dia da mulher, respondi : "Sou uma mulher especial... sou festejada todos os dias. Sei que a caça tira os homens cedo da cama... não sabia que o hi5 também tinha esse poder!"
Entretanto recebi uma mensagem no telemóvel: "Que bom haver Mulheres! (Mas, por favor, não abusem) bjs"
Respondi:"Vale a pena ser mulher, para receber mensagens destas... pena que seja só uma vez por ano!"
Na TV o Marco Paulo cantou à "Mulher de quarenta".
No ano que vem, haverá mais! Que bom, que bom, que bom!!!

Canções de riso



Ora pro nobis
Galinha gorda não é para os pobres
É só para os ricos
Que são uns grandes jericos



lenga lenga

Dava o pequeno almoço à minha mãe e lembrei-me do que diziam em pequena, para eu comer.


Ave Maria, está a panela vazia

Pai Nosso, quero comer e não posso




Alagados

Para sair de Salvador e voltar para Feira de Santana, para a praia do Sítio, onde me encontrava de férias, perdi-me.
Parar não era solução e por isso continuei.
Ainda pensei que a qualquer momento iria encontrar uma placa que me indicasse a estrada principal, mas enganei-me. Fui dar a uma zona desabitada.
A estrada terminava ali e o que eu via à minha frente era aterrador.
Milhares de barracas de madeira construídas em palafitas, amontoavam-se no lodo que a maré ao descer, deixava ver. Latas de bebidas boiavam em quantidade, que nunca imaginara se pudesse juntar. Papéis, plásticos, trastes velhos, farrapos, eu sei lá! A água era negra e pastosa. Tudo boiava no lodo, que deitava um cheiro fétido e me dificultava a respiração.
Tinha de afastar os mosquitos com as mãos, pois formavam nuvens cerradas à frente dos meus olhos. As pessoas e os andrajos, que pouco as cobriam, eram tão sujos como o lodaçal, que atravessavam por pequenas pontes de madeira podre.
As crianças quase nuas, brincavam com o lixo que cobria tudo.
Ali despejavam os detritos da casa (casa? pequenas barracas esburacadas em cima de pernas esguias enterradas na lama), que faziam as suas necessidades, que apanhavam algum objecto que a corrente trouxera e ainda podia ter utilidade.
Era um mundo surreal. Nunca imaginara nada assim. Parecia o cenário de um filme.
Parei para perguntar pelo caminho que me levaria a Feira de Santana.
Tive que repetir a pergunta por várias vezes. Primeiro, o homem que me ouvia, não me entendia. Quando falei mais devagar, com frases mais curtas e me entendeu, admirou-se de eu estar ali - "o Bairro dos Alagados não era visitado por turistas e eu, pela cor pálida, a roupa que parecia ir para uma festa e a língua esquisita, só podia ser turista!"
Por fim lá me explicou e agora quem teve dificuldade em entender fui eu.
Quando cheguei, finalmente, junto dos meus amigos, ouvi as maiores exclamações. Disseram que tinha corrido sérios riscos de não ter saído de lá com o carro ou até com a roupa que vestia.
Tinha sido uma loucura eu andar por aqueles sítios. Ali viviam os mais pobres dos pobres de Salvador.
Eu ainda tremia, apesar dos km já percorridos entretanto. Não de medo, mas de emoção.
Respondi, escondendo o meu nervosismo, que os malandros, os marginais, não viviam naquelas condições. Deviam fugir de lá, mal tivessem capacidade para chegar à cidade e fazer o primeiro roubo, ou o primeiro tráfico.
Estava cansada do calor e o cheiro nauseabundo de mil esgotos continuava no cabelo, na roupa e nas narinas. Já no duche pensei como era possível deixarmos que vivesse gente naquelas condições... e imaginei como aquelas crianças gostariam de estar assim, debaixo de água quentinha, com um gel de maçã, uma esponja macia como a seda e uma toalha enorme, morna e felpuda, à espera. Depois, a rede de algodão beje, na varanda e o sumo de maracujá gelado ao lado do livro que andava a ler...
Na hora de nascer, quem determinara que eu iria nascer aqui e eles lá?

Salvador da Baía


Quando visitei a cidade de Salvador, na Baía, revi cada linha dos livros de Jorge Amado, que li aos 16 ou 17 anos e voltei a ler algumas vezes pela vida fora.
O mar e o areal de "Baía de todos os Santos", as ruas apertadas com casas degradadas de "Velhos Marinheiros", o cheiro forte dos restaurantes e "botecos" de "Dona Flor e seus 2 maridos", as mulatas bonitas e os turcos a apregoar as mercadorias de "Gabriela", enfim... tudo parecia exposto para mostrar aos turistas o catálogo feito por Jorge Amado.
Admirei as muitas igrejas, tantas que ficamos a pensar se haveria fiéis que justificasse aquela quantidade, (2 e 3 no mesmo largo), com o traço das nossas igrejas do Minho e da Beira.
Pasmei com os bairros de gente rica, com altos muros a esconder as mansões, as câmaras de vigilância por todo o lado, os portões enormes, como se fossem quartéis de alta segurança, só mostrando o cimo das altas copas das árvores que enfeitam os jardins.
Comi os pratos deliciosos com camarão seco, caju, amendoim, óleo de dendê, leite de coco e peixe fresco, com odor tão agradável e uma cor tão forte, que não apetecia diluir com a mistura da farinha de mandioca.
Vi os praticantes de Capoeira exibirem a sua arte, que pode ser arma mortal, para ganharem uns dólares dos turistas. Eram rapazes altos, esguios, cor de chocolate, ágeis e certeiros, sem sorriso, que assustavam em cada atirar dos pés como se fossem pedras.

Comprei artesanato. Os célebres balangandans que dão sorte, o facão com que desbravam o mato e cortam a cabeça às cobras, bordados em linho e rendas de filé e de bilros.
Por fim, quis ir visitar a Igreja do Senhor do Bom Fim, tão famosa pelas fitinhas coloridas que tanta gente usa atada nos pulsos, para concretizar os pedidos feitos.
A Igreja está ao cimo de um largo e entra-se com o carro pelo lado direito e sai-se pelo esquerdo, como é normal. Logo à entrada da grande praça, estavam dezenas de garotos a vender molhos de fitas com o carimbo de "Lembrança do Senhor do Bom Fim", que atiravam pelas janelas dos carros e corriam para receber o dinheiro.Parei e perguntei o preço. Os 3 ou 4 miúdos que encostaram o nariz ao carro, não tinham sequer a altura da janela e esticavam-se para falar comigo. Um deles fez o preço. Apontou para o chão do carro, para onde eu atirara um saco de plástico transparente, com um resto de sandes e de bolo que não consguira comer, esperando encontrar um caixote do lixo para o deitar fora e pediu-mo.
Ainda lhe disse que era lixo, mas ele insistiu.
Fiquei muito perturbada. As camisolas de algodão que vestiam estavam em farrapos, os pés descalços e o sorriso enorme mostrava com entusiasmo os molhos de fitas.
A Igreja estava fechada e não pude visitá-la. Aproveitei para sair dalí rapidamente, pois o saco que o garoto levou, chamou a atenção dos outros e em dez de 4 eram já 20 ou 30 à volta do carro.
Nunca mais esqueci as caras dos garotos e percebi a poesia que Jorge Amado colocou na seu livro "Os capitães da Areia."

Olodum

Ritmo, cor e prevenção

No Brasil, em Salvador da Baía, muitas crianças deambulam pelas ruas desde os primeiros anos de vida.
Não vão à escola, não se alimentam regularmente, não têm cama, nem tecto.
Aprendem a arte de roubar, de fugir, de matar, de consumir.
Um grupo de artistas das canções, juntou-se e começou a organizar uma escola onde fizessem alguma coisa por esses garotos.
Ginástica, leitura, escrita, desenho, dança, capoeira e... música.
A música tocada em latas, pequenas e grandes, novas, amolgadas e pintadas com cores garridas.
A garotada gostou. Estudava só para ter direito a entrar no grupo da batucada.
Saíram das ruas, passaram a ter normas, a ter auto estima, a ter orgulho, a ter amigos, a ter família. Nasceu o Olodum.
Paul Simon descobriu o seu ritmo e levou-os a Nova York, a um grande concerto de Hyde Park.
Gravam discos, fazem concertos, entram em grandes espectáculos em muitos países do mundo.
E crescem, crescem em idade e em número.
São um milagre de cor, de som, de luta e de amor pelo próximo.

A magia da música

Sete notas.
Juntinhas, a brincar, travessas, desenham a melodia.
Entre uma e outra e outra, o ritmo saltita, alegre, irrequieto, irreverente.
A melodia que nos faz cantarolar, dançar, sonhar.
Que nos faz companhia, que adivinha o que sentimos, que fala por nós.
Que nos leva longe, sem sair do lugar.
Alegre, quente, suave, gritante, chorosa, melada.
Hino de revolta na boca de operário em luta pelo direito de viver.
Toque repetido na marcha de soldado, passo marcado, ensaiado, acertado por voz de comando.
Oração com refrão de esperança.
Canção de embalar em boca de amor para sono de anjo.
Lenga lenga de criança.
Música.

Perdemos a memória?

Ontem compreendi o que o Sr. Deputado disse na Assembleia da República!
Tinha-me levantado às 6.30h e mal nasceu o dia, fui arranjar o meu jardim. Estava tudo em sossego e a temperatura era até agradável. Foi então que senti algum movimento na padaria que fica quase em frente. Não liguei, como é meu costume. Apesar de ser mulher sou pouco curiosa para este tipo de coisas.
Mais tarde, já a acabar de tratar das plantas, veio a senhora da padaria fazer-me uma pergunta.
Apesar de me conhecer mal pois raramente lhe compro o pão, acabou por desabafar comigo. Contou, ainda nervosa, que a ASAE entrara na padaria , às 7h da manhã de domingo, a perguntar pelo forno e pelo armazém da farinha. Ela explicou que tinha forno, mas sem compensar cozer ali o pão, tinha deixado de o usar e em consequência disso, acabara também com a farinha.
A panificadora fornecia-lhe o pão todas as manhãs, já há alguns anos.
Perguntaram-lhe então por uma empregada que tinha. Ela explicou que não tinha empregados. "Então e a Srª tal, que é reformada por invalidez?"
Ela explicou que esteve uns dias no Hospital e essa sua amiga tinha-a ajudado, para não ter de fechar a padaria.
Tinham denúncias escritas daquelas situações.
Depois de insistirem e verificarem tudo algumas vezes, saíram com cara de poucos amigos!
Já não se lembram do que sofremos durante quase meio século? Ou lembram-se e é isso que querem de volta?

Rédea curta

Um político da oposição, na Assembleia da República, comparou a ASAE com a Pide.
Não conheço as razões que levaram a tal acusação, mas o pouco que mostram da actividade da ASAE, agrada-me.
O nojo dos restaurantes engordurados, desleixados, com as casas de banho atafulhadas de caixotes de alimentos e detergentes, os alimentos com aspecto e sabores impossiveis de determinar, montes de moscas nos vidros das janelas, tudo me deixava apreensiva há muito tempo.
No que diz respeito à alimentação, era assustador o que se via ou se sabia de vez em quando.
Aquele restaurante que foi fechado porque encontraram enterradas no quintal dezenas de pata de burro, por exemplo!
Os alimentos com o prazo caducado há cinco anos!
A carne de cão nos restaurantes chineses!
E não imaginava sequer uma parte do que veio a saber-se depois, com a actuação da ASAE.
Ainda há muito por fazer. Um destes dias fui tomar um café e uma das empregadas que estava atrás do balcão, passava com frequência a mão pelo nariz porque estava constipada. Um cliente pediu-lhe uma sandes de fiambre e ela foi buscar o pão, abriu-o e colocou o fiambre, sem lavar as mãos ou colocar as luvas que estavam na bancada para esse fim.
Por outro lado, as feiras e os mercados eram o paraíso onde se conseguia comprar tudo de marcas famosas, a preço da uva mijona.
Enquanto olhava as bancas cheias de roupas, calçado, discos e fimes, pensava na economia dos pobres comerciantes que pagavam impostos, rendas, salários, segurança social e estavam às moscas, enquanto teimavam em sobreviver à invasão de um inimigo que não conseguiam combater.
Onde eu pensava mais nisso, era em Leiria. Na baixa, perto das ruas das lojas de modas, funciona a feira todas as terças feiras e sábados.
Quem é que iria comprar uns jeans na loja, se na feira havia praticamente igual, com mais variedade e a um décimo do preço?
Embora me soubesse bem que assim fosse, não deixava de pensar no problema.
Vê-se que muita coisa mudou. Desde a cozinha do retaurante de quinta categoria onde almoço durante a semana, até à barraca das farturas que está iluminada em frente da casa da minha mãe, a diferença é notória. Os balcões de inox, dantes atafulhados de caixas, frascos e alguidares com restos de tudo um pouco, agora brilham de limpos e parecem maiores sem os trastes que faziam já parte deles. Já não se estranham as empregadas com as toucas brancas, as luvas para manusear os alimentos, a bata e o avental.
Já lá vai o tempo em que iamos lanchar à pastelaria, vinha para a mesa um prato com bolos sortidos e só pagávamos os que comíamos, enquanto os restantes continuavam a ir de mesa em mesa à mostra, até que agradassem a alguém.
Lembro-me duma história que o meu pai contava, com a graça que só ele tinha, do homem que estava a comer uma morcela e trincou qualquer coisa que não era habitual encontrar naquele enchido. Tirou-o da boca com cuidado e ficou aflito, dizendo que lhe tinha caído um dente. Mas, ao procurar a falha do dente, viu que os tinha todos!
Claro que muitos de vocês dirão que comemos muita "porcaria" feita nas fábricas... o que eu acho é que pior seria se não houvesse o medo pela fiscalização!

Os indiferentes

Comecei a trabalhar muito nova e muito nova me habituei a cumprir obrigações.
O vencimento era o estipulado por Lei. As regalias eram as determinadas para todos a mim iguais. As obrigações, essas mudavam constantemente, conforme os meus superiores queriam mostrar serviço e dar nas vistas. E como a própria palavra indica... eram obrigações.
Algumas novidades que surgiam e se lembravam de exigir, logo a seguir eram postas de parte e substituídas por outras, igualmente efémeras, imprestáveis e sem resultados práticos de qualquer valor, porque tudo era feito apenas para mostrar que o que existia não prestava.
Já eu trabalhava quando o 25 de Abril aconteceu e parecia que tudo de errado tinha sido feito até aí e tudo de certo passaria a fazer-se...
Eu nunca me entusiasmei muito com política e sempre desvalorizei os grandes títulos dos jornais que tanto assustava quem convivia comigo.
Nunca fui para a porta do supermercado a marcar vez para comprar leite e conservas, com medo de uma revolução. Nunca enchi a banheira de gasolina, nem a varanda de bilhas de gaz. Não foi por espírito de contradição, sentia mesmo que não valia a pena. Tudo me soava a trovoada de Verão.
Continuei a trabalhar todos os dias e a cumprir com todas as obrigações que os chegados de novo impunham, depois de acharem, como era costume, que as existentes estavam erradas e tinham de ser alteradas com urgência. Metade do meu esforço era compreender o que pretendiam de mim e adaptar-me a fazer o mesmo, mas de forma diferente.
Revoluções foram acontecendo sempre daí para cá.
Caíram governos e surgiram governos, fizeram leis e revogaram leis e eu sempre no meu dia a dia igual... de cumprir com o que me ordenavam.
Tenho tido mais chefes a darem-me ordens, do que colegas a desempenhar as tarefas comigo.
Todos chegavam com o saber na pasta e daí a pouco tempo outros chegariam e os obrigariam a partir, tal como eles tinham feito.
As grandes lutas nunca foram minhas, nunca senti que adiantassem alguma coisa, pois com o passar dos anos confirmei que tudo tinha um percurso muito igual, tudo era demasiado previsivel, além de que para se ter voz se tem de ter poder e o poder não se adquire a trabalhar todos os dias cumprindo obrigações. Só com poder se pode falar e sair impune.
A meio do ano passado remodelaram todo o meu serviço e deram-nos formação para pôr em prática as ideias que algumas mentes escolhidas acharam que revolucionariam a minha profissão e obrigariam aqueles que fizeram "mal feito" o seu trabalho durante dezenas de anos, o passassem a fazer bem feito.
Parece que vai tudo mudar outra vez... mal me adaptei aos nomes complicados e aos sistemas rebuscados e aí vem mudança de novo!
Acusam-me de tudo ser assim, por causa de pessoas como eu. Que deveriamos falar, em vez de comer e calar!
Eu, como todo o povo, sei pouco, trabalho muito e gasto as minhas energias a lutar por me adaptar e cumprir o que, mesmo assim, me dá direito a ter o mínimo com que pagar as contas a tempo. Sou filiada no maior partido do meu país - O partido dos indiferentes.
Foi a nós que prometeram mundos e fundos, porque nós somos os degraus para poderem chegar lá acima. Foi a nós que desiludiram em primeiro lugar, foi a nós que apresentaram a conta da nossa ingenuidade e o continuam a fazer. As suas campanhas já nada nos dizem.
O povo a que pertenço não conhece os métodos para vencer e chegar longe... só conhece o trabalho diário, a hora de entrada sem atrasos, o fazer tudo com o máximo de esforço, obediência, sacrifício, o dar tudo por tudo e sempre. Os nossos números raramente passam da centena. Não sabemos avaliar milhões, nem derrapagens, nem impactos, nem negociações, nem compensações. O valor do crude... só o reconhecemos nas facturas dos bens de 1ª necessidade.
Vivemos na corda bamba dos despedimentos, das hipotecas, dos centros de saúde, dos transportes públicos. Somos os profissionais dos sonhos adiados.
Somos orfãos e filhos únicos nas preocupações com as propinas dos estudos dos filhos, nos juros da casa, na alimentação mais básica, nos medicamentos imprescindíveis, no passe do autocarro lotado e nos extras que sempre aparecem quando menos podemos.
O povo a que eu pertenço ainda suspira de alívio quando tem obrigações...

Quando terá sido?

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)
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Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)
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Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;
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Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
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* Guerra Junqueiro, Pátria, 1896
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de 1896 a 2008
(música)
(cortesia QUADRATIM.blogspot.com)

Aqui e Agora

A vida observa-se
os olhos abrem-se

os néscios governam
os valores ignoram-se
a ética despreza-se
a prepotência impõe-se

os sensatos dispensam-se
os sábios ostracizam-se
as dúvidas evitam-se
as perguntas rechassam-se

os escrúpulos afrouxam
a vergonha perde-se

os lugares distribuem-se
o mérito subestima-se
os talentos desperdiçam-se
as desculpas inventam-se
as justificações forjam-se
os compadres entendem-se
os afilhados ajeitam-se
os oportunistas seduzem-se

os salários congelam-se
as avenças engordam-se
os iníquos vangloriam-se
a mentira proclama-se

os ministros favorecem
os deputados aproveitam
os autarcas enriquecem
e todos se corrompem

o protesto silencia-se
a oposição humilha-se
a denúncia abafa-se
a indignação persegue-se
a revolta arrasa-se

os interesses calam-se
os interessados compactuam
a promiscuidade instala-se
os cinzentos calam-se
os mansos conformam-se
os fracos rendem-se
os espertos vendem-se

a propaganda especializa-se
a fachada institui-se
as premissas baralham-se
os custos sonegam-se
os resultados inventam-se
a fraude aceita-se
a prosápia acata-se
o embuste decreta-se

os neófitos apressam-se
as influências traficam-se
os direitos usurpam-se
as obrigações incumprem-se
os bens empenham-se
as dívidas crescem
o passado salda-se
o presente liquida-se
o futuro hipoteca-se

os desiludidos demitem-se
a ambição descontrola-se
a vaidade desnorteia-se

os ávidos promovem-se
os ávidos ratificam-se
os ávidos aplaudem-se
os ávidos compensam-se
e recompensam-se

os ávidos rivalizam

os esbirros traem
os cúmplices desmarcam-se
os mandaretes desmacaram-nos
as línguas desprendem-se
e a marosca revela-se

os ombros encolhem-se
os injustiçados cansam-se
os honrados indignam-se
os corajosos revoltam-se
o escândalo rebenta
a barca abandona-se
as culpas assobiam-se
e a vida continua

A mania dos exageros

Os portugueses têm mesmo a mania das grandezas! Não há nada a fazer.
Volta e meia lá estamos a tentar entrar no livro do guinness com qualquer coisa de graaaande.
E sem aproveitar a ninguém, nem servir para coisa nenhuma, iniciamos as coisas mais espatafúrdias para concorrer ao livro dos recordes. É doentio!
Foi o Pai Natal de Torres Vedras, um monstro com a altura de um prédio, que mal mexia os braços ou as pernas de forma desajeitada, pintado de vermelho e tão alto que as crianças quase caíam de costas para poderem espreitar os contornos do rosto do boneco.
Doutra vez foi uma panela de ferro gigante...
Também o tal cachecol com não sei quantos kilómetros. Era caricato ver a senhora sentada a tricotar e o cachecol crescer em metros e metros aos seus pés. Para quê? Não entendo!
Ah, e o bolo de castanhas com 600 Kgs?A desculpa foi a necessidade de chamar a atenção para o consumo de castanhas, um fruto do Norte do nosso País. E terão vendido mais castanhas depois do bolo enorme que necessitou uma forma adequada e do forno a condizer, para poder constar no tal livro???
Depois foi o assador de castanhas... Levaram um ano a estudar e a fazer o tal assador que levava logo umas centenas de quilos de castanhas de uma só vez. Muito prático!
Foi como a feijoada na ponte sobre o Tejo! E o bolo-rei com não sei quantos metros!
Fez-me lembrar os filmes americanos que nos impingem nos sábados à tarde, em que há sempre um concurso para ver quem come mais bolos, mais ovos ou bebe mais cervejas...
É o livro em que podemos ver o homem mais alto, a mulher mais gorda, a maior quantidade de piercings no mesmo homem, as maiores tatuagens, as unhas mais compridas, os cabelos mais compridos... Valha-me Deus!
Enfim. Por aqui se vê a que damos importância neste pobre país de sonhos tão somenos.

Menu vegetariano

Algumas das minhas colegas gostam de comida vegetariana e de vez em quando falam nisso. Quando combinam ir almoçar ao "Cantinho Saudável"eu arranjo sempre uma forma de me escapar e tenho conseguido convencê-las a ir antes à pizzaria ao lado, que faz uma pizza de ananás que é uma delícia. Mas hoje não consegui, estavam decididas! (O grupo dividiu-se e uma parte preferiu ficar nem que tivesse de comer só uma sopa...)
Como gabaram tanto a quiche de legumes e os bróculos com molho branco gratinado, achei que aquela repulsa podia ser mania minha e resolvi ir experimentar de novo... E lá fomos.
Chegadas ao restaurante, verificámos que não havia quiche, nem bróculos gratinados. Havia almôndegas de cereais, tofu com broa, feijão frade, bróculos cozidos e não sei mais o quê!
Já que estava ali, não iria dar parte de fraca. Na fila para o self-service, só pensava na pizza fofinha com muito queijo derretido a fazer fios até à boca, no ananás doce e sumarento e na mousse de chocolate caseira.
Chegou a minha vez de escolher e sentia que devia ir-me embora enquanto era tempo.
Bom, tinha que ser... estava escrito! Avancei.
Fizeram-me um pratinho com duas almôndegas, o tofu com broa, os bróculos e o feijão. Uma colherzinha de cada. Nem doce, nem bebida, nem nadinha de nada mais. A coragem que tinha angariado não chegava para experimentar o sumo de beterraba!!!
O tamanho do prato era de sobremesa, mas eu adivinhava isso como uma vantagem.
Não me esquecia do queijo derretido a fazer fios, ali duas ruas mais à frente... Uahmm, Uahmmm.
Depois de nos sentarmos com o tabuleiro à frente, tive esperança de que aquele pratinho de alimentos sem molho, sem brilho, sem cheiro, recusando misturar-se uns com os outros, ignorando-se mesmo depois de eu quase entornar tudo, sem cor definida (a não ser os bróculos que pareciam crus), se revelasse uma agradável surpresa de sabores.
Mas não! A esperança desvaneceu-se logo à primeira garfada. As almôndegas tinham na sua massa de flocos de cereais qualquer coisa que me parecia ser cebola. O feijão era mesmo e só feijão. Não tinha azeite, sal, vinagre, nada. Os bróculos sabiam a alho e acho que foi ele que "conversou" com a cebola toda a santa tarde, no meu estômago.
Comi, fiquei tão cheia que parecia ter engolido uma pedra, sem conseguir encontrar explicação para isso. Alimentos naturais, vegetais, sem gorduras, temperos e outros exageros, fizeram uma bola no meu estômago e não se cansaram de tagarelar até à 3ª chávena de chá, que bebi pelas 21h. Senti na língua aquele gosto ácido que não identificava, durante horas, apesar das águas, das tangerinas e das pastilhas elásticas, que mastiguei desesperadamente.
As minhas colegas perguntaram-me se eu tinha gostado.
Eu respondi: Como tenho perdido a memória ultimamente e já não consigo guardar as coisas por mais de mês e meio, podem voltar a convidar daqui a dois meses!
Por uns tempos vou voltar às gorduras, ao sal, à pimenta, aos molhos, ao bife com ovo e batatas fritas, às pataniscas e ao bacalhau com natas, tudo com uma salada de alface, tomate, pepino, cenoura e cebola, para não sentir remorsos, "temperados por um cego e mexidos por um louco".

Três estações num fim de semana

"O clima está a mudar" é a frase que se ouve a toda a hora e parece que ninguém pára para pensar no significado do que diz.
Na sexta feira estava um frio de morrer. Tiritava nos corredores de cada vez que saía do gabinete. Encolhia os ombros e caminhava depressa para evitar o frio.
Um arzinho gelado cortava-me os rins e deixava-me sem vontade de me levantar da cadeira, onde tostava as canelas no aquecedor.
No sábado, acordei e pensei que o melhor seria ficar em casa e ver um filme, ler um pouco, escrever qualquer coisita, já que o frio me deixa sem vontade de pôr o nariz na rua. Mas não.
Estava um sol maravilhoso, um dia brilhante e quente como poucos na Primavera.
Fui às compras e como não me apetecia voltar para casa, passei pela praia.
O mar estava calmo, com ondas lânguidas que se espreguiçavam na areia entre bocejos suaves. O Sol abria as cores no horizonte e o Céu estava mais azul que nunca.
Regressei com pena de deixar para trás aquele mar e aquele céu pois queria abrir as janelas e encher a minha casa com a energia tão revigorante que aquele calor trazia.
Domingo, mal acordei, pensei ir fazer jardinagem.
Levantei-me entusiasmada com a ideia, já que não fazia nada no jardim há muitos fins de semana.
Mas um ping ping fez-me parar e aguçar o ouvido, de pé, à beira da cama.
Seria mesmo o que eu pensava?
A chuva batia na varanda com uma persistência cadenciada e o sol voltara a desaparecer atrás da cortina cerrada de nuvens.
Passei o dia a podar as roseiras e a fugir das pancadas de água com que era brindada volta e meia. Mudei de roupa por duas vezes e só desisti por ter terminado a poda, pois o esforço não me deixava sentir frio. Também temia ficar doente quando uns pingos mais grossos me acertavam e faziam arrepiar.
Na 6ª feira fora Inverno. No sábado reinara a Primavera. No Domingo lá estava o Outono!

Amores...

Doris Day era considerada uma pessoa com muito bom coração, muito "boazinha".
A sua razão de viver era a defesa dos direitos dos animais.
Uma das histórias que contam para mostrar esse amor da actriz, é aquela em que rodava um filme numa quinta, onde entrava um camião cheio de galinhas.
No fim de cada filmagem, ia verificar se cada galinha estava bem...
Recolhia todos os cães que encontrava ou que lhe deixavam à porta de casa.
Então, um dia, o seu motorista ficou a tomar conta dos 2 pequenos cães que a acompanhavam para todo o lado.
Eles puseram a cabeça de fora da janela e ele, distraído, carregou no botão de fechar a janela.
Nada lhes aconteceu, mas ele foi despedido.
Toda a vida lutou pelos direitos e bem estar dos animais, no entanto despede um motorista por motivo tão fútil.
Conheço muitas pessoas assim, tratam os cães e os gatos com desvelo, mas são incapazes de dar uma moeda a um sem abrigo...
Fazem festas carinhosas e dirigem palavras ternurentas aos cães que encontram a deambular, mas não passam a mão na cabeça de uma criança que esteja suja e peça pão na rua.

À meia dúzia

Um conhecido meu envia-me regularmente pequenos filmes que circulam na net.
Em algumas mensagens, cheguei a contar 40 endereços de senhoras a quem ele enviava o mesmo filme.
Por achar graça à quantidade de correspondentes femininas que tinha, comentei isso a brincar com ele.
Não gostou e respondeu-me que não tinha 40 mulheres, mas "apenas" se correspondia com 6.
Lembrei-me então de tantos homens que toda a minha vida ouvi lamentarem-se da dificuldade que tinham em aturar as mulheres e contei-lhe uma história antiga.
"Um homem tinha dois filhos e o mais velho veio dizer-lhe que queria casar-se com duas mulheres. O pai, não se mostrando surpreendido, respondeu-lhe que estava bem, mas que se casasse primeiro com uma e logo se casaria com a outra. O rapaz aceitou a sugestão.
Passado um tempo, o filho mais novo veio falar com o pai e mostrar a sua vontade de se casar também. O irmão, ao ouvir isto, respondeu: "Queres-te casar? Para quê? A minha mulher chega bem para os dois!"
Este meu conhecido reconhece-se como muito ansioso e impulsivo... Pudera, 6 mulheres esgotam o mais paciente! Isso acredito eu.

Dia primeiro

2008 chegou com Sol e temperatura de Primavera.
Retrata a Esperança de termos deixado o mau tempo em 2007 .

Vamos conseguir finalmente arranjar emprego, ter casa, ter acesso a uma saúde condigna, ter escolas mais perto, mais baratas e interessadas na educação, ver a riquesa ser dividida de forma mais justa, ver desaparecer a violência, o crime, o abandono e a miséria.
Vamos olhar para as crianças com carinho, para os idosos com respeito, para os imigrantes com tolerância, para os diferentes com aceitação e para nós mesmos com exigência.
Vamos ler mais, rir mais, dançar mais, criar mais.
Veremos os olhos uns dos outros, porque nos olharemos de frente.
Saberemos calar-nos, porque só assim poderemos ouvir o que nos dizem.
Seremos capazes de nos colocar no lugar do outro que avaliamos e de tentar ter a medida do que realmente valemos.
Não esqueceremos nunca que a vida pode terminar a cada minuto e por isso a teremos de aproveitar o melhor possível.
Ver-nos-emos como se assistissemos à nossa prestação no Big Brother e justificaremos os erros dos outros como sabemos justificar os nossos.
Iremos reencontrar a nossa alma gémea ou apenas encontrar o amor.
Vamos amar o que fazemos, o que vivemos, o que vemos, o que ouvimos, o que desejamos, o que conseguimos, o que sonhamos.
Vamos apaixonar-nos.
Vai ser um Ano fabuloso, este 2008.

ANO NOVO

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Novo Ano se aproxima e constantemente ouvimos os votos de amigos e conhecidos para mais uma contagem de calendário, que porque apenas recomeça, traz esperança de felicidade.
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Os votos repetem-se e pouco variam - Saúde, Amor, Dinheiro e Paz. Só vai mudando a ordem conforme a importância que cada um lhes dá.
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Eu, como tive o meu neto pequenino doente e internado no hospital, tenho pensado muito na saúde, mas na saúde das crianças. Penso nelas de forma dorida, penso no pior que lhes acontece todos os dias e pergunto-me alarmada para onde está a evoluir a sensibilidade dos homens.
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Quando vemos as notícias parece que tudo é muito longe de nós e que nada tem a ver connosco. Às vezes, olhamos tão indiferentes para as catástrofes relatadas, como se tudo estivesse a acontecer num filme, produto de montagem, ou noutro planeta onde os seres nos são desconhecidos.
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A Fome. A fome, que é tanta e de tanto tempo, que mata.
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Uma das medidas de tratamento do meu neto no hospital D.Estefânia em Lisboa, foi a redução ao máximo dos alimentos. Assim, ele que já tomava a dose de 210 de leite no seu biberon, passou a receber apenas 90. Os seus gritos e os olhos suplicantes a seguirem o biberon, faziam-nos tanto mal que não pude deixar de pensar no que se passa em tantos lugares do Mundo em que se morre de fome.
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Lembrei-me das imagens das crianças de Bogotá, com 4 ou 5 anos no máximo, que às dezenas se escondem nos esgotos da cidade para fugirem aos esquadrões da morte, que as assassinam porque roubam uma peça de fruta ou um pacote de biscoitos.
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Também em África, vinga a fome que não deixa medrar, que definha, que torna vidrados os olhos dos adultos e tira o choro às crianças.
Nos dias que passei com os meus filhos no Hospital D. Estefânia, esperando voltar a ver o pequeno Tomás com saúde, soube da existência de crianças no sector ao lado, que tinham sido vítimas de maus tratos atrozes. "De doer o coração" dizia-me a enfermeira.
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A Violência. A violência do gesto, da agressão, da dor, da mutilação, da palavra, do abandono.
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Parece que tudo acontece em países distantes e com pouca relação com a nossa vida... mas ali estavam, bem perto de mim, crianças que tinham sido agredidas, violentadas e abandonadas no hospital que as tentava salvar.
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A Guerra. Crianças que têm de acompanhar os pais durante infindáveis caminhos para fugirem à morte, que vêm cair ali ao lado, em mares de destroços e sangue e têm de fugir, sem saber porquê, para onde e com quem, perdidas entre o terror e o cheiro da morte.
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A Doença. Quantas morrem de doenças que uma simples vacina evitaria?
O acesso a medicamentos, a médicos, a tratamentos, a vacinas, a cuidados de saúde é um luxo. A ciência descobre maravilhas na área da prevenção de doenças e no seu tratamento, no entanto grande parte da humanidade não tem como usufruir delas.
Não têm vacinas, não têm esgotos, não têm água, não têm lugar na vida que o dinheiro compra.
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O Abandono.Seres que se têm como invisíveis, porque ninguém os vê, por mais que olhem para as suas mãos, para os seus sinais, para os seus gestos. Não têm forma, tamanho ou voz. Ninguém sente o seu frio, a sua dor, o seu pânico, a sua tristeza, o seu olhar, o seu respirar, o seu desistir.
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A Escravidão.Pequenas mãos que trabalham em minas, em carvão, em pedra, em lixeiras, em poços, em túneis.
São mal alimentados, espancados, humilhados e ignorados como seres humanos. Pequenas criaturas tristes e indiferentes, que se habituaram a obedecer por medo e a suportar tudo porque não sabem como não o fazer. Quem tenta, encontra pior ainda!
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A Pedofilia. A vergonha, a vergonha! A vergonha de violar a alma de uma criança através da violação do seu corpo!
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Penso nas crianças que sofrem, porque me enchem o coração os seus risos, os seus abraços, as suas lenga-lengas, os seus jogos. Porque segurar na mão da minha neta, me dá força e coragem. Porque o vê-la dormir sossegada, o ouvi-la falar com as bonecas no seu quarto, o vê-la rir maravilhada com os desenhos animados, o acompanhá-la nos trabalhos da escola e assistir ao seu crescimento, me faz sentir mais humana e ter pena dos adultos que esbanjam tanto e vivem tão virados para si e para os seus bens, que perdem a sensação maravilhosa de ajudar uma criança a crescer.
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Neste Ano Novo desejo que o muito que uns desperdiçam ou não utilizam, chegue às crianças que vivem em esgotos, que se drogam nas ruas, que vasculham lixeiras, que partem pedra ou carregam carvão, que são agredidas, ignoradas e abandonadas, que sobrevivem em campos de refugiados, que não aprenderam a ler, a escrever, a jogar ou sequer a rir, de forma a que cada um de nós sinta que minorou o sofrimento de uma criança e fez dela um melhor ser humano .
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Que o sofrimento das crianças, não nos deixe indiferentes, principalmente por comodismo."Ah, aquilo é no Dafur! Nem sei onde fica..." "Em Bogotá? Isso é tão longe!"
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Que o meu supérfluo seja o tesouro de uma delas.
Uma apenas.
Uma que deixe de ser invisível.
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Bom Ano Novo para os homens de boa vontade.

Benazir Bhutto

Foi assassinada Benazir Bhutto, candidata à presidência do Paquistão e voz da oposição.
Benazir foi 1ª ministra do Paquistão aos 35 anos e a 1ª mulher muçulmana com um cargo tão importante.
Já sofrera um atentado de que escapara ilesa.
O pai tinha sido 1º ministro e fora executado por enforcamento.
Os dois irmãos tinham sido assassinados.
Encontrava-se no exílio há 8 anos e regressara ao seu país há 2 meses para se candidatar.
O seu assassinato parece não ter surpreendido ninguém. Foi uma morte anunciada.
Actos que se tornam habituais, previsíveis, esperados como inevitáveis e predestinados.
O poder é mais viciante que a mais forte das drogas.
E assim se vive o Natal!

Natal...que significado?

O Natal já passou e o Ano Novo já está aí mesmo à porta.
A corrida às lojas encheram as ruas e os centros comerciais. Muito dinheiro se gastou em prendas, em doces, em alimentos fora do habitual. Muito se estragou. Tudo em nome do Natal!
No entanto pouco se fala já do motivo da festa que fazemos-do nascimento de Jesus. Passaram a ser feitas árvores com fitas e bolas de cores brilhantes em vez de presépios com modestos pastores e a Família Sagrada em estábulo escuro e pobre. Abrem-se presentes, em vez de se ir à Missa do Galo.Compram-se lampreias de ovos em vez de se tenderem as filhós de massa finta.
Muito se gasta em lampadas e enfeites para as ruas de todas as cidades. Rolos e rolos de papel de embrulho colorido e fitas sedosas aparecem à venda por todo o lado e desaparecem rapidamente nos primeiros dias de Dezembro.
Fazem-se listas de tudo - de pessoas a convidar, de presentes a escolher, de comidas para fazer, de roupas para estrear - como se o esquecimento do mais pequeno pormenor estragasse tão importante festa.
Emprega-se a palavra Natal a torto e a direito.
Mas continua a imperar na vida do homem a inveja, o ódio, a má vontade, o egoísmo, a vaidade, a prepotência, a incompreensão, a mentira, a violência, a maldade...
Não é lembrada a mensagem de Jesus, apenas crescem os interesses de cada um para alimentar o desejo de poder, de ser, de parecer.
Quando voltará a palavra Natal a ser usada no seu verdadeiro significado?

Idade Média?

“A rapariguinha, completamente nua, é imobilizada na posição de sentada num banco baixo por pelo menos 3 mulheres. Uma delas com os braços, muito apertados, à volta do peito da criança; as outras duas mantêm abertas as pernas da criança à força de modo a abrirem bem a vulva. Os braços da criança são amarrados atrás das costas ou imobilizados por duas outras convidadas.
(...) Em seguida a velha tira a lâmina e extirpa o clítoris. Segue-se a infibulação: a operadora corta com a lâmina o lábio menor de cima a baixo e em seguida raspa a carne do interior do lábio grande. Esta ninfectomia e raspagem são repetidas do outro lado da vulva. A criancinha grita e contorce-se de dor, apesar da força exercida sobre ela para ficar sentada.
A operadora limpa o sangue das feridas e a mãe, assim como as convidadas, “verificam” o seu trabalho, por vezes pondo lá o dedo. A intensidade da raspagem dos lábios grandes depende da habilidade “técnica” da operadora. A abertura que é deixada para a urina e para o sangue menstrual é minúscula.
Depois a operadora aplica uma pasta, assegura-se que a adesão dos lábios grandes fica feita através de um pico de acácia, que fura um lábio passando através deste para o outro. Desta maneira enfia 3 ou 4 na vulva. Estes picos são depois mantidos nesta posição com uma linha de coser ou com crina de cavalo. Volta-se a pôr pasta na ferida.
Mas tudo isto, não é o suficiente para garantir a união dos lábios grandes; por isso a rapariguinha é então atada a partir do pélvis até aos pés: faixas de tecido enroladas como uma corda imobilizam completamente as pernas. Exausta, a rapariguinha é depois vestida e deitada numa cama. A operação dura de 15 a 20 minutos segundo a habilidade da velha e a resistência que a criança oferecer.”
Retirado do livro "Mulheres e Direitos Humanos", publicado pela Amnistia Internacional

Os ponteiros não param...

O tempo passa num instante!
Ainda ontem era Verão e já estamos perto do Natal.
Parece que a Rita esperava o bébé ainda há pouco e o Tomás já fez 4 meses, já come papa e dá gargalhadas.
A Francisca... então a Francisca tem sido vê-la crescer e evoluir com uma velocidade...
Frequenta a 4ª classe, canta no coro da Igreja, dança hip-hop, estuda inglês, tem endereço electrónico. Fez 8 anos!
Nem dou pela passagem rápida dos dias...
Vou adiando para amanhã o passeio que tenho vontade de dar, a visita que quero fazer, o projecto com que tenho sonhado...
Não aproveito para ver lugares, para estar com as pessoas, para gozar as poucas coisas que possuo, para fazer o que mais gosto. Limito-me a ir para o trabalho e quando regresso, ver um pouco de TV, andar pela net e manter a minha casa em ordem.
De 15 em 15 dias vou ao Fundão e de regresso, depois de rever a vida da minha mãe, faço projectos para aproveitar melhor a minha, vivendo mais como gosto. Mas a rotina impôe-se sempre, porque tenho que trabalhar para me sustentar e pagar as minhas despesas.
Depois, pouco tempo resta e pouco dinheiro também...
Sinto-me sempre na mesma, talvez porque sou saudável e me movimento bem, não tomo consciência das mudanças, mas quando encontro alguém da minha idade, admiro-me do efeito dos anos na sua pele, nos seus olhos (como ficam tristes e desiludidos os olhos da maior parte das pessoas, com o passar dos anos!), nas suas feições, no seu corpo.
É então que tento avaliar-me ao espelho com critério mais crítico e consigo ver os estragos. E não são só físicos... muito poderia ter feito que está perdido irremediavelmente.
Mas a rotina é rotina e pouco se altera, apesar das boas intenções, dos muitos planos.
E assim passam os dias, os meses, os anos... a vida.